Rodrigo França

Rainha na avenida, invisibilidade na comunidade

A menina negra que vive o carnaval o ano inteiro continua relegada ao papel de coadjuvante dentro da festa que nasceu da resistência

atualizado

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Wagner Meier/Getty Images
Grande Rio — Carnaval 2025
1 de 1 Grande Rio — Carnaval 2025 - Foto: Wagner Meier/Getty Images

Não é de hoje que o Carnaval transforma algumas em rainhas e outras em figurantes. O aplauso não se distribui de forma justa, ele escolhe quem já chega com holofote. Enquanto isso, a menina negra que vive o Carnaval o ano inteiro, treinando passos e sustentando tradições herdadas de seus ancestrais, continua relegada ao papel de coadjuvante dentro da festa que nasceu da resistência do seu povo.

Não se trata de reduzir a questão a saber sambar ou não. Afinal, quem deseja participar de qualquer evento cultural que não lhe é próprio costuma, no mínimo, se preparar com disciplina e respeito. A questão é mais profunda: estamos esvaziando o especial de quem deveria ocupar um lugar legítimo.

Em um país que tanto insiste na falácia da meritocracia, a cena do Carnaval revela mais uma vez a contradição entre discurso e prática. Se fosse realmente mérito, como justificar que aquelas que carregam a festa o ano inteiro sigam invisíveis, enquanto outras, com mais poder e dinheiro, se apropriam do espaço que não ajudaram a construir?

O Carnaval é uma indústria bilionária. O dinheiro circula, os patrocínios se multiplicam, a engrenagem cultural gira sem parar. Mas será que essa riqueza chega a quem ergue os barracões, costura cada fantasia, dá vida à batida do surdo? Ou permanece concentrada em quem desfila sob os refletores, representando uma comunidade que, na prática, pouco conhece? O que está em jogo não é apenas a presença de uma rainha que brilha na avenida, mas a ausência da menina negra que, mesmo preparada e talentosa, continua sem visibilidade.

O Brasil adora exibir ao mundo a grandiosidade da festa, mas se esquece de lembrar que ela nasceu da resistência negra. Cada ala, cada enredo, cada bateria carrega a memória de quem transformou dor em cultura, opressão em arte, invisibilidade em espetáculo.

Quando esse protagonismo é tomado, o que está sendo negado não é apenas um espaço simbólico, é o reconhecimento de uma história inteira. No fim, o brilho pode ser de outro, mas a pergunta permanece, insistente, como o tamborim que não se cala: quem colhe os frutos da festa que nasceu da resistência negra? E, mais ainda, até quando a meritocracia será usada como cortina de fumaça para encobrir privilégios e perpetuar ausências?

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