Rodrigo França

Filme Narciso é o cinema brasileiro em sua mais alta excelência

Em cartaz nos cinemas, Narciso tem direção de Jeferson De e tem nomes como Arthur Ferreira, Seu Jorge e Bukassa Kabengele no elenco

atualizado

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Cena de Narciso (2026), filme brasileiro dirigido por Jeferson De
1 de 1 Cena de Narciso (2026), filme brasileiro dirigido por Jeferson De - Foto: Divulgação

O filme Narciso está em cartaz nos cinemas e merece mais do que intenção, merece presença. Vá agora. No Brasil, o destino de um filme se decide nas primeiras semanas.

O cinema brasileiro clama por obras que não apenas contem histórias, mas que reescrevam imaginários. Jeferson De, um dos cineastas afro-brasileiros mais relevantes da contemporaneidade e membro da Academia do Oscar (AMPAS), entrega exatamente isso. Desde os tempos do manifesto Dogma Feijoada, ele vem pavimentando um caminho de excelência, e em Narciso, sua direção atinge um nível ímpar. Ele arromba a porta com uma narrativa assertiva, direta e profundamente humanizada. Apropriar-se de um mito europeu, o jovem condenado a amar a própria imagem, e transformá-lo na jornada de um menino negro que foi ensinado pelo mundo a rejeitar o próprio reflexo é uma sacada genial que ressignifica a dor e a transforma em poder.

Narciso é um menino órfão e preto que vive em um lar temporário sob os cuidados dos irmãos Carmem e Joaquim. Às vésperas de seu aniversário, ele enfrenta a dor dilacerante de ser “devolvido” por um casal branco que desistiu de adotá-lo. É nesse cenário de rejeição que a magia invade a dureza da realidade: ele ganha uma velha bola de basquete com poderes mágicos. Se acertar três cestas consecutivas, um gênio aparecerá para conceder seu maior desejo. O pedido de Narciso é simples e universal: ele quer uma família. O desejo é atendido, mas com uma condição cruel e poética: ele jamais poderá ver sua própria imagem refletida, ou o encanto se quebrará.

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Seu Jorge vive Gênio inspirado em Oxóssi em Narciso
Narciso mistura referências gregas e afrobrasileiras
Narciso é dirigido por Jeferson De
Seu Jorge e Arthur Ferreira criaram conexão especial nos bastidores de Narciso
Arthur Ferreira vive terceiro papel no cinema com Narciso
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Arthur Ferreira vive terceiro papel no cinema com Narciso

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Seu Jorge vive Gênio inspirado em Oxóssi em Narciso
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Seu Jorge vive Gênio inspirado em Oxóssi em Narciso

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Narciso mistura referências gregas e afrobrasileiras
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Narciso mistura referências gregas e afrobrasileiras

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Narciso é dirigido por Jeferson De
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Narciso é dirigido por Jeferson De

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Seu Jorge e Arthur Ferreira criaram conexão especial nos bastidores de Narciso
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Seu Jorge e Arthur Ferreira criaram conexão especial nos bastidores de Narciso

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Transportado para uma mansão luxuosa com a família rica que sempre sonhou, o menino se vê dividido. A saudade dos amigos e do afeto genuíno da casa de Carmem começa a incomodá-lo. Entre o luxo ilusório e o lugar onde sempre viveu, Narciso precisa descobrir o que realmente importa. Essa é a premissa do novo longa-metragem de Jeferson De. Inspirado na obra de Caravaggio, o filme subverte o mito grego clássico para tratar, com um realismo fantástico arrebatador, da identidade e do pertencimento da criança negra no Brasil.

No centro dessa epopeia emocional está o jovem Arthur Ferreira, que dá vida a Narciso com um espetáculo de contenção e explosão. Ele carrega no olhar a dor da rejeição e a esperança pueril. Ao seu lado, os veteranos excepcionais Bukassa Kabengele (Joaquim) e Ju Colombo (Carmen) formam o alicerce afetivo da trama. Kabengele, comunicando-se através de seu violão, traz uma sensibilidade musical que ecoa na tela, enquanto Colombo entrega uma performance visceral como a mulher forte e pragmática que acolhe essas crianças. A química entre eles ancora a fantasia em uma realidade dura, mas repleta de afeto. A participação especial de Seu Jorge, como o gênio, adiciona uma camada de carisma e mistério que eleva a obra.

