
Rodrigo FrançaColunas

As micronovelas das frutas: o que está por trás dos vídeos “inocentes”
O que antes seria inaceitável em uma novela de grande emissora, hoje circula livremente em vídeos de poucos segundos
atualizado
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Era um morango que apanhava do marido, um abacate. O motivo parecia banal, ele dizia que ela era “ácida demais”, fora do padrão, difícil de agradar. O que começava como piada virava rotina. O abacate pedia desculpas depois, dizia que era amor, que ela provocava. O morango, pequeno, vermelho, exposto, ia acreditando. Até que um dia amadureceu, não no sentido da doçura que ele exigia, mas no entendimento. Saiu. E a história termina como tantas outras que parecem leves, mas carregam um peso conhecido.
Essa narrativa, que poderia ser só mais um vídeo curto nas redes sociais, revela uma tendência crescente das chamadas micronovelas protagonizadas por frutas, objetos ou personagens não humanos. Um formato que, à primeira vista, parece inofensivo, quase infantil, mas que opera em um território simbólico potente. É ali que valores são testados, reforçados e, muitas vezes, naturalizados.
A questão não é o uso de elementos fantásticos. A literatura, o teatro e o audiovisual sempre recorreram a metáforas e alegorias para falar do humano. O ponto de atenção está no tipo de discurso que essas formas estão carregando hoje. Quando um morango apanha de um abacate, não estamos diante apenas de uma invenção criativa. Estamos diante de uma codificação.
Platão, ao discutir o papel da arte na formação da pólis, já alertava para o poder das narrativas na construção do pensamento coletivo. Para ele, as histórias não eram neutras, elas educavam, moldavam e direcionavam o comportamento. Séculos depois, Stuart Hall amplia essa compreensão ao afirmar que toda mensagem cultural é produzida dentro de um sistema de codificação. Ou seja, nada do que vemos circula sem intenção, ainda que essa intenção não seja consciente para quem consome.
O que vemos hoje nas redes é uma reconfiguração desse processo. As micronarrativas, rápidas, acessíveis e altamente compartilháveis, operam como dispositivos de formação simbólica em larga escala. Diferente dos veículos tradicionais, que passaram por décadas de crítica e revisão sobre representações, especialmente no que diz respeito a gênero, raça e poder, o ambiente digital ainda funciona com menos filtros e menos responsabilidade editorial.
Não é coincidência que temas já amplamente debatidos e tensionados na televisão, no cinema e no teatro retornem nessas produções com roupagens aparentemente ingênuas. O machismo, por exemplo, muitas vezes reaparece vestido de humor ou de conflito “fofo” entre personagens não humanos. A violência simbólica é diluída pela estética lúdica.
Do ponto de vista sociológico, isso revela uma permanência estrutural. A sociedade avança em seus discursos institucionais, mas encontra caminhos paralelos para manter certas lógicas intactas. O que antes seria inaceitável em uma novela de grande emissora, hoje circula livremente em vídeos de poucos segundos, sem mediação crítica.
Há um dado ainda mais profundo. A utilização de objetos ou alimentos como personagens cria um distanciamento que permite a aceitação de comportamentos que seriam imediatamente rejeitados se representados por pessoas. Esse deslocamento simbólico reduz a resistência do público. Ao não se reconhecer diretamente na cena, o espectador relaxa seu julgamento.
Mas esse relaxamento tem custo. Ele abre espaço para a reintrodução de valores que já deveriam estar superados no debate público. A mulher, ainda que representada por um morango, continua sendo colocada como exagerada, sensível demais, culpada pela violência que sofre. O masculino, mesmo quando encarnado em um abacate, mantém sua posição de controle, justificando seus atos como reação.
O argumento de que “é só uma brincadeira” não se sustenta quando observamos o alcance dessas narrativas. As redes sociais não são apenas espaços de entretenimento. Elas são, hoje, um dos principais ambientes de socialização, especialmente para jovens. É ali que referências são construídas, que comportamentos são aprendidos e replicados.
Há também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. O engajamento gerado por esse tipo de conteúdo recompensa a repetição de fórmulas. Quanto mais essas histórias circulam, mais elas são produzidas. Cria-se um ciclo em que o algoritmo favorece aquilo que já demonstrou capacidade de prender atenção, independentemente da qualidade ética do que está sendo veiculado.
Isso não significa defender censura ou limitar a criatividade. Pelo contrário, trata-se de ampliar a consciência sobre o que está sendo produzido e consumido. A liberdade narrativa não elimina a responsabilidade simbólica.
O desafio, portanto, não está em proibir o morango de falar ou o abacate de existir como personagem. Está em questionar o que eles estão dizendo. Quem escreveu as falas. Que valores estão sendo reforçados sob a aparência de leveza.
Porque, no fim, não é sobre frutas. É sobre a forma como seguimos contando, repetindo e legitimando histórias que já deveriam ter sido transformadas.
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