Rodrigo França

Argentina: quando o racismo estrutura a sociedade, atravessa a família

Após advogada argentina Agostina Páez virar ré por injúria racial no Brasil, o pai dela, Mariano Páez, repetiu o mesmo ato em um bar

atualizado

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A maçã não cai longe da árvore, e o preconceito não nasce do vazio. Quando a advogada argentina Agostina Páez imitou um macaco para ofender trabalhadores no Rio de Janeiro, o choque foi imediato. Mas a verdadeira constatação da raiz desse mal veio pouco tempo depois, quando seu pai, Mariano Páez, repetiu o mesmo gesto asqueroso em um bar na Argentina, em tom de deboche, logo após a filha retornar ao país. Esse episódio não é apenas um caso isolado de injúria racial; é um retrato nítido de como o racismo é cultivado no seio familiar e chancelado por uma estrutura social que, historicamente, escolheu apagar a população negra de sua própria existência.

 

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A família é a primeira escola da vida, o útero onde os valores morais, éticos e sociais são gestados e transmitidos de geração em geração. A socialização primária ocorre no ambiente doméstico, onde a criança absorve as visões de mundo de seus pais como verdades absolutas. Quando um pai ironiza um ato racista que levou sua filha à prisão, ele não está apenas defendendo sua prole; ele está reafirmando a crença de superioridade racial que ensinou a ela. O racismo, portanto, não é um instinto natural, mas uma construção cultural meticulosamente ensinada no café da manhã e perpetuada nas atitudes cotidianas. Se uma sociedade é racista, suas instituições também o serão, e a família, como instituição basilar, atua como a principal correia de transmissão desse ódio estrutural.

Contudo, para compreender a naturalidade com que pai e filha performaram esse racismo, é preciso mergulhar na historiografia argentina, um país que construiu sua identidade nacional sobre o mito da branquitude europeia. Diferente do Brasil, que, apesar de seu racismo estrutural, reconhece a miscigenação e a presença marcante da população negra, a Argentina optou pelo apagamento sistemático. No final do século XVIII, os negros representavam cerca de metade da população de algumas províncias argentinas. Hoje, são estatisticamente invisíveis. Para onde foram os negros da Argentina?

A resposta reside em um projeto de Estado genocida e eugenista. Durante o século 19, líderes como Domingo Faustino Sarmiento (presidente entre 1868 e 1874) promoveram políticas de branqueamento, considerando a nação uma “amalgama danosa de raças incapazes”. A população negra foi dizimada em guerras, como a do Paraguai, e diluída através de uma miscigenação forçada, enquanto o Estado incentivava massivamente a imigração europeia para “civilizar” o país. O racismo institucional argentino foi tão eficiente que conseguiu convencer o mundo, e a si mesmo, de que lá “não existem negros”. Esse apagamento histórico criou um terreno fértil para que o racismo florescesse sem amarras, permitindo que atitudes racistas sejam vistas como meras brincadeiras ou manifestações de superioridade inquestionável.

Filosoficamente, o racismo é a negação do Outro como sujeito de direitos e de humanidade. Quando o pai de Agostina imita um macaco, ele está reduzindo o ser humano à condição de animal, despojando-o de sua dignidade para elevar a si mesmo. É a manifestação de um “ódio narcísico”, onde a elite branca precisa inferiorizar o negro para justificar seus próprios privilégios. Essa desumanização, aprendida em casa e validada por uma história de apagamento, revela a falência moral de uma estrutura que se recusa a olhar para o próprio passado.

No âmbito jurídico brasileiro, a resposta a esse tipo de conduta tem se tornado cada vez mais contundente. A Lei 14.532/2023 representou um marco civilizatório ao equiparar a injúria racial ao crime de racismo, transferindo-a do Código Penal para a Lei de Crime Racial (Lei 7.716/1989). Essa alteração legislativa reconhece que ofender a honra de alguém com base em sua cor ou raça não é um mero insulto pessoal, mas um ataque a toda uma coletividade e à dignidade humana. Com penas mais severas, inafiançáveis e imprescritíveis, o Brasil tenta impor limites legais a um racista que insiste em resistir. A sanção aplicada à argentina, que incluiu prisão, uso de tornozeleira eletrônica e o pagamento de quase R$ 100 mil em indenização, demonstra que o país não está mais disposto a tolerar que estrangeiros ou nacionais utilizem seu solo como palco para o racismo recreativo.

Tanto o Brasil quanto a Argentina têm muito a repensar sobre suas atitudes em relação à população negra. Enquanto o Brasil luta para desmantelar o racismo estrutural através de leis mais duras e ações afirmativas, a Argentina precisa, antes de tudo, reconhecer que a negritude faz parte de sua história e de seu sangue. O deboche de um pai diante do crime da filha não é apenas uma falha de caráter individual; é o sintoma de uma doença social profunda. Até que as famílias deixem de ser incubadoras de preconceito e as nações enfrentem seus fantasmas históricos, o espelho da intolerância continuará refletindo a pior face da humanidade. A verdadeira justiça não se faz apenas nos tribunais, mas na desconstrução diária do ódio que ensinamos às nossas crianças.

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