Sob ameaça de tarifaço, Lula repete tom de 2025 de olho na eleição

Planalto vê motivação política em apuração dos EUA e teme uso de sobretaxa para pressionar o Brasil. PT ligará caso a Flávio Bolsonaro

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Foto colorida mostra os presidentes Trump (EUA) e Lula (Brasil) - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida mostra os presidentes Trump (EUA) e Lula (Brasil) - Metrópoles - Foto: Andrew Harnik/Getty Images

Diante de uma nova ofensiva dos Estados Unidos, que pode resultar em nova tarifa sobre produtos brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a adotar o tom utilizado no ano passado contra medidas tarifárias do governo de Donald Trump.

O discurso reforça a soberania nacional e faz contraponto às articulações da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em território americano, apontadas como fator de desgaste para o Brasil.

Na segunda-feira (1º/6), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) divulgou a conclusão de uma investigação que recomenda a aplicação de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Entre os pontos centrais estão questionamentos ao Pix e à atuação do Banco Central.

Segundo o USTR, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos criaria desvantagens para empresas norte-americanas do setor ao favorecer uma solução estatal e centralizada, o que poderia limitar a concorrência de plataformas privadas internacionais.

Um grupo de trabalho bilateral, criado após reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, em 7 de maio, buscava discutir pendências comerciais remanescentes das tarifas impostas no ano passado. A previsão era encerrar as negociações até esta sexta-feira (5/6), mas não houve avanços relevantes.

Embora o colegiado não trate diretamente da investigação com base na Seção 301, o governo brasileiro aposta na continuidade do diálogo para evitar a aplicação das tarifas, sob o argumento de que os EUA mantêm superávit na balança comercial com o Brasil.

Em 2025, Lula associou a decisão americana de impor tarifas de 50% sobre exportações brasileiras à atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) junto a autoridades dos EUA. À época, a medida também foi interpretada como tentativa de pressionar o Judiciário no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). A pressão não surtiu efeito.

Naquele contexto, o embate com Washington teve efeito político interno favorável ao presidente. Com um discurso voltado à defesa da soberania, Lula registrou melhora na popularidade ao adotar postura firme diante das pressões externas.

Desta vez, o timing do anúncio de um possível novo tarifaço também pode favorecer o chefe do Executivo. Na última semana, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com Trump na Casa Branca. Dois dias depois, o governo americano anunciou a intenção de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas — proposta rejeitada pelo governo brasileiro por temer brechas para eventual intervenção externa.

Nesta terça-feira (2/6), Lula reagiu à possível medida e voltou a relacionar a investigação americana às ações de membros da família Bolsonaro. O presidente também elevou o tom contra Flávio, que é seu principal adversário até o momento para a disputa de outubro, mirando o cenário eleitoral.

Em Catalão (GO), o petista afirmou que os filhos do ex-presidente são “traidores” e “vendilhões da pátria”. Segundo Lula, eles “foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras”. Ao mencionar a reunião entre Flávio e Trump, o presidente chamou o filho mais velho de Bolsonaro de “imbecil”.

“Ele [Flávio Bolsonaro] hoje foi dizer que não falou nada. E falou. Ele foi pedir arrego. Foi dizer: ‘Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições, Trump, não deixa. Prejudica o Lula’. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, vai prejudicar o povo, os empresários, o agronegócio brasileiros”, disse.

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Novo embate comercial entre Brasil e Estados Unidos reacende discussões sobre tarifas e leva governo e Congresso a avaliarem estratégias de reação à proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros
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Presidentes se reuniram na Casa Branca
Lula e Trump em encontro na Casa Branca
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Lula e Trump em encontro na Casa Branca

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Novo embate comercial entre Brasil e Estados Unidos reacende discussões sobre tarifas e leva governo e Congresso a avaliarem estratégias de reação à proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros
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Novo embate comercial entre Brasil e Estados Unidos reacende discussões sobre tarifas e leva governo e Congresso a avaliarem estratégias de reação à proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros

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No último ano, Trump elogiou Lula em algumas ocasiões
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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático
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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático

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O PT também adotado o mesmo tom. Nas redes sociais, o entorno do presidente Lula chamou a proposta do USTR de “Tariflávio”, uma tentativa de associar a possível taxação a Flávio Bolsonaro.

