Testosterona muda libido e prazer de homens trans; médico cita cuidados
Utilizada no tratamento hormonal de homens trans, a testosterona pode alterar, além do físico, a libido e o prazer. Médico comenta cuidados

Para pessoas trans, a terapia hormonal marca uma série de transformações no corpo — e, no caso dos homens, elas não ficam restritas à voz, aos pelos ou à composição corporal. Ao fazer uso da testosterona, a libido, a sensibilidade e as condições dos tecidos genitais também podem ser modificadas, interferindo na forma como cada um deles vivencia o sexo e se relaciona com o próprio corpo.

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Ver todasAssim, enquanto mudanças físicas mais visíveis costumam ser discutidas desde o início do tratamento, questões como prazer, lubrificação, desconforto nas relações, prevenção de ISTs e acompanhamento profissional continuam cercadas de dúvidas.
Tudo se torna uma novidade
Ao Metrópoles, Eduardo Aguiar, designer de 20 anos, conta que entender essas transformações foi também um processo de redescoberta. “Desde o começo do meu tratamento, tive algumas mudanças muito rápidas, tanto físicas quanto psicológicas e hormonais”, relata
Entre elas, uma das principais foi na libido, experiência que compara com um período anterior em que fazia uso de antidepressivos e não sentia desejo sexual. “Quando cortei o uso dos medicamentos, minha libido foi voltando aos poucos, mas depois que comecei o tratamento ela aumentou drasticamente”, destaca.
Entre no canal de WhatsApp do Vida e Estilo“Para mim, foi uma surpresa me adaptar a essas mudanças, pois saí de um extremo — a época em que não sentia quase nada — para uma libido alta. Foi surpreendente, e, com o processo, fui aprendendo a lidar com isso”, detalha.
Efeito esperado
Mosiah Machado, médico da família e comunidade, explica à coluna que, especialmente entre os homens trans, o aumento no desejo é bastante comum. Além disso, de acordo com o especialista, é esperado ter aumento do clitóris, alterações na sensibilidade e mudança nos tecidos vaginais.

“Ao mesmo tempo, pode haver redução da lubrificação vaginal. Em quem pratica sexo com penetração frontal, isso pode causar ardência, fissuras, pequenos sangramentos ou dor”, alerta.
Para Eduardo, as transformações não aconteceram somente no corpo, e a maneira como passou a enxergar o próprio prazer também mudou. Em seu relato, o jovem afirma que, ao longo da transição, precisou lidar com expectativas sobre o papel que deveria desempenhar nas relações e com pessoas que demonstravam interesse ou rejeição pelo seu corpo.
“Nesse processo, eu aprendi a validar os meus limites e o meu prazer e, principalmente, a proteger meu corpo. Hoje, tenho uma visão totalmente diferente: sexo é troca, é respeito, é cuidado, é prazer e é reciprocidade”, ressalta.

Cuidados importantes no processo
Segundo Mosiah, porém, essa autonomia também precisa estar acompanhada de informação sobre prevenção, incluindo o fato de que a testosterona não funciona como anticoncepcional. Ou seja, mesmo que a menstruação pare, pessoas que mantêm útero e ovários podem eventualmente engravidar. Quando há possibilidade de gestação e ela não é desejada, é necessário discutir métodos contraceptivos.
O mesmo princípio vale para o acompanhamento ginecológico, que não deixa de ser necessário por causa da identidade de gênero ou do uso do hormônio. “Quem tem colo do útero continua necessitando do rastreamento do câncer cervical conforme as recomendações aplicáveis. Útero, ovários, vagina e tecido mamário também devem ser avaliados quando houver sintomas ou indicação de rastreamento.”
Preconceito na rotina clínica
Acerca do tema, Aguiar revela que é justamente no consultório onde encontra uma das maiores dificuldades, já que as consultas ainda são marcadas por experiências de negligência e constrangimento.

“Para mim, até hoje, é um pouco complicado ir a consultas ginecológicas. Em alguns lugares já fui negligenciado, em outros não tiveram tanto cuidado, fora os olhares na clínica.Hoje, já tenho muito claro na minha cabeça que isso é necessário, porque é um cuidado essencial para o corpo — ainda mais para pessoas que já fazem tratamento hormonal”, destaca.
O médico ainda complementa ao lembrar que um atendimento adequado depende de abandonar pressuposições e entender que homens trans não formam um grupo com uma única experiência sexual. Em vez de presumir, o profissional deve considerar quais órgãos ele apresenta, quais cirurgias realizou, quais tipos de contato sexual pratica, se existe possibilidade de gravidez e quais regiões estiveram expostas a uma possível IST.
Por último, o jovem designer lembra que o conhecimento técnico deve vir acompanhado de acolhimento e que aprender sobre as próprias mudanças é essencial para o processo. “Acho que faltam lugares onde possamos nos sentir seguros e confortáveis para se abrir. A transição me ensinou diversas coisas e me fez conhecer novamente. Então, a cada dia eu descubro uma coisa diferente sobre mim”, conclui.















