Conheça espécie de tubarão que luta e come os irmãos dentro do útero
Canibalismo intrauterino e oofagia fazem parte da seleção natural desses animais e garantem poucos mas fortes filhotes
atualizado
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Em algumas espécies de tubarões, a luta pela sobrevivência começa ainda dentro do corpo da mãe. Antes mesmo de nascer, os filhotes competem entre si por alimento e espaço.
Em casos extremos, um embrião pode devorar os próprios irmãos ou consumir ovos não fecundados para garantir energia suficiente e crescer mais rápido.
Esse tipo de estratégia reprodutiva ajuda a explicar como funciona a seleção natural do tubarão-tigre-da-areia (Carcharias taurus): a natureza nem sempre favorece a maior quantidade de descendentes, mas sim aqueles com maior chance de sobreviver em ambientes difíceis, como o oceano.
Canibalismo intrauterino e oofagia: qual é a diferença?
Existem duas estratégias principais. O canibalismo intrauterino acontece quando um embrião consome outros embriões já fecundados. Já a oofagia ocorre quando o filhote se alimenta de ovos não fertilizados produzidos pela própria fêmea, que funcionam como uma fonte extra de nutrientes.
Segundo Camila Braga, professora de Biologia do Colégio Objetivo de Brasília, esses comportamentos não aparecem em todos os tubarões.
“Cada espécie desenvolveu uma estratégia diferente de reprodução. Em algumas, há canibalismo embrionário; em outras, apenas o consumo de ovos nutritivos”, explica.
Segundo a especialista, o exemplo mais conhecido é o do tubarão-tigre-da-areia. Nessa espécie, a fêmea possui dois úteros e, em cada um deles, começam a se desenvolver entre 8 e 12 embriões, além de vários ovos não fecundados.
Durante a gestação, um embrião cresce mais rápido, desenvolve dentes funcionais antes dos outros e passa a devorar os irmãos. Esse processo é chamado de adelfofagia.
De acordo com o professor de Biologia Marcello Lasneaux, da Heavenly International School, a vantagem é clara. “Quem desenvolve os dentes primeiro vence a disputa. No final, apenas um filhote por útero sobrevive”, afirma.

Filhotes maiores e mais preparados para o oceano
O resultado desse processo é o nascimento de poucos filhotes — geralmente dois por gestação —, mas muito maiores e mais fortes. Esses tubarões podem nascer com quase um metro de comprimento, enquanto filhotes de outras espécies costumam medir cerca de 50 centímetros.
Segundo os especialistas, nascer maior aumenta as chances de sobrevivência. O filhote consegue nadar melhor, fugir de predadores, caçar com mais eficiência e resistir ao estresse ambiental logo nos primeiros dias de vida.
Apesar das vantagens para o filhote, o custo para a mãe é alto. A fêmea precisa investir muita energia para manter a gestação e produzir ovos nutritivos por um longo período.
Isso reduz a frequência reprodutiva e aumenta o intervalo entre uma gestação e outra, além de deixá-la mais vulnerável a mudanças no ambiente. Ainda assim, a estratégia se mantém ao longo da evolução porque gera descendentes mais aptos a sobreviver e, no futuro, se reproduzir.
Nem todos os tubarões fazem isso
É importante destacar que esse tipo de reprodução não ocorre em todas as espécies de tubarões. Tubarões-mako e o tubarões-branco praticam a oofagia. O tubarão-touro (Carcharhinus leucas), por sua vez, é vivíparo placentário, com alto investimento por filhote, mas sem consumo de ovos ou irmãos. Para Camila, esse comportamento é um exemplo claro de como a seleção natural funciona.
“A natureza não prioriza o maior número de indivíduos, mas aqueles com maior chance de sobreviver e se reproduzir”, resume.
Nos tubarões, vencer a competição começa ainda no útero. Apenas os mais fortes chegam ao nascimento — e seguem adiante no ciclo da evolução.
