Rodrigo França

Negros lutam por crédito, enquanto bilionários fraudam o sistema

Escândalo do Banco Master revela um banquete de bilhões de reais servido a uma seleta lista de convidados

atualizado

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Michael Melo/Metrópoles
Banco Master - Metrópoles
1 de 1 Banco Master - Metrópoles - Foto: Michael Melo/Metrópoles

São R$50 bilhões roubados, milhões de pessoas foram lesadas. Foram roubadas. Pessoas que economizaram, que confiaram, que perderam tudo ou quase. E quem perdeu? Principalmente quem não merecia perder: pobres, trabalhadores que já lutam todos os dias para sobreviver.

Essa é a realidade do apartheid financeiro brasileiro. De um lado, empreendedores, a maioria negros (54%), lutam para manter seus negócios de pé, esbarrando em uma muralha de desconfiança institucionalizada. Do outro, uma elite política e financeira, majoritariamente branca, se beneficia de um sistema que oferece oportunidades, legítimas e ilegítimas, apenas para quem tem a cor “certa” para impunidade no Brasil.

As estatísticas mostram que 47% dos empreendedores negros tiveram crédito negado, contra 34% dos brancos, segundo Sebrae/FGV (2022). 79% da população negra sofreu discriminação em instituições financeiras, conforme Instituto Locomotiva. Sem acesso a capital, investimentos e financiamentos, os negócios de empreendedores negros têm seu crescimento sufocado.

Enquanto a população negra luta por migalhas, o escândalo do Banco Master revela um banquete de bilhões de reais servido a uma seleta lista de convidados. Todos brancos. Todos poderosos. Todos com acesso aos cofres públicos e privados, tanto para ganhar honestamente quanto para roubar descaradamente. Enquanto isso, o negro honesto é criminalizando. É suspeito. É tratado como ladrão em potencial.

Mas o branco ladrão? O branco que rouba bilhões? Ele é protegido. Ele tem advogados, contatos, influência. Ele normalmente sai ileso. O empreendendo negro tem que se produzir, com a sua melhor roupa, para chegar no seu gerente e pedir crédito. Tem a porta giratória travada, é revistado pelo segurança e recebe uma resposta negativa da instituição financeira.

A meritocracia não existe no Brasil. Quem tem crédito é branco. Quem rouba bilhões também é branco. O crime de colarinho branco é literalmente branco porque o sistema foi construído para oferecer oportunidades apenas para quem tem a cor certa, não apenas para ganhar, mas para roubar sem ser punido. Para existir uma pequena fatia de bilionários brancos, existe uma grande fatia de gente pobre, principalmente negra, que o sistema deliberadamente não deixa crescer, não deixa evoluir, não deixa prosperar.

Enquanto o debate público se concentra na corrupção política, é preciso ampliar o foco e questionar a cor do dinheiro. Quem são os verdadeiros donos do poder econômico no Brasil?

Por que a população negra, que tanto contribui para a riqueza do país, continua à margem do sistema financeiro? Por que o negro honesto é tratado como criminoso enquanto o branco criminoso é tratado como virtuoso? O Brasil só será uma verdadeira democracia quando o acesso ao crédito e às oportunidades econômicas for um direito de todos, independentemente da cor da pele. Até lá, continuaremos a ser um país onde a cor do dinheiro define quem tem acesso ao futuro.

Sabemos que, se o dono do Banco Master fosse negro, ainda que essa hipótese seja quase impensável diante das barreiras estruturais, o desfecho provavelmente seria outro. O caso já estaria resolvido com rapidez exemplar. No imaginário punitivo do país, a sentença social viria antes mesmo da judicial. No caso real, com o dono do Banco Master sendo um homem branco, não faltam vozes que expressam dúvida, cautela e até compaixão. Há quem questione se ele não estaria sendo injustiçado, quem peça prudência, quem prefira aguardar.

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