Segundo dirigentes do partido, a estratégia da campanha de Lula à reeleição deve ser insistir na conexão entre a medida e o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. O grupo também planeja repetir que aliados de Bolsonaro atuaram contra o Pix. Em Goiás, Lula segurou um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil” e disse que os americanos têm medo do sistema de pagamentos instantâneos.


As práticas consideradas “desleais” pelo relatório do USTR

  • Comércio Digital e Serviços de Pagamento Eletrônico: tribunais brasileiros emitiram ordens secretas determinando que empresas americanas de mídia social removessem determinados conteúdos políticos e suspendessem os perfis de residentes nos EUA, às vezes globalmente, além de proibir que as plataformas divulgassem essas ordens aos proprietários dos perfis. Os tribunais brasileiros também responsabilizaram financeiramente as empresas americanas de mídia social pelo descumprimento dessas ordens, impondo multas significativas; restringindo seu acesso a ativos, contas e sistemas de processamento de pagamentos no Brasil; e, em pelo menos um caso, fechando um site por completo. O Brasil também tem prejudicado injustamente empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem sua principal concorrente.
  • Tarifas preferenciais injustas: em virtude de acordos comerciais preferenciais de escopo parcial com o México e a Índia — que abrangem setores nos quais o México e a Índia são produtores avançados e globalmente competitivos —, o Brasil concede tratamento tarifário preferencial mais baixo a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos setores.
  • Combate à corrupção: o Brasil não adota medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção.
  • Proteção da Propriedade Intelectual: o Brasil não aplica suficientemente suas leis penais e regulamentações aduaneiras para combater a falsificação de produtos; não resolve o problema do tempo excessivo que suas autoridades levam para examinar pedidos de patentes, particularmente patentes biofarmacêuticas; e não implementa medidas antipirataria consistentes e contínuas.
  • Acesso ao mercado de etanol: em 2017, o Brasil interrompeu abruptamente o tratamento tarifário equilibrado que anteriormente aplicava ao etanol e, desde então, não tem oferecido tratamento tarifário recíproco às exportações de etanol dos EUA.
  • Desmatamento ilegal: apesar de possuir um marco legal para combater o desmatamento ilegal, o Brasil historicamente falhou em aplicá-lo de forma eficaz, e o desmatamento ilegal persiste.

Negociações com os EUA

Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que há um viés político na conclusão do USTR, mas acreditam que há espaço para negociação. A leitura é de que os Estados Unidos podem buscar algum tipo de compensação para não transformar a recomendação do USTR em tarifas efetivas.

Segundo auxiliares, não há conflito comercial entre os dois países, mas a ameaça de sobretaxa pode ser usada como instrumento de pressão por concessões — prática comum da gestão Trump em negociações internacionais. O governo brasileiro, no entanto, ainda não identifica claramente quais seriam essas demandas e pretende avaliar eventuais propostas antes de qualquer decisão.

No momento, a avaliação interna é de incerteza sobre a implementação das tarifas de 25% a partir de 15 de julho. Ainda assim, interlocutores destacam que a relação entre Lula e Trump está mais aberta ao diálogo do que no ano passado.

As três rodadas de tarifas impostas pelos EUA entre abril e julho de 2025 ocorreram antes de um contato direto entre os dois presidentes. O primeiro encontro aconteceu apenas em setembro, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York. Desde então, além da reunião em Washington, Lula e Trump mantiveram outros quatro contatos, diretos, incluindo telefonemas e um encontro na Malásia.

O governo também tem monitorado uma outra investigação conduzida pelo USTR e que tem o Brasil e outros 59 países na mira. Membros da gestão Lula temem que o caso renda ao Brasil uma nova sugestão de taxação sobre produtos brasileiros. O órgão americano investiga supostas falhas para impedir a entrada de produtos fabricados com mão de obra forçada no Brasil. A expectativa é de que o relatório sobre essa apuração seja divulgado nos próximos dias.

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