Dinheiro e Negócios

“Do lar” e “mineiro desconfiado”: como agente da XP descrevia clientes que tiveram prejuízos milionários

Ao todo, doze clientes da XP perderam mais de R$ 14 milhões. Nove anos depois, nem todos os correntistas foram ressarcidos

atualizado

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Hugo Barreto/Metrópoles
Pessoa usa o aplicativo XP Investimentos Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários S.A
1 de 1 Pessoa usa o aplicativo XP Investimentos Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários S.A - Foto: Hugo Barreto/Metrópoles

“Do lar. Cardíaca. Não acompanhava a conta. Passou mal ao saber que havia perdido quase tudo.” É assim que uma cliente que perdeu mais de R$ 300 mil ao confiar suas economias a um agente autônomo da XP é descrita nos autos do processo judicial que trata dos ressarcimentos.

Ela não é a única. Em outro caso, o cliente é descrito como “agressivo, empreendedor, perfil autoritário e agressivo”. Um terceiro é apontado como “explosivo, insuflou outros clientes”. Há, ainda, uma vítima descrita como “mineiro desconfiado até da sombra”.

As informações foram reunidas pelo agente autônomo responsável pelos prejuízos em em uma tabela onde também constava relações sociais e políticas. Tudo para tentar evitar as consequências dos prejuízos encobertos com o envio fraudulento de falsos extratos que maquiavam a perda do dinheiro.

Ao todo, como mostrou a coluna, 12 clientes foram lesados e os valores perdidos passam de R$ 14 milhões. Além disso, nove anos depois, nem todos os correntistas foram ressarcidos — e os que foram se queixam dos valores pagos.

Eles foram vítimas de um dos episódios mais estarrecedores do mercado financeiro brasileiro. Resumidamente, um agente autônomo da corretora perdeu o dinheiro dos investidores e maquiou a situação enviando extratos falsos para os clientes.


Descoberta da fraude e ações iniciais

  • Como mostrou a coluna, a fraude foi descoberta em abril de 2017 quando uma investidora da XP, ao reunir os documentos necessários para fazer a declaração do Imposto de Renda, abriu a conta havia aplicado mais de R$ 2 milhões e descobriu que boa parte do dinheiro havia desaparecido.
  • O valor exibido era completamente diferente dos extratos enviados regularmente pelo agente autônomo da XP que a convenceu a aplicar o valor na corretora.
  • À época, a fraude foi reconhecida pela XP em comunicado. No texto, a XP afirma que um agente autônomo da corretora “agiu de forma inapropriada — em desacordo com as nossas normas e princípios éticos”
  • Ainda em 2017, a cliente que identificou a fraude acionou o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) pedindo que a XP apresentasse a documentação que demonstrasse as movimentações financeiras realizadas na conta dela no período.

Apesar de ter reconhecido a situação publicamente, nos autos, a defesa da XP afirma que a cliente, após quatro anos de “bom relacionamento” com a corretora, “passou a traçar teorias conspiratórias e lançar acusações que carecem de um mínimo de sustentabilidade”.

O episódio ensejou, também, um processo administrativo sancionador da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A medida, inclusive, alcança Guilherme Benchimol, CEO e fundador da XP. À autarquia, a corretora propôs um termo de compromisso, mecanismo para encerrar o processo sancionador.

Ao recusar a proposta, em dezembro de 2025, a CVM apontou, justamente, que a XP ainda não tinha ressarcido a cliente que havia denunciado a fraude. O entendimento cita decisão do TJRJ que condenou a XP a pagar mais de R$ 1 milhão a correntista. Em resposta, a XP “rememora sua disposição de ressarcir” a cliente. “Sendo certo que, desde o início, quando descoberta a atuação irregular do assessor de investimento, a corretora se propôs a fazê-lo por mera liberalidade e no intuito de manter a relação contratual com a cliente” , diz a XP.

À CVM, a XP se comprometeu a pagar R$ 1.485.000, em parcela única, sendo R$ 1.080.000 pagos pela corretora e R$ 405 mil por Guilherme Benchimol. A autarquia ainda não deu uma resposta sobre a última proposta que inclui, também, o pagamento do valor devido à correntista.

Processo contra agente autônomo

Apesar de a fraude ter sido constatada em 2017, a XP só acionou judicialmente o agente autônomo responsável pelo prejuízo milionário em 2021. Na ação, a XP responsabiliza o agente, Ricardo de Oliveira Barbosa, dono da Index, pelos prejuízos e pede que ele pague pelos ressarcimentos feitos aos clientes da corretora.

Nos autos, a XP afirma que onze investidores sofreram prejuízos e foram ressarcidos. Ao todo, a corretora diz ter pago R$ 12 milhões. No desenrolar do processo, que corre em segredo de Justiça no TJRJ, alguns deles foram ouvidos como testemunhas e se queixaram dos valores oferecidos pela XP. A correntista que denunciou a fraude não é citada e nem listada entre as vítimas.

“No final de 2017, a XP tomou conhecimento de que a Index, na prática, deixara de lado a sua função de agente autônomo de investimentos para atuar como verdadeira gestora dos ativos de alguns dos seus clientes”, diz a XP na peça inicial. “Além disso, Ricardo Barbosa também passou a encaminhar diretamente aos clientes/investidores prejudicados extratos mensais com supostos rendimentos por eles auferidos”, continua.

Ainda sem uma decisão definitiva, o processo subiu para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) em novembro de 2025.

O episódio rendeu, ainda, outro processo judicial, que, recentemente, levou a proibição de que o empresário Alexandre Klabin de se ausentar do país após constatar que ele fez uma viagem ao Caribe e a Miami mesmo tendo uma dívida com a XP.

A dívida diz respeito ao mesmo caso. Todas as vítimas tinham uma questão em comum: haviam contratado outra empresa para fazer a gestão das carteiras: a Genus Capital Group, de Klabin.

A gestora, no entanto, deixou o negócio e formalizou o distrato dos contratos em abril de 2016 — um ano antes da constatação das fraudes, exatamente quando Klabin identificou irregularidades nas operações realizadas por Ricardo Barbosa. A gestora notificou tanto os clientes quanto a XP.

Logo após a descoberta da fraude, que ocorreu após o empresário ter “devolvido” as carteiras ao agente autônomo, Klabin e a XP firmaram um acordo extrajudicial, no qual o empresário se comprometia a pagar por parte do prejuízo dos correntistas da XP, mesmo tendo uma declaração da XP, assinada pelo diretor jurídico Pedro Pinho, que o isentava de qualquer responsabilidade na fraude.

Bem antes de processar o agente, no entanto, a XP processou o empresário. A decisão de execução da dívida de Klabin foi expedida em 2021 — mesmo ano em que a XP acionou pela primeira vez a Justiça contra Ricardo.

Klabin afirma que parou de pagar a XP não por inadimplência deliberada, mas sim pelo descumprimento, por parte da própria XP, de cláusulas essenciais ao acordo, entre elas, justamente, a indenização dos clientes lesados.

O que diz a XP

Por meio de nota, a XP informou que “o assessor foi desligado imediatamente, medidas legais foram adotadas contra os envolvidos e, ao longo dos últimos anos, a companhia fortaleceu significativamente seus controles e mecanismos de supervisão”. “Todos os clientes impactados pela atuação irregular foram ressarcidos, sendo que um caso específico segue em discussão judicial, e a XP cumprirá integralmente o que for determinado pela Justiça.”

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