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Ciência

Além do El Niño, aquecimento global explica mudanças climáticas

Fenômeno influencia o clima, mas aquecimento global e mudanças regionais ajudam a explicar eventos extremos recentes

20/06/2026 02:00
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Vinícius Schmidt/Metrópoles (@vinicius.foto)
Além do El Niño, aquecimento global explica mudanças climáticas

As recentes chuvas fora de época, ondas de calor e outros eventos extremos têm levado muitas pessoas a questionar se as mudanças climáticas observadas atualmente são consequência direta do El Niño. Embora o fenômeno exerça influência importante sobre o clima atual, especialistas alertam que a resposta é mais complexa e envolve também os efeitos do aquecimento global e transformações ambientais em diferentes escalas.

O debate ganhou força diante do aumento da frequência de eventos meteorológicos extremos registrados em várias regiões do Brasil e no mundo. Segundo os especialistas ouvidos pelo Metrópoles, atribuir todas essas ocorrências ao El Niño pode simplificar excessivamente um sistema climático marcado por múltiplas interações.

El Niño ainda influencia o clima

O geógrafo Wellington Lopes Assis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que os efeitos do El Niño podem permanecer por muitos meses após sua formação.

“O El Niño é um fenômeno natural cíclico que ocorre em intervalos irregulares de dois a sete anos e seus efeitos podem ser sentidos por cerca de um ano a um ano e meio”, afirma.

De acordo com o pesquisador, as anomalias climáticas registradas neste período ainda podem ser parcialmente explicadas pela atuação do fenômeno. No entanto, ele ressalta que a diferença entre os impactos do El Niño e das mudanças climáticas de longo prazo nem sempre é simples, especialmente quando se analisa um intervalo curto de tempo.

“Somente em intervalos temporais longos, como uma série histórica de décadas, seria possível fazer essa diferenciação”, destaca.

Além do El Niño, Assis cita outros fatores capazes de influenciar o clima, como a Oscilação Decadal do Pacífico, a Oscilação Multidecadal do Atlântico, os ciclos solares e a atividade vulcânica.

Eventos extremos têm relação com o aquecimento global

Para o geógrafo Rafael Rodrigues da Franca, professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), muitos dos eventos recentes observados no Brasil ainda não podem ser atribuídos ao El Niño, especialmente porque o fenômeno está em fase inicial de desenvolvimento.

Segundo ele, o fenômeno foi reconhecido oficialmente há pouco tempo e tende a ganhar força ao longo dos próximos meses, alcançando maior intensidade entre o fim deste ano(2026) e o início do próximo.

“O El Niño apenas está iniciando e ainda vai influenciar bastante o clima em várias partes do planeta nos próximos meses”, afirma.

O pesquisador avalia que episódios recentes, como chuvas atípicas registradas em junho no Distrito Federal, estão mais associados ao contexto de aquecimento global do que ao fenômeno oceânico-atmosférico.

“O planeta está mais quente e isso fomenta eventos climáticos mais extremos, como chuvas intensas, ondas de calor, ondas de frio e vendavais”, diz.

Ciência ajuda a separar as causas

Identificar exatamente o que provoca cada evento extremo exige análises detalhadas. De acordo com Franca, os cientistas utilizam uma metodologia chamada estudo de atribuição para medir o peso de diferentes fatores em cada ocorrência climática.

Essa abordagem permite avaliar quanto determinado evento foi influenciado por fenômenos globais, mudanças regionais na paisagem, crescimento urbano ou alterações ambientais locais.

O especialista destaca que, além das mudanças climáticas globais, fatores como o avanço da urbanização e as transformações do Cerrado também contribuem para alterar padrões meteorológicos.

Já Assis lembra que os registros observados nas últimas décadas apontam uma tendência consistente de aumento das temperaturas médias globais. Para ele, mesmo em um sistema climático complexo, há evidências de que o aquecimento do planeta está associado ao aumento da frequência de ondas de calor e eventos de chuva intensa.

Dessa forma, os especialistas concordam que o El Niño continua sendo uma peça importante do quebra-cabeça climático, mas está longe de ser a única explicação para os eventos extremos observados atualmente. As mudanças climáticas, impulsionadas pelo aquecimento global e por transformações ambientais regionais, têm papel cada vez mais relevante na dinâmica do clima.