Mandetta é contra uso geral de cloroquina: “Risco de infarto”

Ministro se mostrou cético sobre remédio defendido por Bolsonaro para o coronavírus: "Ou você se baseia na ciência ou fica no 'eu acho'"

atualizado 15/04/2020 20:44

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reforçou, nesta quarta-feira (15/04), que não pretende deixar o cargo, mas não fez concessões em relação aos pontos que geram atritos entre ele e o presidente Jair Bolsonaro, como o uso da cloroquina para combater o coronavírus desde os estágios iniciais da doença. Mandetta disse que não há evidência real da eficácia do medicamento, que tem sido defendido pelo presidente da República, e que seu uso fora do ambiente hospitalar pode ser perigoso, porque um dos efeitos colaterais do composto é a arritmia cardíaca.

“Você quer proteger qual paciente? O acima de 60 anos? Essas pessoas podem ser as que mais vão sofrer arritmia e mais vão morrer pela cloroquina”, disparou Mandetta, em entrevista coletiva no Palácio do Planalto no fim da tarde desta quarta.

O ministro lembrou que os pacientes hospitalizados com coronavírus na rede pública de saúde estão tendo acesso ao medicamento, mas que a recomendação de uma ampliação do uso da cloroquina e hidroxicloroquina, normalmente usadas contra malária e lúpus, só virá com sólidas evidências científicas.

“Isso quem vai nos dizer são os médicos, a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a de Infectologia. E, até agora, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomendou que se use em ambiente hospitalar e, se der arritmia, que se suspenda”, explicou Mandetta.

“Na casa é proibido? Não. O médico pode conversar, é relacionamento médico e paciente. Agora, o Ministério da Saúde fazer o protocolo e recomendar o uso geral de cloroquina fora de leitos hospitalares, a gente cai em algo que Hipócrates falou: demonstre. Ou você se baseia na ciência ou fica no ‘eu acho'”, disse, antes de provocar mais especificamente os defensores da cloroquina:

“Surgiram médicos que falaram pra dar logo no primeiro dia, para matar o vírus e a pessoa não ser hospitalizada. Mas 85% dos casos de coronavírus não vão ter complicações, vão ter sintomas de gripe e ficar em casa. Vamos dar a essas pessoas um remédio que pode causar uma batida diferente no coração e levar pacientes para o CTI?”, questionou.

Preocupa a desinformação
O ministro disse ainda que sua impressão é que a cloroquina não é tão promissora quanto tem propagandeado o seu chefe. “Na minha experiência, tenho visto muitos casos, e a impressão que tenho em ciência é a pior. Os estudos de relatos de casos são os mais frágeis”, disse ele, citando experimento em Manaus (AM) em que o uso do remédio foi interrompido por causa dos efeitos cardíacos em pacientes.

“Nossa preocupação é a pessoa dizer: ‘Não preciso fazer nada, não preciso de distanciamento’. Comprei cloroquina e, se eu sentir algo, eu tomo isso aqui”, disse Mandetta, numa crítica indireta ao comportamento de Bolsonaro. “A gente viu que as pessoas acabaram com a cloroquina nas farmácias e deixaram os pacientes de lúpus sem”, lamentou ainda.

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