Mirelle Pinheiro

Quem são os tesoureiros por trás das maiores facções do país

Investigações mostram quem são os homens encarregados de administrar as finanças de organizações criminosas como PCC, Comando Vermelho e TCP

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Otavio brito/metropoles
Tesoureiros de facções
1 de 1 Tesoureiros de facções - Foto: Otavio brito/metropoles

Responsáveis por administrar milhões de reais oriundos do tráfico de drogas, da lavagem de dinheiro e de outras atividades criminosas, os chamados “tesoureiros” ocupam posições importantes nas maiores facções do país. Investigações conduzidas por polícias civis de diferentes estados mostram que facções como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP) contam com estruturas financeiras sofisticadas, comparáveis às de empresas.

Entre os mecanismos utilizados estão empresas de fachada, imóveis de luxo, veículos de alto padrão, depósitos fracionados, contas bancárias de terceiros, plataformas digitais e até projetos esportivos utilizados para dar aparência de legalidade ao dinheiro do crime.

A coluna reuniu os principais nomes apontados pelas autoridades como responsáveis pelos cofres dessas facções.

Rabicó: tesoureiro do CV

Considerado uma das principais lideranças do CV, Antônio Ilário Ferreira, o “Rabicó” foi alvo da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) nesta sexta-feira (29/5), apontado como responsável por coordenar uma estrutura que movimentou mais de R$ 453 milhões provenientes do tráfico de drogas.

A ação faz parte das investigações da Operação Contenção, conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE-CAP).

Segundo os investigadores, Rabicó atua como uma espécie de tesoureiro-geral da facção, coordenando empresas de fachada, ocultação patrimonial, movimentações bancárias e o uso de terceiros para esconder a origem dos recursos.

As apurações identificaram empresas ligadas aos setores de reciclagem e comércio de sucatas utilizadas para movimentar valores milionários.

Rabico
Rabico

Também foram detectadas transferências entre pessoas físicas e jurídicas, depósitos fracionados, emissão de notas fiscais falsas e circulação de recursos por contas bancárias de passagem.

Relatórios financeiros analisados pelos investigadores apontam que mais de R$ 453 milhões passaram pelo esquema.

Durante a ação desta sexta, Raquel Neves dos Santos Mendonça, companheira do tesoureiro, foi presa.

Apesar das diversas condenações e de uma extensa ficha criminal, Rabicó permanece foragido desde 2019. Aos 61 anos, ele acumula passagens por homicídio, tentativa de homicídio, tráfico de drogas, associação criminosa, organização criminosa e crimes relacionados a armas de fogo.

Em 2014, investigações já haviam atribuído a ele mais de R$ 3 milhões encontrados escondidos em tonéis enterrados em áreas de mata nas comunidades da Mangueira e do Salgueiro, no Rio de Janeiro, além de drogas e armamentos.

Paulo Witer, o WT: tesoureiro do CV

Condenado por lavar dinheiro do tráfico para o CV em Mato Grosso, Paulo Witer Farias Paelo, de 38 anos, é apontado pela Polícia Civil como um dos principais operadores financeiros da facção no estado.

Conhecido pelo apelido de “WT”, ele teria liderado um esquema estruturado de lavagem de dinheiro que movimentou aproximadamente R$ 65 milhões na aquisição de imóveis, veículos e outros bens.

Após quase dois anos de investigação, a Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) concluiu que Paulo Witer utilizava parentes, comparsas e “testas de ferro” para ocultar a origem dos recursos provenientes do tráfico de drogas.

Segundo a PCMT, a estrutura criminosa também investia em iniciativas voltadas à comunidade como forma de fortalecer a presença da facção em determinadas regiões. Entre as estratégias identificadas estavam doações de cestas básicas, criação de times de futebol amador e a construção de um espaço esportivo.

Paulo Witer, tesoureiro do CV
Paulo Witer, WT

As investigações apontaram ainda que WT levava uma rotina incompatível com sua condição. Antes de voltar ao regime fechado, ele cumpria pena no semiaberto com uso de tornozeleira eletrônica.

Mesmo monitorado, teria burlado diversas vezes o sistema para realizar viagens de luxo. Em dezembro de 2023, por exemplo, a tornozeleira indicava que ele permanecia em Cuiabá quando, na realidade, passava o réveillon no litoral de Santa Catarina, onde se hospedou em locais de alto padrão e chegou a realizar um salto de paraquedas.

