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Ciência

El Niño ameaça biodiversidade da Amazônia com seca e calor

Fenômeno El Niño reduz chuvas, eleva temperaturas, intensifica queimadas e coloca espécies e ecossistemas amazônicos em risco

05/07/2026 02:00
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Biodiversidade da floresta Amazônica-Metrópoles

A influência do El Niño sobre a Amazônia vai além das mudanças no clima. O fenômeno altera o regime de chuvas, aumenta as temperaturas e prolonga os períodos de estiagem, criando um cenário que compromete a biodiversidade da maior floresta tropical do planeta. Entre as consequências estão a redução do volume dos rios, o aumento das queimadas, a morte de espécies e mudanças na dinâmica dos ecossistemas.

Os impactos também alcançam as populações que dependem diretamente da floresta e dos rios para transporte, alimentação e geração de renda. Com a combinação entre seca intensa e calor extremo, especialistas alertam que a capacidade de recuperação da Amazônia pode ser reduzida caso eventos climáticos severos se tornem mais frequentes.

Menos chuva, mais calor e risco crescente para a floresta

Segundo o professor Reuber Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), o El Niño favorece o aumento das temperaturas médias, prolonga os períodos de estiagem e reduz a regularidade das chuvas na Amazônia. Como consequência, os rios atingem níveis mais baixos, cresce a ocorrência de incêndios florestais e a vegetação sofre com o estresse hídrico.

O especialista explica que o ressecamento do solo e da camada de folhas facilita a propagação do fogo para áreas que historicamente não conviviam com queimadas. O cenário provoca a morte de árvores, altera a estrutura da vegetação e aumenta a emissão de gases de efeito estufa, criando um ciclo que pode intensificar ainda mais os efeitos das mudanças climáticas.

“Grande parte da Amazônia evoluiu sem a presença do fogo. Quando ele passa a atingir áreas que nunca queimaram, os impactos sobre árvores, animais e o funcionamento do ecossistema podem ser muito profundos”, afirma Brandão.

Alterações climáticas como o El Niño afetam rios, fauna e qualidade do ar

O geógrafo Wellington Lopes Assis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que o El Niño modifica a circulação atmosférica no Pacífico e desencadeia efeitos que chegam à Amazônia por meio das chamadas teleconexões climáticas. O resultado é a redução das chuvas, o aumento das temperaturas e o agravamento das secas na região.

Com menos precipitação, diminui a vazão dos rios, surgem bancos de areia e aumenta a mortalidade de peixes e outras espécies aquáticas. Ao mesmo tempo, a vegetação perde umidade, tornando-se mais vulnerável aos incêndios. A fumaça das queimadas ainda compromete a qualidade do ar e representa um risco adicional à saúde da população.

“Combater o desmatamento, monitorar focos de calor e investir em políticas de desenvolvimento sustentável são medidas fundamentais para reduzir os impactos ambientais e sociais do El Niño”, destaca Assis.

Espécies vulneráveis podem enfrentar perdas duradouras

De acordo com a geógrafa Cláudia Pinheiro Nascimento, da Universidade Católica de Brasília (UCB), a biodiversidade amazônica sofre impactos que vão muito além da mortalidade imediata de plantas e animais. A seca prolongada reduz a disponibilidade de água, prejudica a fotossíntese, diminui o crescimento das árvores e favorece incêndios que alteram a composição da floresta.

Nos ambientes aquáticos, a queda do nível dos rios compromete a reprodução e a alimentação de peixes, quelônios, anfíbios e mamíferos como os botos. Em terra firme, altas temperaturas e escassez de água levam ao estresse térmico, à desidratação e ao aumento da mortalidade de diversas espécies.

Embora parte dos ecossistemas consiga se recuperar após o retorno das chuvas, eventos extremos associados ao desmatamento e às queimadas podem provocar mudanças permanentes na composição da floresta e reduzir sua capacidade de armazenar carbono.

“A proteção da biodiversidade durante eventos extremos depende do combate ao desmatamento, da prevenção às queimadas, do monitoramento ambiental e da recuperação de áreas degradadas, fortalecendo a capacidade de resistência da floresta”, afirma Cláudia.