Carla Perez, Salvador e o Brasil que nunca deixou de ser colônia
Não é sobre Carla Perez ou Salvador, é sobre o Brasil que insiste em não enfrentar as próprias estruturas e reproduz símbolos coloniais
atualizado
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Os primeiros segundos dessa imagem não são inocentes. Eles condensam séculos. Uma mulher branca, loira, vestida como referência direta à Xuxa, elevada sobre os ombros de um homem negro, no centro de Salvador, cidade reconhecida como a capital mais negra fora do continente africano, segundo dados do IBGE. Em meio à festa, à música e à despedida anunciada por Carla Perez, a cena parece apenas mais um momento do Carnaval. Mas a história raramente é apenas cenário. Ela infiltra símbolos onde fingimos ver apenas alegria.
Brasil, século XXI? 2026, Sinhá (Carla Perez) e seu serviçal em pleno Carnaval de Salvador 😔 pic.twitter.com/VD2Zh2wVFi
— Gil Costta (@GilCostta) February 16, 2026
Não se trata de um ataque pessoal. Não é sobre intenção individual, é sobre estrutura. O Brasil foi erguido sobre um sistema escravocrata que organizou hierarquias raciais profundas, formalmente “encerradas” em 1888, mas jamais superadas de fato. A escravidão moldou relações de poder, imagens de autoridade e lugares sociais que continuam operando no imaginário coletivo. Isso não é retórica militante, é consenso historiográfico.
Quando uma mulher branca ocupa o alto e um homem negro sustenta, ainda que como profissional contratado, não estamos diante de um simples recurso logístico. Estamos diante de um símbolo. Símbolo é linguagem condensada. A pergunta que precisa ser feita, com maturidade e sem histeria, é: por que essa imagem ainda nos parece normal?
E Salvador torna essa pergunta ainda mais incômoda. Porque ali a contradição é visível. Durante o Carnaval, quem segura as cordas que delimitam os trios, quem protege os espaços da classe média alta e da elite, quem passa horas sob sol intenso por remunerações baixas, são majoritariamente homens negros. São os cordeiros. Diversas reportagens já denunciaram jornadas exaustivas e condições precárias de trabalho. Poucos artistas falam sobre ou o Estado se mobiliza para cobrar dignidade. Enquanto isso, quem ocupa a área VIP, quem consome os camarotes mais caros, quem aparece como rosto da festa, tende a refletir outro recorte racial e social. Não é coincidência, é estrutura.
Salvador revela o Brasil com nitidez cruel. A cidade mais negra do país reproduz uma lógica onde a negritude sustenta e a branquitude desfruta, por herança histórica não enfrentada.
Alguém pode dizer que é exagero politizar a festa. Mas o Carnaval nunca foi neutro. Ele escancara tensões sociais. Ele mostra quem serve e quem é servido, quem trabalha e quem celebra, quem segura a corda e quem atravessa protegida. Segundo dados do IBGE, pessoas negras continuam concentradas nas ocupações de menor remuneração e maior informalidade no Brasil.
Há ainda o elemento simbólico da referência à Xuxa, ícone de uma televisão que consolidou um padrão de beleza branco como ideal nacional, enquanto meninas negras raramente eram protagonistas. Pesquisas sobre representação racial na mídia confirmam a sub-representação histórica de mulheres negras em espaços de visibilidade. Por isso a crítica não é moralista, é estrutural. Não se trata de acusar Carla Perez de racismo deliberado. Trata-se de reconhecer que o Brasil, ao não resolver suas questões históricas, continua produzindo valores coloniais. A cena é consequência, não causa. Ela é o retrato de um país que aboliu a escravidão sem integrar, sem reparar, sem redistribuir poder simbólico e material. E continua sendo assim, sai e entra governo.
E justamente por ser despedida, surge uma pergunta ética. Se há compromisso com uma cultura antirracista, por que não transformar o gesto final em ruptura concreta? Por que não indicar uma menina negra para ocupar a continuidade do trio, não como exceção folclórica, mas como sucessão legítima de protagonismo? Seria um gesto pedagógico, simbólico e político. Seria uma imagem inaugural em vez de uma imagem que ecoa a colônia.
Salvador não é o problema isolado. Salvador é espelho. O que acontece ali revela o Brasil. Um país que celebra a diversidade no discurso, mas mantém hierarquias na prática. Um país que canta liberdade, mas naturaliza desníveis. Enquanto não enfrentarmos com seriedade nossas raízes escravocratas, continuaremos assistindo às mesmas coreografias sociais, apenas com figurinos diferentes.
A festa deve continuar. O que não pode continuar é a incapacidade de reconhecer que certas imagens não são neutras. Elas são memória ativa. E memória que não é elaborada vira repetição.







