Ao se entenderem como lésbicas, mulheres podem viver virada de chave sexual
Celebrado na próxima sexta-feira (29/8), o Dia da Visibilidade Lésbica reforça como o entendimento da sexualidade muda o prazer das mulheres

Na próxima sexta-feira (29/8), Dia da Visibilidade Lésbica, falar sobre lesbianidade também é chamar atenção para as descobertas que acontecem quando uma mulher entende e vive a própria sexualidade. Para algumas, esse processo vem acompanhado de uma verdadeira virada de chave na vida sexual — já que o prazer deixa de corresponder ao que sempre pareceu esperado e passa a ser explorado a partir do próprio desejo.

Receba no seu email as notícias da coluna Pouca Vergonha
Frequência de envio: Semanal
Ver todasHeterossexualidade compulsória
Foi assim com Gabriela Morais, jovem estudante de psicologia, de 21 anos. Ao Metrópoles, ela conta que, desde mais nova, sabia que gostava de mulheres, mas carregava também a sensação de que deveria gostar de homens. “Sempre percebi que me forçava inconscientemente a gostar deles”, relata.
Embora nunca tenha se relacionado romanticamente com nenhum rapaz, a percepção sobre a sexualidade não aconteceu de uma hora para outra, fazendo com que ela não compreendesse o tipo de experiência que procurava. “Foi uma percepção construída aos poucos. Eu ainda fiquei e transei com homens até finalmente perceber que, de fato, não era o que eu gostava.”
Para a sexóloga Camila Voluptas, parte dessa dificuldade em reconhecer o próprio desejo está relacionada à chamada heterossexualidade compulsória — conceito que descreve a pressão social para que mulheres considerem os homens como parte natural de suas trajetórias afetivas e sexuais.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Desde a infância, a mulher é bombardeada com a ideia de que o seu sucesso de vida, segurança e completude dependem de um homem. É perfeitamente possível amar um homem platonicamente, admirar seu intelecto ou gostar da sua companhia. No entanto, o roteiro social dita que, se há afeto, deve haver sexo”, afirma ao explicar como esse cenário pode confundir sentimentos como admiração, carinho ou vontade de ser escolhida com atração sexual.

Mundo de descobertas
Ou seja, quando uma mulher lésbica passa a se relacionar com outras mulheres no âmbito sexual, a mudança pode aparecer justamente em como ela percebe o próprio corpo e entende o que lhe dá prazer. Segundo Gabriela, esse entendimento fez com que ela se sentisse “infinitamente mais à vontade” e vivesse uma abertura muito maior para descobrir seus desejos.
“Eu me sinto muito mais à vontade e com mais liberdade para me conhecer e descobrir o que me dá prazer, tanto antes quanto durante e depois do sexo. A comunicação e o entendimento mútuo fazem toda a diferença”, destaca.

Camila observa que o ato sexual entre mulheres amplia essa descoberta porque não precisa seguir um roteiro previamente estabelecido e performático, e sim focar na entrega. De acordo com a especialista, a experiência pode envolver uma atenção maior aos diferentes sinais do corpo e à reciprocidade, sem transformar a penetração no centro de tudo.
Foram exatamente esses detalhes que permitiram à estudante de psicologia ter vivências que não eram possíveis enquanto ela se relacionava com homens.
“Eu só consegui chegar ao orgasmo com mulheres. Também percebi que só sinto prazer real na penetração com elas. Antes, com homens, eu ficava muito tensa e travada, já que era o meu próprio corpo me avisando que não era aquilo que eu queria. Com eles, a penetração só me trazia dor e agonia”, descreve.

Leve o tempo que for necessário para o entendimento
Essa descoberta não precisa, necessariamente, significar que as experiências anteriores foram uma “mentira”. Atualmente, Gabriela reforça que não interpreta suas relações sexuais com homens de maneira diferente. “Na época, eu de fato queria aquilo, só ainda não entendia que não era o que eu gostava. Eu estava me descobrindo”, afirma.
Para mulheres que passam por esse processo mais tarde, pode surgir ainda a sensação de que demoraram demais para se entender. Nesse caso, Camila defende que esse passado não precisa ser motivo de culpa. “Acolha a sua versão do passado, pois a mulher que você era fez o melhor que pôde com o nível de consciência, as ferramentas emocionais e o contexto social que tinha”, encerra.













