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Claudia Meireles

The Lancet: pesquisadores mostram impacto dos ultraprocessados à saúde

Além dos pesquisadores, a cozinheira, escritora e empresária Rita Lobo mediou um debate. A The Lancet é uma renomada revista científica

Ana Freitas/Ministério da Saúde/Imagem cedida ao Metrópoles
The Lancet: pesquisadores mostram impacto dos ultraprocessados à saúde

O Brasil sediou o lançamento da Série The Lancet sobre Alimentos Ultraprocessados e Saúde Humana, no auditório externo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Brasília, na manhã dessa quarta-feira (3/12). O evento de divulgação dos artigos da revista acadêmica — considerada uma das mais importantes do mundo — contou com a presença de pesquisadores, que ressaltaram as evidências científicas a respeito dos impactos desses produtos à saúde.

Estiveram presentes os autores dos artigos da série, sendo eles Carlos Monteiro e Patrícia Jaime, integrantes do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens-USP), além do professor Phillip Baker, da Universidade de Sydney, na Austrália.

Representantes dos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e de agências da Organização das Nações Unidas (ONU) compareceram à ocasião. No evento, houve a apresentação de uma agenda global de políticas públicas para enfrentar o “problema” em torno do consumo de ultraprocessados. Um debate mediado pela cozinheira, escritora e empresária Rita Lobo, além de “defensora da comida de verdade”, também fez parte da programação.

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Rita Lobo mediou um debate

Substituição do padrão tradicional para os ultraprocessados

Primeiramente, quem ficou com a palavra foi o professor Carlos Monteiro, criador do conceito de ultraprocessados. Fundador do Nupens, ele detalhou o trabalho desenvolvido para a revista científica: “Há três anos, um grupo de pesquisadores, do qual eu fiz parte, propôs à Lancet uma série sobre alimentos ultraprocessados e saúde humana. O projeto envolveu 43 autores, que trabalham, têm pesquisas e publicaram artigos científicos a respeito do tema. Essas 43 pessoas pertencem a universidades dos cinco continentes.”

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Intitulada Alimentos ultraprocessados e saúde humana, a tese do médico e epidemiologista da USP reforçou a existência da substituição de padrões tradicionais de alimentação pelo padrão ultraprocessado. Ele exemplifica com a troca de água, chá e suco natural por refrigerantes. Na avaliação de Monteiro, essa alteração “é um determinante-chave da pandemia de doenças crônicas relacionadas à alimentação”, como diabetes, obesidade e pressão alta.

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O pesquisador Carlos Monteiro

O pesquisador apresentou ainda “a nova classificação dos alimentos baseada na extensão e propósito do seu processamento industrial”. Ao todo, são quatro grupos, categorizados em alimentos não processados ou minimamente processados; ingredientes culinários processados; alimentos processados; e alimentos ultraprocessados.

De acordo com o médico, os alimentos ultraprocessados “não podem ser definidos como alimentos, mas sim como formulações industriais”. Ele salientou que essas opções foram criadas para substituir todos os outros grupos da classificação nova e para modificar o padrão tradicional de alimentação. Monteiro endossou ainda sobre o uso de xenobióticos, substâncias químicas que “o organismo não consegue metabolizar”.

“De fato, um ultraprocessado age como um padrão de alimentação pelo qual as pessoas e as sociedades vão progressivamente substituindo alimentos convencionais por um ultraprocessado. A primeira substituição, que acontece nos países, é deixar de tomar água, café, chá e suco natural de fruta e passar a consumir refrigerantes. Essa é a porta de entrada em geral dos ultraprocessados”, endossou Carlos Monteiro.

“O lema do ultraprocessado não é devido ao consumo de refrigerante e iogurtes aromatizados. Envolve esse conjunto de mudanças do padrão tradicional para o ultraprocessado”, esclareceu. Conforme o epidemiologista, esse modelo já ocorre no Brasil. “Três hipóteses foram testadas e comprovadas no país. Realmente no Brasil, nós identificamos o aumento do consumo de ultraprocessados, impacto negativo na qualidade da dieta e aumento no risco de múltiplas doenças crônicas”, mencionou.

