Rodrigo França

A Nobreza do Amor: na tradição e na ruptura, a novela ganha potência

A Nobreza do Amor é um passo gigantesco na busca por uma televisão mais diversa, justa e representativa

atualizado

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Lázaro Ramos em A Nobreza do Amor - Metrópoles
1 de 1 Lázaro Ramos em A Nobreza do Amor - Metrópoles - Foto: Divulgação/Gshow

A maior força de “A Nobreza do Amor” reside em sua narrativa. Ao escolher contar a história de uma princesa negra de um reino africano próspero, a novela quebra o ciclo vicioso de retratar a população negra exclusivamente sob o estigmatizado prisma da escravidão.

A trama ousa saudar Exu com um corajoso “Laroyê!”, invoca a sabedoria ancestral do jogo de Ifá, aquele sistema oracular que conecta o presente ao passado, o visível ao invisível, a ação ao destino. Essa escolha não é casual: é uma afirmação política e espiritual de que a cultura afrobrasileira, em toda sua complexidade e profundidade, é digna não apenas de representação, mas de reverência. É nítido, nos momentos mais sensíveis e potentes do texto, que há mãos negras no processo criativo.

Nesse contexto, o personagem de Lázaro Ramos, o vilão Jendal, emerge como uma das figuras mais implexas e fascinantes da teledramaturgia recente. Jendal, o Duque de Batanga que usurpa o trono, não é um vilão maniqueísta. Ele é a encarnação de uma verdade dolorosa, como expressa em uma de suas falas mais impactantes: “Fora de  Batanga, eu sou um qualquer de pele preta. Com pouquíssimas chances de ter algum poder nas mãos.”

Essa frase, dita por um homem que almeja e conquista o poder máximo em seu reino, é um soco no estômago da meritocracia e um retrato contundente do racismo estrutural. Ela nos lembra que, no olhar do branco racista, o poder de um negro é sempre questionado, relativizado, diminuído.

Mesmo sendo rei, com títulos acadêmicos ou uma conta bancária próspera, a cor da pele ainda é vista como um limite para o verdadeiro poder. Lázaro Ramos, com sua genialidade habitual, entrega um personagem que, mesmo em sua vilania, carrega a dor e a complexidade da experiência negra no mundo. É um vilão que nos faz pensar, que nos desconforta, que nos prende.

A Nobreza do Amor não é apenas uma novela. É uma grande mudança na televisão aberta. “A Nobreza do Amor” estreou na segunda-feira e provou que a teledramaturgia brasileira estava esperando por isso: uma narrativa que não pede permissão, que não se desculpa, que simplesmente existe em toda sua potência.

Os premiados roteiristas e escritores Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. entregaram um manifesto visual e político que prende desde o primeiro segundo. O primeiro capítulo não nos deixa respirar, é um espetáculo que nos prende, nos transporta para um reino africano de poder absoluto e nos força a questionar tudo o que pensávamos saber sobre a televisão brasileira. Não deixaria de citar os grandes colaboradores da narrativa Alessandro Marson, Dora Castellar, Duba Elia e Dione Carlos, com assistência no roteiro de Dimas Novais. Vale salientar o trabalho do intelectual Leandro Estevez, intelectual respeitado.

O elenco, em seu primeiro capítulo, mostrou-se em perfeita sintonia. Duda Santos, como a princesa Alika, transmite a força e a doçura de sua personagem com uma presença que hipnotiza. Ronald Sotto, como Tonho, representa a esperança e a força do povo com uma intensidade que toca.

Erika Januza, como a rainha Niara, e Welket Bunguê, como o rei Jafari, emprestam sua realeza e dignidade aos monarcas de Batanga com uma naturalidade impressionante. Cada ator entende o peso do que está sendo feito aqui, como Bukassa Kabengele, Paulo Lessa, Ana Cecília Costa, Emanuelle Araújo, Marcelo Médice. Sem esquecer de reverenciarmos os veteranos Zezé Motta e Hilton Cobra, cada um com a sua genialidade.

