Regina Casé nos lembra por que o teatro continua sendo insubstituível
VIVA! VIDA! fica em cartaz entre 9 de julho e 2 de agosto em São Paulo com um solo vibrante de Regina Casé

Assisti a VIVA! VIDA! no Rio de Janeiro em uma situação que já dizia muito sobre a força do espetáculo. Um domingo em que boa parte do país estava com os olhos voltados para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo. A sessão, originalmente marcada para a noite, precisou ser transferida para as 11h30 da manhã. Domingo, manhã, Rio de Janeiro, futebol dominando as conversas. Ainda assim, o teatro estava completamente lotado. Antes mesmo da primeira fala de Regina Casé, aquela plateia já fazia uma declaração poderosa. Quando centenas de pessoas reorganizam o próprio dia para estar dentro de um teatro, existe ali algo que ultrapassa o entretenimento. Existe uma experiência que vale a pena ser vivida.
Foi exatamente isso que encontrei.
Vivemos uma época em que boa parte das produções parece disputar espaço com o cinema, com os streamings e com as redes sociais. Multiplicam recursos tecnológicos, efeitos visuais e grandes estruturas cenográficas, muitas vezes esquecendo aquilo que sempre foi a essência do teatro. VIVA! VIDA! faz justamente o caminho contrário. Mesmo utilizando tecnologia de maneira sofisticada, nunca permite que ela ocupe o lugar da palavra, da interpretação ou da presença humana. Tudo o que aparece em cena existe para ampliar o trabalho da atriz, jamais para substituí, e essa escolha revela um profundo respeito pela própria linguagem teatral.
Costumamos ouvir que o teatro nasceu na Grécia. Essa afirmação faz sentido quando pensamos na tradição ocidental, mas ela também apaga outras histórias. Muito antes da sistematização grega da dramaturgia, diferentes povos já encenavam seus mitos, narravam suas memórias e organizavam coletivamente suas experiências por meio da oralidade, da música, da dança e da representação. Os griôs africanos preservaram civilizações inteiras através da palavra. Entre inúmeros povos originários brasileiros, os mestres da narrativa transmitiam conhecimentos que atravessavam gerações. Contar histórias diante de uma comunidade sempre foi uma necessidade humana. O teatro não pertence a uma única civilização. Pertence à humanidade.
Talvez seja justamente por isso que VIVA! VIDA! emocione tanto. O espetáculo recupera essa dimensão ancestral do ato de contar histórias. Regina Casé conduz a plateia como quem conversa diretamente com cada pessoa presente. Seu domínio da cena impressiona porque nunca depende do excesso. Ela não interpreta para demonstrar talento. Interpreta para estabelecer vínculo. Existe uma naturalidade que só é alcançada depois de décadas de ofício. Cada pausa, cada mudança de ritmo, cada gesto parece simples, quando na verdade revela uma atriz que conhece profundamente o valor da palavra.
O texto de Estevão Ciavatta Pantoja também merece destaque por fugir das armadilhas do didatismo. Atravessar bilhões de anos da história do planeta até chegar às inquietações da vida contemporânea poderia facilmente transformar o espetáculo numa aula ilustrada. O caminho escolhido é outro. Ciência, humor, filosofia, afeto e cotidiano convivem organicamente, fazendo com que o público descubra ideias complexas sem perceber que está refletindo sobre elas. É um texto que respeita a inteligência do espectador porque nunca subestima sua capacidade de pensar.
A direção de Ciavatta e Daniela Thomas demonstra a mesma inteligência. Os recursos tecnológicos impressionam, mas nunca chamam mais atenção do que a atriz. Os painéis de LED dialogam com Regina, a trilha sonora de Amaro Freitas amplia sensações e a cenografia de Thomas cria atmosferas, mas nada disso rompe a relação mais importante da noite, aquela entre uma artista e sua plateia. Em tempos em que tantos espetáculos confundem inovação com excesso, VIVA! VIDA! entende que tecnologia é linguagem, não protagonista.
Outro aspecto admirável está na maneira como o espetáculo compreende a ideia de conhecimento. Embora dialogue permanentemente com a ciência, o texto não estabelece qualquer hierarquia entre aquilo que chamamos de saber científico e os conhecimentos produzidos por povos originários brasileiros ou pela tradição iorubá. Ao contrário, reconhece que existem diferentes formas de compreender a vida, o planeta e nossa própria existência. Essa escolha possui enorme relevância num país que ainda insiste em tratar saberes ancestrais como folclore, enquanto reserva à tradição europeia o selo de verdade universal.
É comum ouvir, ao final de apresentações como essa, alguém dizer que o espetáculo deveria estar nas escolas. Discordo dessa afirmação. Ele está exatamente onde precisa estar, no teatro. Não porque a escola não deva discutir esses temas, mas porque existem experiências que só podem ser produzidas pela arte. A escola informa e forma. O teatro transforma informação em experiência sensível. São funções diferentes e igualmente importantes.
Também escutei pessoas lamentando não terem levado os filhos. Novamente penso diferente. Não se trata de um espetáculo destinado às crianças, embora elas possam aproveitar, naturalmente. Trata se de um espetáculo destinado ao presente. Aos adultos que ainda acreditam que sabem tudo sobre o mundo. Aos jovens que vivem cercados por tecnologia. Aos idosos que carregam memórias. Em outras palavras, trata se de um espetáculo para qualquer pessoa disposta a revisitar sua própria existência.
Confesso que fico entristecido quando assisto a determinadas montagens e saio do teatro perguntando por que aquela história precisou ser contada. Não porque toda obra precise carregar uma tese política ou uma missão pedagógica, mas porque a arte precisa estabelecer algum tipo de diálogo com o seu tempo. Mesmo o entretenimento comunica uma visão de mundo. VIVA! VIDA! estabelece esse diálogo o tempo inteiro. Faz rir, emociona, provoca, diverte e convida o público a refletir sobre aquilo que normalmente passa despercebido na velocidade do cotidiano.
Dizer que esse espetáculo é necessário virou quase um clichê. Prefiro afirmar outra coisa. Ele é importante. Importante porque reafirma a potência do teatro como espaço de encontro. Importante porque reúne ciência, ancestralidade, humor e poesia sem transformar nenhuma dessas dimensões em caricatura. Importante porque entrega uma Regina Casé em estado de absoluta maturidade artística. E importante porque nos faz sair do teatro lembrando de algo essencial: enquanto houver pessoas reunidas para contar e ouvir histórias, haverá sempre uma possibilidade de reinventar a maneira como enxergamos a vida.
Serviço
VIVA! VIDA!
Datas: de 9 de julho a 2 de agosto. Quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 17h.
Local: Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.