Ana Freitas/Ministério da Saúde/Imagem cedida ao Metrópoles
Pesquisadores do Nupens, Patrícia Jaime e Carlos Monteiro expuseram artigos sobre os ultraprocessados

Políticas públicas

Ao finalizar, Monteiro frisou “a evidência justifica uma resposta sanitária global”, assunto enfatizado no artigo coproduzido pela doutora em saúde pública e nutricionista Patrícia Jaime. Ao apresentar o escrito intitulado Políticas para deter e reverter o aumento da produção, publicidade e consumo de alimentos ultraprocessados, a pesquisadora acentuou ser necessário desenvolver políticas mais amplas que “olhem” o sistema alimentar e considerem desde a produção, a publicidade e o estímulo à ingestão desses alimentos.

Uma abordagem proposta pelos autores e citada por Patrícia envolve identificar os alimentos ultraprocessados adequadamente a partir da classificação nova, ou seja, com o número 4 escrito na embalagem.

“Identificando todos os alimentos que apresentem alguma das características que caracteriza os ultraprocessados, são aqueles ingredientes usados exclusivamente no processo industrial e a presença de aditivos relacionados ou componentes funcionais, que ressaltam sabor e textura”, declarou a nutricionista.

Ana Freitas/Ministério da Saúde/Imagem cedida ao Metrópoles
Doutora em saúde pública e nutricionista Patrícia Jaime destacou as abordagens citadas no artigo

Outro tópico relatado pela doutora em saúde pública é partir do perfil de nutrientes de cada país. “Utilizando esses modelos existentes e agregando camadas de informação para que consigamos captar a totalidade dos alimentos ultraprocessados disponíveis no mercado”, explicou. Ela prosseguiu: “Apresentamos possibilidades alimentares e nutricionais partindo do reforço de experiências exitosas e mapeadas para a manutenção dessas iniciativas”.

Ao concluir, Patrícia Jaime defendeu: “As políticas vão variar [entre países], mas a mensagem principal é que independentemente do nível de consumo, é urgente a adoção de um conjunto de políticas públicas que leve em consideração o posicionamento do país no processo de transição para as dietas ultraprocessadas e as características econômicas e sociais dos aspectos de contexto de cada país.”

Confira a entrevista concedida pela doutora em saúde pública para a coluna Claudia Meireles:

Atuação contra os ultraprocessados

Apresentado pelo doutor Phillip Baker, da Universidade de Sydney, o terceiro artigo da série tem o título Em direção a uma ação global unificada sobre alimentos ultraprocessados: compreendendo os determinantes comerciais, combatendo o poder corporativo e mobilizando uma resposta de saúde pública. No ponto de vista do professor, o Brasil “lidera” o mundo contra os ultraprocessados.

Segundo Baker, os ultraprocessados são um problema econômico. Ele, inclusive, comparou esses produtos ao tabaco em razão do vício desencadeado e da publicidade em torno dessas opções. Para o professor, deve-se apresentar estratégias para lidar com as corporações que produzem esses alimentos, porque as companhias visam a “lucratividade cima de tudo”.

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Professor Phillip Baker, da Universidade de Sydney, na Austrália

Cozinhar

Cozinheira, escritora, empresária, diretora do Panelinha e parceria do Nupens, Rita Lobo atua na construção de estratégias de comunicação que valorizem a comida de verdade e a culinária como ferramenta de saúde pública. “Alimentação saudável é sinônimo de comida de verdade, e é tudo isso que os ultraprocessados tiraram de nós. Não é assunto de dona de casa, mas da casa, de mulheres, homens, adultos e adolescentes.”

“Depois de mais de 30 anos ensinando milhões de pessoas a cozinhar, posso afirmar que cozinhar não é dom, é um aprendizado. Ninguém nasce sabendo. Nem eu nasci sabendo. Eu aprendi, posso garantir que todo mundo aprende. É como ler e escrever. Todo mundo deveria saber”, expressou.

Conforme Rita, a nova classificação dos alimentos baseada na extensão e propósito do seu processamento industrial era a peça do quebra-cabeça que faltava para poder ter clareza do que é comida de verdade, inclusive é o “extremo oposto dos ultraprocessados“. “Isso mostra para nós que cozinhar é uma ferramenta para tirar os ultraprocessados da mesa”, garantiu.

Abaixo, confira o vídeo da entrevista de Rita Lobo para a coluna:

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