
Rodrigo FrançaColunas

Fafá de Belém, o musical: a história do Brasil em cena
A cantora Fafá de Belém tem a vida contada no musical que está em cartaz no Rio de Janeiro
atualizado
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Estive na estreia de Fafá de Belém, o Musical e saí com a sensação de que o ano começa quando o teatro decide lembrar quem somos. Não é apenas um espetáculo. É um gesto de afirmação cultural. Começar 2026 com um musical que nasce da Amazônia, atravessa Belém do Pará e ocupa o palco com música, memória, política e poesia é uma escolha que diz muito sobre o Brasil que ainda precisa ser contado. Quem ama este país, quem ama música brasileira, quem entende o teatro como lugar de identidade, precisa assistir. É um espetáculo para a família brasileira. Para quem carrega lembranças. Para quem quer criar novas. Para quem não aceita que o Brasil seja reduzido a estereótipos.
Há uma beleza que não pede tradução. Ela se impõe. As cores, os sons, os mitos, a fé e a paisagem do Norte surgem em cena não como exotismo, mas como origem. Fafá de Belém, o Musical lembra que Belém do Pará não é periferia cultural. É centro simbólico. É matriz estética. É memória viva de um Brasil que canta, resiste e se reinventa. O teatro musical brasileiro, quando assume sua própria história, alcança algo raro: ser popular sem ser raso, técnico sem ser frio, poético sem perder densidade.
É importante dizer com todas as letras. Existe excelência técnica no teatro musical brasileiro. Existe rigor, existe precisão, existe domínio musical, vocal e cênico. O que nos diferencia de outros modelos não é a ausência de técnica, é a escolha do que fazer com ela. Enquanto certos musicais operam dentro de uma lógica industrial específica, aqui a técnica é colocada a serviço da memória, da identidade e da narrativa nacional. Isso não diminui o espetáculo. Pelo contrário. Exige ainda mais sofisticação.
Fafá de Belém, o Musical entende isso com clareza. A dramaturgia constrói três tempos que se entrelaçam como rios. O presente, durante a celebração de cinquenta anos de carreira. A infância, em uma Belém lírica atravessada por lendas amazônicas, religiosidade e pertencimento. A trajetória artística, da capital paraense para o Brasil e para o mundo. Não se trata de contar uma vida em ordem cronológica, mas de revelar como se forma uma identidade artística brasileira.
A escolha de três intérpretes para viver Fafá em tempos distintos é uma decisão de grande inteligência cênica. Helga Nemetik entrega uma Fafá cantora potente, segura, com domínio técnico e entrega emocional. Sua interpretação dialoga com a artista sem jamais cair na caricatura. Lucinha Lins, como a Fafá do presente, sustenta o espetáculo com maturidade, densidade e uma presença que carrega tempo, história e autoridade artística. É uma atuação que dá chão ao espetáculo.
A Fafá menina, vivida por Laura Saab, neta da homenageada, ao lado de Clarah Passos, é um dos momentos mais delicados e comoventes da montagem. Ali, a infância não é um recurso sentimental. É raiz. É fundamento. É ali que o espetáculo finca sua origem. A presença dessa criança em cena lembra que cultura se herda, se aprende, se transforma, mas nunca se apaga. É uma escolha dramatúrgica que amplia o sentido do musical e o afasta de qualquer leitura superficial.
Falar de Fafá de Belém é falar de uma artista que nunca se esquivou do seu tempo. O espetáculo acerta ao integrar política, engajamento e arte de forma orgânica. As Diretas Já, a relação profunda com a comunidade LGBTQIA+, a ligação com Portugal, a Amazônia como território simbólico e real surgem como partes indissociáveis de uma trajetória artística consciente do seu papel público. Fafá não aparece apenas como intérprete. Ela surge como cidadã brasileira.
O idealizador e diretor geral Jô Santana ocupa um lugar central nessa construção. Sua trajetória como produtor e estimulador do teatro musical brasileiro se materializa aqui com clareza de visão. Há anos ele insiste na necessidade de contar histórias brasileiras, homenagear artistas nacionais e criar um teatro musical que dialogue com a nossa memória coletiva. Neste espetáculo, essa insistência se transforma em projeto artístico consistente, popular e sofisticado ao mesmo tempo.
Há ainda um alicerce silencioso, mas decisivo, que sustenta a força do espetáculo. O texto assinado por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche constrói uma dramaturgia que respeita a complexidade da artista sem reduzi-la a uma sucessão de êxitos. Há ali escuta, inteligência narrativa e compreensão profunda do tempo histórico. A direção artística de Gustavo Gasparini organiza essa matéria com clareza estética, costurando memória, mito e música sem perder fluidez nem densidade. E a pesquisa conduzida por Rodrigo Faour garante rigor histórico e musical, afastando o espetáculo de qualquer leitura superficial da MPB. Esse trio cria o chão onde o musical pisa com segurança, mostrando que emoção, quando bem trabalhada, também é método.
A direção musical de Marcelo Alonso Neves, com regência de Glauco Berçot, sustenta o espetáculo com precisão e sensibilidade. A música não ilustra a cena. Ela constrói sentido. Do carimbó ao universo urbano da MPB, passando pelo engajamento político e pelas experimentações contemporâneas, tudo se articula com rigor técnico e emoção verdadeira. Nada ali é excesso. Nada ali é descuido.
Fafá de Belém, o Musical não é apenas uma celebração de cinquenta anos de carreira. É um convite à reconexão com o Brasil profundo. Com suas histórias, seus sons e sua beleza. É teatro musical brasileiro em estado pleno. Começar o ano com um espetáculo assim é um privilégio. Assistir é quase um dever afetivo de quem acredita que cultura também é pertencimento, memória e futuro.
Serviço
De 15 de janeiro a 8 de março, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos, às 17h. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio n.º 38/40, Centro, Rio de Janeiro – RJ. Classificação indicativa: 12 anos.