A polícia identificou ainda viagens para o Rio de Janeiro e Maceió, sempre com hospedagens em hotéis à beira-mar e estabelecimentos considerados de luxo.

Preso desde abril de 2024, Paulo Witer permanece custodiado na ala de segurança máxima da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Mato Grosso. Em decisão de março de 2025, a Justiça negou pedido da defesa para flexibilizar seu isolamento, após informações de que ele continuaria repassando ordens ao núcleo financeiro da facção mesmo atrás das grades.

Alex Amaro, o “Barba”: tesoureiro do PCC

No  PCC, o principal nome apontado como responsável pelas finanças da facção é Alex Amaro de Oliveira, de 40 anos, conhecido como “Barba”.

Ele foi preso pela Polícia Civil de São Paulo em 25 de junho de 2025 durante uma investigação conduzida pela 2ª Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Santos. Segundo a apuração, Barba era responsável por receber e redistribuir valores provenientes de pontos de tráfico espalhados pela capital paulista, ABC e Baixada Santista.

As investigações apontam que ele controlava ao menos três biqueiras ligadas ao PCC na região da Favela da Felicidade, na zona sul de São Paulo.

Cada ponto de venda de drogas faturava entre R$ 40 mil e R$ 50 mil por dia. Somados, os três locais geravam uma arrecadação diária de aproximadamente R$ 150 mil.
Imagem colorida de Alex Amaro de Oliveira, de 40 anos, conhecido como Barba e apontado como tesoureiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). - Metrópoles
Alex Amaro de Oliveira, de 40 anos, conhecido como Barba e apontado como tesoureiro do Primeiro Comando da Capital (PCC)

De acordo com a polícia, em cerca de sete meses exercendo a função de tesoureiro, Barba teria movimentado aproximadamente R$ 10,5 milhões.

Quando foi preso, ele estava em um apartamento de alto padrão no Morumbi, um dos bairros mais valorizados da capital paulista.

Durante a operação, os policiais apreenderam relógios Rolex, notebooks, celulares, peças em metal dourado, drogas, dinheiro em espécie e um veículo Tesla avaliado em cerca de R$ 370 mil. Também foram encontrados documentos relacionados a um Porsche Carrera, além de anotações detalhadas sobre a contabilidade dos pontos de tráfico.

Segundo os investigadores, nenhum dos bens estava registrado em nome de Barba.

A polícia acredita que ele assumiu a função após a morte de Alexsandro Roberto Ferreira, conhecido como “Palito”, antigo responsável pelas finanças da organização criminosa.

Além de Barba, foi preso Wesley Roberto Teixeira, conhecido como “Irmão Vinícius”, apontado como seu braço direito e encarregado de recolher valores diretamente com traficantes e produzir relatórios financeiros manuscritos.

Operador digital do TCP

No domingo (24/5), a Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) prendeu Luan Vitor França de Medeiros, apontado como operador financeiro do Terceiro Comando Puro (TCP).

Segundo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), ele teria movimentado ao menos R$ 5 milhões ligados à facção nos últimos meses.

A prisão ocorreu em um restaurante de alto padrão na orla do Recreio dos Bandeirantes.

De acordo com a investigação, Luan utilizava redes sociais para promover plataformas clandestinas de apostas e jogos de azar.

Aliado de Gotinha, operador financeiro do TCP é preso em restaurante de luxo no Rio
Luan França França de Medeiros (à direita), ele é apontado pela polícia como pessoa próxima de “Gotinha” (à esquerda)

A suspeita é de que o sistema servia para captar recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Os investigadores afirmam que ele explorava sua imagem de influenciador digital para conferir aparência de legalidade às movimentações financeiras.

A polícia apura ainda o uso de mecanismos conhecidos como lavagem digital de dinheiro, que envolvem transferências pulverizadas, plataformas de apostas e movimentações virtuais destinadas a ocultar a origem dos recursos.

Durante a prisão, foram apreendidos celulares e equipamentos eletrônicos que agora passam por perícia.

Luan é apontado como pessoa próxima de ex-integrantes do TCP, entre eles “Gotinha”, considerado braço direito de TH da Maré. Ambos morreram anteriormente em ações policiais.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações