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Nove anos após reconhecer fraude de agente autônomo, XP ainda não pagou cliente que teve prejuízo milionário
Episódio causou prejuízos de mais de R$ 14 milhões a grupo de clientes da XP. Caso rendeu processos judiciais e na CVM
atualizado
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Ao reunir os documentos necessários para fazer a declaração do Imposto de Renda, em abril de 2017, uma investidora abriu a conta na XP onde havia aplicado mais de R$ 2 milhões e descobriu que boa parte do dinheiro havia desaparecido. O valor exibido era completamente diferente dos extratos enviados regularmente pelo agente autônomo da XP que a convenceu a aplicar o valor na corretora.
Foi assim que começou um dos episódios mais estarrecedores do mercado financeiro brasileiro, que provocou um prejuízo superior a R$ 14 milhões a clientes da XP. Resumidamente, um agente autônomo da corretora perdeu o dinheiro dos investidores e maquiou a situação enviando extratos falsos para os clientes.
Fraude que, à época, foi reconhecida pela XP em comunicado. No texto, a XP afirma que um agente autônomo da corretora “agiu de forma inapropriada — em desacordo com as nossas normas e princípios éticos — com um grupo de quatro clientes, totalizando um prejuízo de, aproximadamente, R$ 5 milhões”.
“A XP Investimentos, muito embora entenda que sua responsabilidade seja limitada, compensará integralmente os clientes, reservando-se o direito de acionar os responsáveis pelas referidas perdas na Justiça”, dizia a nota divulgada pela empresa ainda em 2017.
Mais tarde, no entanto, ficou comprovado que 12 clientes foram lesados e que os valores perdidos passavam de R$ 14 milhões. Além disso, nove anos depois, nem todos os correntistas foram ressarcidos — e os que foram se queixam dos valores pagos.
Ainda em 2017, a cliente que identificou a fraude acionou o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) pedindo que a XP apresentasse a documentação que demonstrasse as movimentações financeiras realizadas na conta dela no período.
Apesar de ter reconhecido a situação publicamente, nos autos, a defesa da XP afirma que a cliente, após quatro anos de “bom relacionamento” com a corretora, “passou a traçar teorias conspiratórias e lançar acusações que carecem de um mínimo de sustentabilidade”.
O episódio ensejou, também, um processo administrativo sancionador da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A medida, inclusive, alcança Guilherme Benchimol, CEO e fundador da XP. À autarquia, a corretora propôs um termo de compromisso, mecanismo para encerrar o processo sancionador.
Ao recusar a proposta, em dezembro de 2025, a CVM apontou, justamente, que a XP ainda não tinha ressarcido a cliente que havia denunciado a fraude. O entendimento cita decisão do TJRJ que condenou a XP a pagar mais de R$ 1 milhão a correntista. Em resposta, a XP “rememora sua disposição de ressarcir” a cliente.
“Sendo certo que, desde o início, quando descoberta a atuação irregular do assessor de investimento, a corretora se propôs a fazê-lo por mera liberalidade e no intuito de manter a relação contratual com a cliente”, diz a XP.
À CVM, a XP se comprometeu a pagar R$ 1.485.000, em parcela única, sendo R$ 1.080.000 pagos pela corretora e R$ 405 mil por Guilherme Benchimol. A autarquia ainda não deu uma resposta sobre a última proposta que inclui, também, o pagamento do valor devido à correntista.
Processo contra agente autônomo
Apesar de a fraude ter sido constatada em 2017, a XP só acionou judicialmente o agente autônomo responsável pelo prejuízo milionário em 2021. Na ação, a XP responsabiliza o agente, Ricardo de Oliveira Barbosa, dono da Index, pelos prejuízos e pede que ele pague pelos ressarcimentos feitos aos clientes da corretora.
Nos autos, a XP afirma que onze investidores sofreram prejuízos e foram ressarcidos. Ao todo, a corretora diz ter pago R$ 12 milhões. No desenrolar do processo, que corre em segredo de Justiça no TJRJ, alguns deles foram ouvidos como testemunhas e se queixaram dos valores oferecidos pela XP. A correntista que denunciou a fraude não é citada e nem listada entre as vítimas.
“No final de 2017, a XP tomou conhecimento de que a Index, na prática, deixara de lado a sua função de agente autônomo de investimentos para atuar como verdadeira gestora dos ativos de alguns dos seus clientes”, diz a XP na peça inicial. “Além disso, Ricardo Barbosa também passou a encaminhar diretamente aos clientes/investidores prejudicados extratos mensais com supostos rendimentos por eles auferidos”, continua.
No documento, a XP traz informações estarrecedoras, como uma planilha apresentada por Ricardo em uma reunião realizada pouco depois da fraude ser descoberta. O agente autônomo descrevia os valores perdidos por cada cliente, listava características como profissão e supostos “traços de personalidade” e se eles sabiam ou não se tinham perdido o dinheiro que haviam investido.
Detalhes dos clientes na planilha do agente autônomo
- Uma das clientes é descrita como “do lar”. Na linha ao lado, constava a informação: “Não acompanhava a conta, cardíaca, passou mal ao saber que havia perdido quase tudo”.
- Outro cliente é classificado como “mineiro desconfiado até da sombra”. A planilha informa que ele havia notado a perda e registrado “reclamação na ouvidoria da XP”.
Ainda sem uma decisão definitiva, o processo subiu para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) em novembro de 2025.
O episódio ensejou, ainda, outro processo judicial, que, recentemente, levou a proibição de que o empresário Alexandre Klabin de se ausentar do país após constatar que ele fez uma viagem ao Caribe e a Miami mesmo tendo uma dívida com a XP.
A dívida diz respeito ao mesmo caso. Todas as vítimas tinham uma questão em comum: haviam contratado outra empresa para fazer a gestão das carteiras: a Genus Capital Group, de Klabin.
A gestora, no entanto, deixou o negócio e formalizou o distrato dos contratos em abril de 2016 — um ano antes da constatação das fraudes, exatamente quando Klabin identificou irregularidades nas operações realizadas por Ricardo Barbosa. A gestora notificou tanto os clientes quanto a XP.
Logo após a descoberta da fraude, que ocorreu após o empresário ter “devolvido” as carteiras ao agente autônomo, Klabin e a XP firmaram um acordo extrajudicial, no qual o empresário se comprometia a pagar por parte do prejuízo dos correntistas da XP, mesmo tendo uma declaração da XP, assinada pelo diretor jurídico Pedro Pinho, que o isentava de qualquer responsabilidade na fraude.
Bem antes de processar o agente, no entanto, a XP processou o empresário. A decisão de execução da dívida de Klabin foi expedida em 2021 — mesmo ano em que a XP acionou pela primeira vez a Justiça contra Ricardo.
Klabin afirma que parou de pagar a XP não por inadimplência deliberada, mas sim pelo descumprimento, por parte da própria XP, de cláusulas essenciais ao acordo, entre elas, justamente, a indenização dos clientes lesados.
