
Rodrigo FrançaColunas

Meu Filho é um Musical: o que ainda há para dizer sobre Paulo Gustavo
A direção de Ju Amaral e João Fonseca, em sintonia com a produção, compreendeu que homenagear Paulo Gustavo exigia mais que nomes conhecidos
atualizado
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Há espetáculos que se apoiam na grandiosidade da produção. Outros apostam na força do personagem homenageado. Mas Meu Filho é um Musical encontra sua maior virtude em uma decisão cada vez mais rara nos palcos brasileiros: confiar a espinha dorsal da narrativa a intérpretes de verdade. A direção de Ju Amaral e João Fonseca, em sintonia com a produção, compreendeu que homenagear Paulo Gustavo exigia mais do que nomes conhecidos. Exigia artistas capazes de sustentar emoção, humor, memória e humanidade. E é justamente aí que o espetáculo encontra sua dimensão mais bonita.
Em tempos em que tantas montagens recorrem à popularidade instantânea da televisão, do cinema ou das redes sociais como estratégia de atração, Meu Filho é um Musical faz o caminho inverso. Escolhe a interpretação. Escolhe o ofício. Escolhe a experiência. E essa decisão muda completamente a qualidade da obra. O palco não é ocupado por celebridades “interpretando” personagens. É ocupado por atores construindo seres humanos. A diferença é imensa.
Existe ainda um desafio delicado quando uma obra se propõe a homenagear uma personalidade que partiu cedo demais. Paulo Gustavo foi [e é] um fenômeno artístico, cultural e popular. Sua trajetória já foi amplamente contada, revisitadas inúmeras entrevistas, reportagens, filmes e programas de televisão. Surge então a pergunta inevitável: o que ainda há para dizer? O que pode surpreender o público que acredita já conhecer essa história?
A resposta encontrada pelo espetáculo é inteligente e profundamente emocionante. A montagem compreende que sua força não está nos fatos conhecidos, mas naquilo que existe entre eles. Não está apenas no artista que o Brasil conheceu, mas no filho, no irmão, no amigo, no empresário, no homem que construiu laços afetivos que moldaram sua existência. O espetáculo deixa de ser uma simples biografia para se transformar numa reflexão sobre amor, pertencimento, família e memória.
E é nesse território que a relação entre mãe e filho se torna o verdadeiro coração da obra. Mais do que explicar a origem de personagens célebres, a dramaturgia de Fil Braz revela como afeto, proteção, conflito, cumplicidade e admiração podem construir uma vida inteira. A relação entre Déa Lúcia e Paulo Gustavo transcende a anedota que o público conhece. Ela se torna símbolo de uma experiência universal. Todos reconhecem algo de si naquele vínculo.
O texto de Fil Braz demonstra enorme sensibilidade ao evitar a armadilha da santificação. Em vez de transformar Paulo Gustavo em monumento, devolve sua humanidade. E é justamente por isso que a homenagem ganha potência. O artista aparece em suas conquistas, mas também em suas fragilidades, dúvidas e afetos. O resultado é uma dramaturgia que emociona porque se interessa pelas pessoas antes dos mitos. A direção de Ju Amaral e João Fonseca compreende essa proposta e conduz a narrativa com precisão. A encenação sabe quando expandir o espetáculo para a dimensão da grande produção musical e sabe quando reduzir tudo ao encontro entre dois olhares ou ao peso de uma lembrança. É uma direção que entende que emoção não nasce do excesso, mas da verdade.
A direção musical de Tony Lucchesi e as composições de Daniel Salve ajudam a construir essa atmosfera com inteligência. A música não surge apenas como ornamentação. Ela amplia sentimentos, aprofunda conflitos e conduz a narrativa sem interrompê-la. Há uma organicidade rara entre cena, interpretação e canção.
O elenco merece um capítulo à parte. Em cena, encontra-se um grupo de atores que compreende a responsabilidade artística que recebeu. Não há vaidade competindo com a história. Há entrega. Há escuta. Há precisão. João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli, alternam, construindo dimensões de Paulo Gustavo com enorme humor e sensibilidade. Castorine, Marcelo Varzea, Talita Castro, Fabrício Negri, Pedro Madeira, Oscar Fabião, Cris Pompeo, Valéria Barcellos, Josie Antello, Thiago Voltolini, Gaspar, Oscar Fabião, Luiza Lewicki, Lucas Colombo e os demais integrantes do elenco contribuem para criar um universo pulsante, vivo e profundamente humano. Cada personagem encontra seu espaço sem perder de vista o conjunto.
Mas há uma presença que transcende qualquer elogio convencional. Stella Maria Rodrigues realiza uma interpretação monumental. Em um país que frequentemente se esquece de reverenciar seus grandes artistas enquanto estão entre nós, assistir Stella em cena provoca uma sensação de privilégio. Estamos diante de uma das maiores atrizes brasileiras. Uma artista capaz de atravessar com naturalidade a comédia e o drama, a palavra falada e o canto, o gesto delicado e a explosão emocional. Poucas intérpretes possuem tamanho domínio da cena.
Sua Déa Lúcia não é uma caricatura, não é uma imitação e não é uma reprodução. É uma criação artística. Stella captura a essência dessa mulher e a transforma em presença teatral. Sua interpretação tem humor sem cair na facilidade. Tem emoção sem recorrer ao sentimentalismo. Tem força sem perder a ternura. O mais impressionante é perceber como Stella domina os diferentes registros exigidos pelo espetáculo. Em poucos minutos, transita da gargalhada à lágrima, da leveza à dor, da memória à celebração. Tudo parece simples. Mas apenas grandes atrizes conseguem produzir essa sensação de aparente facilidade diante de desafios tão complexos.
Ao final, fica a impressão de que Meu Filho é um Musical encontrou uma forma rara de homenagear Paulo Gustavo. Em vez de apenas olhar para o artista que o Brasil perdeu, escolheu olhar para as relações que ajudaram a construí-lo. E ao fazer isso, fala menos sobre a morte e muito mais sobre a vida.
É um espetáculo emocionante, grandioso quando precisa ser e íntimo quando necessário. Uma celebração da arte, dos afetos e da memória. E um lembrete de que o teatro brasileiro possui intérpretes extraordinários que merecem ser tratados como verdadeiras estrelas.
Stella Maria Rodrigues é uma delas. E o Brasil deveria reverenciá-la como tal.