Rodrigo França

Em peça, Taís Araújo se reafirma como uma das grandes atrizes do país

Um dos grandes nomes da televisão e do teatro, Taís Araújo está em cartaz com o espetáculo Mudando de Pele no Rio de Janeiro

atualizado

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O teatro veste Taís Araújo com a elegância das grandes atrizes, como Chica Xavier, Léa Garcia e Ruth de Souza, mulheres que transformaram o palco brasileiro em território de memória, dignidade e permanência. Há atrizes que interpretam personagens. Taís reorganiza atmosferas. Em Mudando de Pele, no Teatro do Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, ela faz algo ainda mais raro no teatro contemporâneo brasileiro: transforma subjetividade em linguagem filosófica, atravessando fragilidade, desejo, deslocamento e reconstrução com densidade humana e sofisticação cênica.

Talvez este seja o gesto mais potente do espetáculo dirigido por Yara de Novaes. A peça compreende que identidade não é um território estável, mas uma negociação permanente entre aquilo que o mundo projeta sobre nós e aquilo que tentamos preservar intimamente. Mayah carrega rupturas silenciosas, cansaços acumulados e perguntas existenciais que ultrapassam qualquer definição simplista. E existe uma inteligência delicada na forma como o espetáculo escolhe não oferecer respostas fáceis. Pelo contrário, convida o público a permanecer dentro das contradições da personagem, entendendo que amadurecer também é reconhecer as marcas deixadas pelos lugares onde fomos obrigados a caber.

O teatro veste Taís Araújo com a elegância das artistas que compreendem que presença não é apenas técnica, é memória. Há atrizes que interpretam personagens. Taís reorganiza atmosferas. Em “Mudando de Pele”, no Teatro do Sesc Ginástico, ela faz algo ainda mais raro no teatro contemporâneo brasileiro: transforma subjetividade negra em linguagem filosófica, sem precisar reduzir sua existência à pedagogia da dor.

Talvez este seja o gesto mais revolucionário do espetáculo dirigido por Yara de Novaes. A peça não está interessada em produzir uma mulher negra apenas pela lente da sobrevivência, trauma ou resistência heroica. A personagem Mayah quer mais. Quer o direito ao desconforto, à contradição, ao esgotamento dos pactos sociais que adoecem silenciosamente mulheres que passaram a vida inteira performando adequação. E existe uma sofisticação política nisso.

O texto da inglesa Amanda Wilkin encontra no Brasil um espelho assustadoramente íntimo. Porque a peça fala sobre pertencimento, mas também sobre o preço violento da adaptação. Quantas pessoas negras chegaram em espaços de prestígio sem jamais serem autorizadas a descansar dentro deles? Quantas aprenderam a modular voz, desejo, raiva e aparência para serem aceitas? A peça entende que o racismo contemporâneo nem sempre opera pelo confronto explícito. Muitas vezes ele opera pelo desgaste subjetivo.

E Taís compreende isso com uma inteligência cênica impressionante. Sua atuação não busca explosões gratuitas. Ela trabalha nas fissuras. Nos silêncios. Nos pequenos colapsos emocionais de quem percebe que passou décadas tentando caber em estruturas incapazes de acolhê-la integralmente. Há uma maturidade brutal na maneira como ela sustenta o tempo da cena sem cair em virtuosismo teatral. É uma atriz absolutamente consciente do que significa ocupar o palco sendo uma mulher de sua geração.

A direção de Yara de Novaes é outro acontecimento. Yara dirige como quem entende que teatro não é ilustração de texto, é arquitetura emocional. Sua encenação cria fluxo, suspensão e musicalidade sem sufocar a atriz. Existe rigor, mas também delicadeza. E talvez o maior acerto seja justamente transformar o solo em experiência coletiva. Porque Dani Nega e Layla não acompanham Taís. Elas atravessam a narrativa junto dela.

A direção musical de Dani Nega merece destaque especial pela inteligência dramatúrgica. A música não entra como comentário estético. Ela funciona como memória ancestral, como pulsação subjetiva da personagem. E Layla, trazendo a kora africana para a cena, faz algo simbolicamente poderoso: reinsere sonoridades africanas em um teatro brasileiro que historicamente embranqueceu suas referências de sofisticação artística. Há política nisso. Há reparação estética nisso.

Também é impossível ignorar o trabalho monumental de Teresa Nabuco nos figurinos. A roupa deixa de ser ornamento e passa a funcionar como estado emocional. A peça entende que identidade também é camada, proteção, armadura e ruptura. Mayah literalmente muda de pele diante do público, e poucas metáforas poderiam ser tão precisas para falar sobre mulheres negras que sobreviveram à obrigação histórica de se desmontarem para existir socialmente.

Saí do teatro pensando que Dona Ruth de Souza, Dona Léa Garcia e Dona Chica Xavier talvez assistam artistas como Taís com algum tipo de serenidade histórica. Porque existe continuidade. Existe legado. Há uma geração de atrizes negras que não aceita mais existir apenas como símbolo de resistência, mas como produtoras de complexidade humana.

“Mudando de Pele” não é apenas o retorno de Taís Araújo ao teatro. É a reafirmação de que o palco brasileiro ainda pode ser espaço de pensamento, beleza, identidade e transformação verdadeira.

O espetáculo estreia em São Paulo no dia 3 de junho e segue em cartaz até 5 de julho.

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