
Rodrigo FrançaColunas

Trabalhadora pediu ajuda à PMESP. Recebeu algema, camburão e humilhação
Vítima do calote trabalhista, Jussara Bonfim Silva transformou-se, num passe de mágica institucional, na vilã da ordem pública
atualizado
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Era uma sexta-feira comum na Avenida Paulista, o coração pulsante do capital paulistano, onde o asfalto ferve sob os passos apressados de quem produz a riqueza que raramente consome. Jussara Bonfim Silva, uma mulher trabalhadora, negra, diarista, mãe de família, caminhava com a esperança modesta de quem busca apenas o que lhe é de direito. Havia dedicado quatro dias de suor a uma empresa terceirizada. Quatro dias de trabalho árduo, de tempo subtraído de sua filha e de sua sobrinha, que a acompanhavam naquela tarde. O destino era um escritório espelhado, frio e impessoal, onde a burocracia deveria formalizar sua rescisão contratual. Jussara entrou acreditando na justiça dos números, na promessa de que o suor derramado seria convertido no pão de cada dia.
No entanto, a engrenagem do sistema tem dentes afiados para quem está na base. Ao assinar os papéis, a revelação cruel: não haveria pagamento. O trabalho de quatro dias fora reduzido a pó, a um zero absoluto na conta bancária de quem não tem o luxo de trabalhar de graça. A indignação, esse sentimento tão humano e tão negado aos oprimidos, tomou conta de Jussara. O grito preso na garganta de tantas trabalhadoras ecoou naquele escritório. Em um ato de desespero e revolta, um chute. Uma porta de vidro se estilhaçou, desabando sobre a mulher. O vidro quebrado não era apenas matéria; era a metáfora perfeita da ruptura entre a promessa do trabalho digno e a realidade da exploração.
A resposta do escritório foi imediata, mas não para reparar o erro trabalhista. A polícia foi chamada. E, aqui, a narrativa ganha contornos de uma tragédia anunciada. Jussara, ferida e enganada, esperou. Acreditava, em sua ingenuidade cidadã, que a Polícia Militar, o braço armado do Estado, estaria ali para mediar o conflito, para garantir que seu direito ao salário fosse respeitado. Mas o Estado, quando veste farda em um escritório da Avenida Paulista, raramente fala a língua de quem limpa o chão. Após uma breve conversa com os engravatados, a postura dos agentes mudou. A vítima do calote trabalhista transformou-se, num passe de mágica institucional, na vilã da ordem pública.
A cena que se seguiu é um retrato brutal, asqueroso e covarde da seletividade penal e da violência de Estado. Jussara, sem antecedentes criminais, autora de um crime de dano de menor potencial ofensivo, foi tratada como escória. A Polícia Militar, que deveria proteger, imobilizou a cidadã com truculência. Jogada ao chão, desumanizada, Jussara foi algemada e atirada no camburão, o porta-malas escuro e sufocante da viatura. Tudo isso sob o olhar aterrorizado de sua filha e sobrinha, crianças que assistiam, em prantos, à humilhação pública daquela mulher. Que trauma irreparável se planta na alma de uma criança ao ver a mãe, uma trabalhadora honesta, ser tratada como lixo pelo próprio Estado?
Como é possível acreditar em um Estado que age dessa maneira? Como confiar em uma polícia que, diante de um conflito entre o capital e o trabalho, escolhe invariavelmente esmagar o trabalhador? A força desproporcional aplicada contra o corpo de uma mulher negra e trabalhadora levanta a provocação filosófica e jurídica mais urgente do nosso tempo: o Estado está a favor de quem? Quando o patrimônio de uma empresa (uma porta de vidro) vale mais do que a dignidade, a saúde mental e o direito alimentar de uma trabalhadora, o contrato social revela sua face mais perversa. O Estado atua como o cão de guarda do capital, e a polícia é a sua coleira de espinhos. A lei, que deveria proteger o vulnerável, é usada como instrumento de tortura psicológica e física contra quem ousa cobrar o que é seu.
Jussara não quebrou apenas um vidro; ela estilhaçou a ilusão de que a justiça é cega. A justiça tem olhos bem abertos, e eles estão voltados para proteger os donos do escritório, enquanto o camburão é o destino reservado para as mãos calejadas de quem ousa gritar por dignidade.
Diante dessa barbárie televisionada, o silêncio das autoridades é ensurdecedor. Onde está o governador do Estado de São Paulo, chefe supremo dessa corporação, para responder por essa atrocidade cometida em plena luz do dia? A Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) precisa ser cobrada, não apenas com notas de repúdio vazias, mas com a expulsão sumária daqueles que desonram a farda ao torturar mães de família. E o Ministério Público de São Paulo, fiscal da lei e guardião da sociedade, não pode se acovardar. É preciso investigar, denunciar e punir não apenas os policiais que apertaram as algemas, mas a estrutura apodrecida que permite que o camburão seja o único destino de quem ousa cobrar seus direitos. A justiça não pode ser apenas uma palavra bonita nos tribunais; ela precisa descer à Avenida Paulista e olhar nos olhos de Jussara.