A novela faz uma escolha deliberada: celebrar a potência da cultura e da arte negra como força transformadora, como caminho de resistência e de afirmação identitária. Não é apenas contar uma história; é escolher qual história merece ser contada, qual perspectiva merece ocupar o centro da tela, qual beleza merece ser iluminada. E quando você assiste, percebe: essa escolha muda tudo.

A estética é arrebatadora. Gustavo Fernandez, diretor artístico que já nos impressionou em “Pantanal” e “Renascer” e Pedro Peregrino, diretor geral, criam dois universos que dialogam e se chocam. Batanga, o reino africano, é uma explosão de luz dourada e quente, uma África que raramente vemos na ficção, uma África de poder, riqueza e organização política. A fotografia, dirigida por Fabrício Tadeu, não se apressa; ela nos convida à contemplação.

Em contraste, Barro Preto, a cidade fictícia no Rio Grande do Norte, é apresentada com uma iluminação mais naturalista, mas igualmente poética, preparando o terreno para o choque cultural e social que a trama promete explorar. Desde o primeiro frame, você sente: isso é diferente. Isso importa. Trabalho poderoso de Andrea Kelly, responsável pela produção e de Daiane Rosário, produtora direta da novela.

O trabalho da equipe de arte, cenografia e figurino é simplesmente magistral. A construção de Batanga, que mobilizou mais de 300 profissionais, resulta em cenários que respiram história, poder e beleza. O figurino, assinado por Marie Salles, é uma obra de arte que merece ser analisada em detalhes. Com inspiração no tecido artesanal iorubá Aso Oke e o uso audacioso de pó de ouro, as vestes da realeza não são meros adereços, são símbolos de uma cultura rica, sofisticada e inegavelmente bela. A caracterização de Auri Mota, demonstra um cuidado e um respeito com a diversidade da beleza negra que é, por si só, revolucionário. Cada detalhe prende, cada cor conta uma história.

A trama, porém, não se contenta apenas em exibir a riqueza estética. Ela mergulha na questão política e econômica que estrutura a narrativa: a exploração das riquezas naturais de Batanga. O reino africano, possuidor de tungstênio e outras riquezas minerais, torna-se alvo da cobiça imperialista.

Os ingleses, representados em suas ambições colonialistas, tramam para controlar essas riquezas naturais, enquanto Jendal, o vilão, torna-se cúmplice dessa exploração em sua busca pelo poder. Essa camada narrativa não é mero pano de fundo: ela espelha a história real de exploração que marcou o continente africano e continua ecoando nas desigualdades contemporâneas.

A novela escolhe contar essa história de resistência, de luta pela soberania e pela proteção dos recursos que pertencem ao povo, elevando a narrativa além do romance pessoal para uma dimensão de luta coletiva. E é exatamente isso que nos prende, não é apenas um romance, é uma batalha.

“A Nobreza do Amor” é um passo gigantesco na busca por uma televisão mais diversa, justa e representativa. É a prova de que é possível contar histórias grandiosas, belas e complexas a partir de uma perspectiva não-branca. Mas, acima de tudo, é uma obra que escolhe o amor como pano de fundo, não um amor ingênuo ou desconectado, mas um amor que sonha, que resiste, que acredita na possibilidade de um mundo diferente.

Alika e Tonho, em suas trajetórias, carregam esse sonho: o sonho de liberdade, de dignidade, de um futuro em que a cor da pele não determine o tamanho do poder. A teledramaturgia brasileira estava, de fato, devendo uma novela como essa para o seu povo. Que a coragem de “Nobreza do Amor” seja a semente de uma nova era, onde todas as cores e todas as nobrezas tenham seu lugar de destaque, onde o sonho de igualdade não seja apenas narrativa, mas promessa. A coroa que faltava, enfim, chegou. E ela veio para ficar.

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