Rodrigo França

Gira Mundo, de Majur, é um dos maiores shows da década

Poucos espetáculos nos últimos 10 anos conseguiram reunir com tanta excelência música, dança, conceito e posicionamento político

atualizado

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foto colorida de cantora majur vestida de branco em clipe com pessoas ao redor dela - metrópoles
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Os primeiros acordes não pedem licença, eles atravessam. E quando você percebe, já não está assistindo a um show, está dentro de um país que raramente se permite ser visto com tanta verdade.

Há algo de profundamente incontornável em Gira Mundo, de Majur. Não é apenas música. Não é apenas estética. É uma operação simbólica que reposiciona o Brasil diante de si mesmo. E isso, por si só, já o coloca entre os espetáculos mais importantes da última década. Aqui não cabe modéstia crítica, trata-se de uma obra-prima.

O que se vê no palco é uma recusa radical ao apagamento. Um repertório inteiramente em iorubá não é escolha estética isolada, é gesto político, é afirmação de existência, é reposicionamento de linguagem. E ainda assim, paradoxalmente, não exige tradução para emocionar. Porque o que está em jogo não é compreensão literal, é reconhecimento. O público entende, mesmo sem entender. Sente, antes de decodificar.

A direção musical de Ícaro Sá e Ícaro Santiago constrói uma arquitetura sonora que pulsa como um organismo vivo. Os atabaques não acompanham, eles conduzem. Eles narram. Eles lembram. E nesse lembrar há um Brasil que insiste em sobreviver apesar de tudo.

O espetáculo cresce ainda mais quando se observa o trabalho físico em cena. A assinatura de Tainara Cerqueira como diretora de movimento e coreógrafa ecoa com força. O balé é exuberante, preciso e, acima de tudo, ancestral. Não há excesso gratuito. Cada gesto carrega uma memória. Cada deslocamento desenha um território simbólico. É um trabalho coreográfico de altíssimo nível, raro de se ver com tamanha organicidade no país.

E aqui é preciso dizer com todas as letras: a contribuição das pessoas negras para a cultura brasileira não está apenas representada neste espetáculo, ela é o próprio alicerce dele. Gira Mundo não pede espaço, ele ocupa o que sempre foi seu por direito. Ao fazer isso, desmonta a ideia equivocada de que manifestações afro-brasileiras pertencem a nichos. Não pertencem. São centro. São base. São estrutura.

O espetáculo de Majur é um trabalho é corajoso, necessário e absolutamente alinhado com o tempo histórico que atravessamos. Em um cenário de crescente intolerância religiosa, este espetáculo não se limita a existir, ele confronta. Ele educa. Ele reposiciona o olhar de quem ainda insiste em reduzir espiritualidade afro-brasileira a caricatura.

Há uma dimensão deste espetáculo que não pode ser ignorada: ele fala diretamente ao povo de terreiro, às pessoas do candomblé, da umbanda, da quimbanda e de Ifá, não como um aceno superficial, mas como reconhecimento profundo de existência. Assistir a Gira Mundo, de Majur, é experimentar algo raro, que é se ver sem distorção, sem exotificação, sem concessão ao olhar de fora. É sentir que a sua história não foi apenas lembrada, mas dignificada. E nesse encontro, o pertencimento deixa de ser discurso e se torna vivência. Não é sobre inclusão, é sobre centralidade. Não é sobre resistência apenas, é sobre continuidade. Porque quando a arte acerta esse lugar, ela não representa, ela devolve ao povo aquilo que sempre foi seu.

E talvez um dos momentos mais potentes seja quando Majur empunha a bandeira do Brasil. Não como símbolo esvaziado, mas como disputa. Como reinvenção. Como quem diz, com todas as letras, que este país também é feito de axé, de resistência, de ancestralidade e de futuro.

Gira Mundo não é um espetáculo apenas para adeptos das religiões de matriz africana. É, sobretudo, para quem tem coragem de olhar o Brasil sem filtro, sem maquiagem e sem negação. Para quem entende que reverenciar este país passa, inevitavelmente, por reconhecer quem o construiu.

Poucos espetáculos nos últimos 10 anos conseguiram reunir com tanta excelência música, dança, conceito e posicionamento político sem cair na armadilha do didatismo ou da superficialidade. Este consegue. E vai além.

Majur não sobe ao palco para entreter. Ela sobe para reorganizar sentidos. E sai deixando uma pergunta que ecoa depois que as luzes se apagam: que Brasil você está disposto a enxergar?

Se for o real, prepare-se. Porque ele canta. E canta alto.

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