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Times Square pode causar sérios problemas de segurança viária, diz CET
Projeto aprovado prevê a instalação de 2.100m² de telões luminosos em um único cruzamento no centro de São Paulo
atualizado
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“A instalação de painéis full LED em fachadas e esquinas em São Paulo pode resultar em sérios problemas de segurança viária“, o alerta foi feito pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em estudo a respeito do projeto do Boulevard São João, que está sendo popularmente chamado de Times Square Paulistana. Pelo projeto já aprovado pelos órgãos competentes, quatro telões de LED de 2.100m² totais serão instalados no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João.
O documento produzido pela CET em fevereiro cita diversos estudos acadêmicos a respeito de impacto de painéis luminosos no trânsito. Todos eles apontam, cientificamente, que tais painéis causam distração e têm efeito negativo no comportamento do motorista, que passa mais tempo olhando para algo que não é o caminho adiante na pista.
Um desses estudos descobriu que os condutores direcionam seu olhar para fora da via por duas vezes mais tempo quando os painéis são eletrônicos do que os tradicionais, proibidos em São Paulo há 20 anos. Diante de painéis luminosos, os motoristas têm mais dificuldade de manter a velocidade adequada e de identificar a sinalização viária.
A CET aponta ainda que estudos mais recentes começam a demonstrar que a existência dos painéis está associada ao aumento das taxas de acidentes nos locais onde estes estão locados. “Estes estudos mostram claramente que, quanto mais os sinais têm sucesso em atrair a atenção dos condutores, valendo a pena o investimento para os interessados, maior a ameaça à segurança ao longo das vias de onde estes sinais podem ser vistos”, afirma o relatório.
Ou seja: de um lado, quem investe nestes painéis quer atrair a atenção do público que passa na região para justificar o investimento – por isso, placas cada vez com mais movimento na beira do campo em jogos de futebol. De outro, quanto mais os painéis conseguem atrair a atenção de motoristas, mais risco à segurança no trânsito.
Com relação ao projeto para o centro de São Paulo, a CET apontou quatro riscos principais:
- Distração do Condutor: Imagens em movimento, cores vibrantes e mudanças rápidas nas mensagens dos painéis podem atrair o olhar dos motoristas por vários segundos. Um condutor que desvia os olhos da estrada por apenas 3 segundos pode percorrer cerca de 100 metros sem atenção, aumentando significativamente o risco de acidentes, especialmente em cruzamentos movimentados ou curvas.
- Ofuscamento: A intensidade luminosa dos LEDs, principalmente à noite ou em condições climáticas adversas, pode ofuscar temporariamente a visão dos motoristas. Isso compromete a capacidade de perceber a sinalização de trânsito, outros veículos, pedestres e obstáculos na via.
- Prejuízo à Visibilidade da Sinalização: Painéis muito brilhantes e próximos de semáforos, placas de trânsito ou outras sinalizações essenciais podem ofuscar ou mascarar essas informações críticas, dificultando a obediência às regras de trânsito.
- Confusão Visual: A saturação visual causada por múltiplos painéis ou por um único painel grande e dinâmico contribui para a poluição visual, tornando o ambiente de direção mais complexo e estressante, o que pode reduzir o tempo de reação dos condutores.
Para mitigar os problemas, a CET recomendou diversas medidas regulatórias e de fiscalização. São 18 “condicionantes” que serão votadas no futuro pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CCPU), órgão que nesta quarta-feira (11/3) autorizou a formalização de um termo de cooperação para dar origem ao Boulevard São João.
- Parâmetros máximos de luminância (300 cd/m² à noite) e horário de funcionamento das 5h às 23h;
- Sistema automático de controle de brilho, com uso de sensores e redução gradual da luminância;
- Estudos técnicos sobre impacto visual, ofuscamento, contraste com a iluminação pública e intrusão luminosa;
- Os painéis não podem prejudicar a leitura de semáforos, placas ou outras sinalizações de trânsito;
- Cada imagem deve permanecer ao menos 10 segundos e são proibidos vídeos, animações, flashes ou efeitos estroboscópicos. As transições devem ser suaves e evitar cores excessivamente vibrantes ou estímulos visuais abruptos;
- Priorização de conteúdo cultural, institucional ou educativo, adequado ao ambiente da Av. São João. A programação deve ser submetida à curadoria e enviada periodicamente à São Paulo Urbanismo;
- O projeto deve demonstrar compatibilidade com a paisagem urbana e com o patrimônio histórico da região;
- Após a instalação, deverão ser feitas medições de luminância no local em diferentes horários e pontos de observação;
- Se forem identificados impactos negativos, o responsável deverá ajustar parâmetros técnicos, reduzir brilho ou alterar a programação;
- Os parâmetros de funcionamento poderão ser revisados ao longo do tempo.
- Deve ser indicado responsável técnico pelo projeto luminotécnico e pelo monitoramento dos painéis;
- Os sistemas deverão permitir atualizações para se adequar a novas normas ou exigências técnicas durante a vigência do acordo;
- A aprovação do projeto não dispensa a obtenção das demais licenças necessárias junto a órgãos públicos. Isso inclui autorizações relacionadas à segurança estrutural e ao Corpo de Bombeiros.
- Devem ser autuados processos administrativos apartados para a conservação do Monumento à Mãe Preta e do Relógio de Nichile;
- Após aprovação da proposta os interessados terão até três meses para fornecer quem serão os cinco primeiros apoiadores culturais;
- Poderá haver no máximo dez apoiadores culturais fixos por ano;
- Estudar a possibilidade de doação de aparelhos de luxímetros e capacitação de servidores para sua utilização;
- Inserir a elaboração de estudos de fachadas com sua historicidade nas oficinas e atendimento à lei Cidade Limpa.
A CET também propõe que, para a transmissão de eventos ao vivo – a proponente Fábrica de Bares quer exibir jogos da Copa e shows -, o tráfego de veículos seja proibido na região.
Durante a reunião do CPPU, membros da comissão apontaram que os “fiscais de posturas” das subprefeituras não têm capacitação nem equipamento para fiscalizar luminância. A presidenta da comissão, Regina Monteiro, defendeu a aprovação dizendo que confia que os empresários envolvidos não vão descumprir as condicionantes para não correrem o risco de perder a autorização e o investimento.















