Mirelle Pinheiro

Como PCC e CV criaram impérios financeiros longe das favelas

PCC tem faturamento anual mínimo de US$ 1,3 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 6,7 bilhões

atualizado

metropoles.com

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1 de 1 pcc-cv-imperiolongefavelas - Foto: Arte/Metrópoles

O poder das maiores facções criminosas do Brasil já não pode ser medido apenas pela quantidade de armas, drogas ou territórios dominados. Nos últimos anos, investigações policiais e estudos sobre crime organizado passaram a mostrar um mecanismo muito mais amplo, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) transformaram dinheiro do crime em negócios, empresas, fintechs, bets, fundos de investimento, postos de combustíveis e outros setores da economia formal.

Embora não exista um balanço oficial sobre quanto as facções arrecadam por ano, levantamentos recentes ajudam a dimensionar o tamanho desse mercado. Um estudo da Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que o PCC teria faturamento anual mínimo de US$ 1,3 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 6,7 bilhões.

O mesmo estudo aponta que facções que nasceram dentro dos presídios e cresceram a partir do tráfico de drogas passaram a atuar em dezenas de mercados legais e ilegais, como combustíveis, bebidas, tabaco, ouro, apostas, criptoativos, imóveis, transporte, contrabando e serviços financeiros.

O tráfico continua sendo a principal fonte de renda, mas o dinheiro precisa sair da informalidade. Para isso, as facções passaram a usar negócios aparentemente legítimos para ocultar a origem dos recursos, pagar colaboradores, comprar patrimônio e financiar novas atividades criminosas.

Fintechs

Foi esse modelo que apareceu em diferentes operações recentes. Em São Paulo, a Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, apontou uma estrutura suspeita de lavar dinheiro por meio de fintechs, postos de combustíveis e fundos de investimento. Segundo o Ministério Público, seis fintechs atuavam como uma espécie de “banco paralelo”, movimentando recursos entre distribuidoras, postos, empresas e operadores ligados ao esquema.

Uma das fintechs investigadas teria movimentado R$ 1,2 bilhão. Relatórios de inteligência financeira também apontaram movimentações atípicas de quase R$ 4 bilhões dentro da estrutura investigada.

O esquema usava o modelo de “contas-bolsão”. Na prática, recursos de várias empresas eram concentrados em uma conta registrada em nome da fintech. Para quem olhava de fora, o dinheiro parecia pertencer à instituição de pagamento. A separação real entre clientes ocorria apenas nos sistemas internos da própria empresa, o que criava uma camada adicional de ocultação.

Para os investigadores, esse modelo dificultava a identificação dos verdadeiros donos do dinheiro e permitia que recursos do crime circulassem com aparência de normalidade dentro do sistema financeiro.

A mesma operação também mostrou outra frente de lavagem, a chamada máfia do nafta. Segundo o Ministério Público, empresas emitiam notas fiscais falsas para simular a venda de solventes petroquímicos a indústrias químicas de fachada. Na prática, o produto era desviado para distribuidoras e terminais, misturado à gasolina e vendido como combustível automotivo.

Nafta

A investigação identificou o desvio de mais de 135 milhões de litros de nafta e prejuízo tributário estimado em mais de R$ 200 milhões.

Outra camada do esquema envolvia fundos de investimento. Segundo os promotores, quatro fundos suspeitos ligados ao desvio de nafta acumulavam patrimônio estimado em R$ 205 milhões e tiveram crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano.

No Rio de Janeiro, a Operação Contenção mostrou movimento semelhante no Comando Vermelho. A investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital apontou que o núcleo financeiro da facção movimentou mais de R$ 453 milhões por meio de recicladoras, ferros-velhos, contas bancárias de passagem, depósitos fracionados, notas fiscais falsas e empresas usadas para dar aparência legal ao dinheiro do tráfico.

O principal alvo da investigação foi Antônio Ilário Ferreira, conhecido como Rabicó, apontado como uma espécie de tesoureiro do Comando Vermelho. Segundo a polícia, ele atuava no gerenciamento de empresas, movimentações bancárias e ocultação de patrimônio.

Bets

Em outra frente, a Operação Falsa Las Vegas expôs o uso de plataformas clandestinas de apostas, fintechs, contas de passagem e laranjas para lavar dinheiro de origem criminosa. Na ação, foram apreendidos helicóptero, carros de luxo e bens milionários ligados aos operadores investigados.

O mercado das bets se tornou especialmente sensível para as autoridades. O setor movimenta valores elevados, opera em ambiente digital e pode ser usado para mascarar a origem de recursos ilícitos por meio de apostas simuladas, contas intermediárias e pagamentos pulverizados.

O estudo da Esfera e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta justamente fintechs, bets e criptoativos como setores vulneráveis à lavagem de dinheiro pelo crime organizado, especialmente quando há baixa capacidade de fiscalização e rastreamento.

A expansão financeira das facções acompanha a expansão territorial. O PCC consolidou presença em rotas internacionais de cocaína, especialmente a partir de conexões com Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Investigações apontam o uso de portos brasileiros, como o de Santos, para escoar drogas para Europa, África e Ásia.

O Comando Vermelho, por sua vez, ampliou sua influência no Norte e no Nordeste, especialmente em áreas estratégicas da Amazônia e regiões de fronteira. Além do tráfico, a facção passou a se beneficiar de mercados como garimpo ilegal, transporte clandestino, extorsão, comércio irregular e lavagem de dinheiro em negócios locais.

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