Cena de Narciso (2026), filme brasileiro dirigido por Jeferson De
Arthur Ferreira dá vida ao protagonista Narciso

Mas é nos aspectos técnicos que Narciso transcende e se consolida como uma experiência sensorial inesquecível. A direção de fotografia, assinada por Lilis Soares, é um desbunde visual. Há uma pesquisa estética rigorosa e muito própria que dialoga diretamente com as obras de Caravaggio. O uso do chiaroscuro, o contraste dramático entre luz e sombra, não é mero capricho estilístico; é uma ferramenta narrativa. A luz recai sobre os corpos negros com uma dignidade e uma reverência raramente vistas no nosso cinema, esculpindo suas feições e destacando a beleza que a sociedade tantas vezes tenta apagar. A câmera de Soares transita com fluidez entre a crueza do lar temporário e o luxo onírico da mansão, criando atmosferas opressivas e libertadoras.

A direção de arte de Belisa Bagiani complementa essa visão de forma magistral. Cada cenário e objeto de cena reflete o estado psicológico do protagonista, com uma paleta de cores que evolui de tons terrosos para cores vibrantes quando o realismo fantástico toma conta da tela. Narciso não é apenas um filme; é um manifesto visual e emocional. Jeferson De nos entrega uma obra que exige ser vista, sentida e debatida. O cinema brasileiro precisa, urgentemente, contemplar e celebrar diretores com essa capacidade de aliar crítica social contundente a um apuro estético irretocável. Ao subverter o mito, o filme nos convida a olhar para o espelho e questionar que tipo de sociedade estamos refletindo. Brilhante, assertivo e necessário, Narciso já nasce como um clássico contemporâneo.

O roteiro de Jeferson De e Cristiane Arenas é uma obra de precisão narrativa. A estrutura que transita entre a dureza da realidade e o realismo fantástico não é acidental; é calculada, sofisticada, inteligente. Cada cena respira no tempo certo, sem pressa, sem desperdício. A montagem, assinada por Pedro Iglesias, é uma maestria de ritmo. Há momentos de silêncio que falam mais do que diálogos inteiros, cortes que amplificam emoções, transições que fluem como água. A forma como a narrativa se desdobra , alternando entre a esperança do menino e a crueza de sua realidade, demonstra um domínio raro de linguagem cinematográfica. Não é apenas contar uma história; é esculpir a experiência emocional do espectador através de cada escolha de edição.

A direção musical de Pedro Dom complementa cada batida do coração de Narciso, enquanto o figurino e o visagismo, áreas onde o cinema brasileiro historicamente comete equívocos ao lidar com atores e atrizes negros, aqui são tratados com reverência e expertise. Há um exercício raro em Narciso: a compreensão profunda de como vestir, maquiar e pentear artistas negros, respeitando suas texturas, seus traços, sua beleza específica. Muitas produções tropeçam nessa tarefa por falta de prática, olhar racista e por falta de profissionais negros nesses departamentos. Aqui, cada detalhe do figurino reforça a jornada psicológica do personagem, cada escolha de maquiagem e penteado é um ato de afirmação. O visagismo não apaga; revela. Não padroniza; celebra. É um trabalho que deveria ser obrigatório em toda produção que se respeite.

O elenco inteiro de Narciso está deslumbrante, perfeito, em perfeita sintonia com a direção. Cada ator, cada atriz compreendeu profundamente a missão: não apenas atuar, mas encarnar uma revolução silenciosa. Arthur Ferreira é luminoso em sua vulnerabilidade. Bukassa Kabengele é monumental em sua gentileza. Ju Colombo é inabalável em sua força. Seu Jorge brilha com o seu forte olhar e seu timbre vocal incomparável. Faiska Alves traz uma inocência tocante. Diego Francisco, Fernanda Nobre, Levi Asaf, Teka Romualdo, Ernesto Piccolo, Larissa Nunes, Isadora Iglesias, todos, sem exceção, entregam performances que transcendem o esperado. Até mesmo as participações especiais de Juliana Alves e Marcelo Serrado deixam marcas indeléveis. Não há um personagem menor aqui; há apenas uma orquestra de talentos que compreendeu que estava participando de algo maior que si mesmo. O resultado é uma harmonia rara, uma comunhão entre diretor e elenco que raramente se vê no cinema.

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