
Mirelle PinheiroColunas

De “macho alfa” a feminicídio: quando o red pill usa farda
Casos de feminicídios envolvendo agentes de segurança pública ganharam os noticiários nas últimas semanas, relembre
atualizado
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A prisão de um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo suspeito de matar a própria esposa, também policial, escancarou um padrão que vai além de um caso isolado: a presença de discursos misóginos, comportamentos de controle e histórico de violência em relações íntimas envolvendo agentes de segurança pública.
Um levantamento feito pela coluna, a partir de ocorrências recentes registradas em diferentes estados, mostra uma sequência de episódios em que policiais militares são investigados, presos ou denunciados por feminicídio, agressões e ameaças contra companheiras, ex-companheiras e outras mulheres. Muitas vezes associada a ideologias conhecidas como “red pill”.
O caso mais recente envolve o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, preso após a Polícia Civil apontá-lo como principal suspeito pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32. Ela foi encontrada com um tiro na cabeça no apartamento do casal, no Brás, em São Paulo.
Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como feminicídio e fraude processual após a análise de laudos periciais, depoimentos e inconsistências na versão apresentada pelo oficial.
Gravações das ligações feitas por ele aos serviços de emergência chamaram a atenção dos investigadores. Em um primeiro momento, o oficial afirma que a esposa “se matou”. Pouco depois, no mesmo telefonema, pede socorro e indica que ela ainda estava viva.
Além disso, mensagens extraídas do celular do investigado revelam um padrão de comportamento marcado por controle, humilhações e violência. “Sou rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano”, disse em uma das conversas.
Em outra, descreve o modelo de relação que esperava: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa — com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa.”
As mensagens também indicam episódios de agressão física. Em um trecho, ele admite ter “enfiado a mão” na esposa dias antes da morte. Horas antes de ser baleada, Gisele havia enviado mensagens afirmando que queria o divórcio:
“Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão […] Tenho minha dignidade.”
Outros casos
No Espírito Santo, o cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale foi preso após matar duas mulheres a tiros em Cariacica, no dia 8 de abril. As vítimas foram identificadas como Daniele Toledo Rocha, de 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana.
O policial já era réu pela morte de uma mulher trans em 2022, conhecida como Lara Croft. Na época, alegou reação a uma abordagem, mas a perícia indicou múltiplos disparos em diferentes partes do corpo, inclusive pelas costas.
No novo caso, imagens de câmeras de segurança mostram que não houve confronto. O militar desce da viatura e atira contra as mulheres. Uma delas tenta fugir, mas é alcançada e baleada novamente.
Também no Espírito Santo, um soldado — identificado como Marcelo Ramos Araújo, de 32 anos — foi preso após agredir a própria companheira, também policial militar, em um estacionamento de um supermercado no bairro Jardim Camburi, após um bloco de Carnaval. Testemunhas relataram que ele estava alterado, desobedeceu ordens e partiu para cima de colegas de farda.
Segundo a vítima, o comportamento agressivo era recorrente. O policial fazia ameaças frequentes, dizendo que poderia “atirar na mão” ou “deixá-la aleijada”.
Durante a ocorrência, registrada no dia 21 de fevereiro, ele chegou a ameaçar os próprios colegas. “Vão se foder, seus recrutas. Eu vou matar vocês.”
Medida protetiva
No Tocantins, uma mulher identificada como Ingrid Gabriele Santos, denunciou ter sido espancada pelo ex-companheiro, um policial militar, mesmo tendo medida protetiva. Ela relatou agressões com socos na cabeça e na costela, além de viver sob constante medo. “É viver como se fosse um monstro vindo atrás de ti o tempo todo.”
Ingrid foi agredida no dia 14 de fevereiro, quando foi até a casa onde o policial estava para cobrar uma dívida de R$ 1,5 mil. O valor seria usado para comprar medicamentos para a filha dela, que está internada.
Segundo o boletim de ocorrência, o segundo-tenente da Polícia Militar do Tocantins Edimar Silva Araújo puxou seus cabelos, deu tapas e a arremessou contra a parede. O celular da vítima também foi destruído.
Tentativa de homicídio
No Ceará, o capitão da reserva remunerada da Polícia Militar do Ceará, Francisco Wellington Alves de Lima, foi flagrado por câmeras públicas agredindo e tentando asfixiar uma mulher na Praça da Bandeira, em Fortaleza.
As imagens mostram o momento em que ele derruba a vítima, desfere chutes e se deita sobre ela para sufocá-la.
Ele chegou a ser detido no dia, mas foi liberado. Dias depois, teve a prisão preventiva decretada e acabou preso novamente.
