Da honraria às críticas. Entenda a briga de Carlos e general Mourão

Lula, Olavo de Carvalho, Bebianno, facada de Bolsonaro, crise na Venezuela, Jean Wyllys e até uma palestra nos EUA desencadearam o conflito

atualizado 28/04/2019 12:48

Kacio Pacheco

Os sete meses de uma relação com altos e baixos entre o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) e o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão (PRTB), atingiu o nível máximo de tensão nessa semana. As rusgas entre os dois deixaram os bastidores do Palácio do Planalto – onde habitavam de forma calada – e ganharam as redes sociais em uma série de mais de 10 posts.

A última publicação teve a ver com a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de reduzir a pena de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no processo do triplex do Guarujá, no litoral paulista. Questionado, Mourão afirmou: “Decisão do Judiciário a gente não comenta”. A fala foi alvo de críticas do filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Tirem suas conclusões…”, reclamou no Twitter.

Antes de Lula, houve outras situações de tensão entre os dois. Olavo de Carvalho, Gustavo Bebianno, a facada do presidente Jair Bolsonaro (PSL), a crise na Venezuela, o ex-deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ) e até uma palestra nos Estados Unidos colocaram Carlos e Mourão em lados antagônicos.

Apesar do entrevero, a relação, lá atrás, esteve menos tensionada. O vereador carioca chegou a assinar, em fevereiro, um requerimento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para que o general Mourão recebesse a Medalha Pedro Ernesto – principal homenagem que o Rio presta a quem mais se destaca na sociedade.

Passado o breve momento de trégua, o duelo voltou à tona.

O começo da crise
As primeiras críticas abertas, iniciadas nessa semana, ecoaram ataques anteriores do guru do vereador, o escritor Olavo de Carvalho. O segundo filho do presidente da República relembrou o atentado sofrido pelo pai na campanha presidencial, quando o então candidato foi esfaqueado, durante agenda em Minas Gerais.

Com o presidenciável hospitalizado, Mourão tentou tocar a campanha, inclusive participando de debates. A movimentação política do general desagradou Carlos posteriormente.


Na época, em entrevista à imprensa, Mourão falou: “Esse troço já deu o que tinha que dar. É uma exposição que eu julgo que já cumpriu sua tarefa. Ele [Bolsonaro] vai gravar vídeo do hospital, mas não naquela situação, não propaganda. Vamos acabar com a vitimização, chega”.

Antes disso, porém, a demissão do ex-ministro Gustavo Bebianno já havia colocado os dois em lados opostos. Envolvido em um suposto esquema de desvio de verba pública eleitoral, Bebianno afirmou que continuava despachando com o presidente normalmente após a denúncia. Carlos, no Twitter, desmentiu a informação. Depois, áudios revelaram conversas entre Bolsonaro e o ex-ministro.

 

Mourão foi crítico à postura de Carlos. “Roupa suja se lava em casa”, disse, ressaltando que “futriquinhas” eram ruins para o governo. O “chega para lá” do general não agradou. Carlos, então, reclamou nas redes sociais.

 

Essa foi a primeira crítica do vereador endereçada ao vice depois da postagem sobre a condecoração que ele havia assinado, a ser dada pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.

Olavo de Carvalho, palestra, Venezuela e Jean Wyllys
Em mais um entrevero, Carlos se incomodou após o vice-presidente rebater críticas do escritor Olavo de Carvalho aos militares. O general disse que Olavo deveria “se concentrar na função de astrólogo”. Seguidor assíduo do escritor, na sequência Carlos replicou um post da jornalista Raquel Sherazade, no qual ela critica Bolsonaro e elogia Mourão. O general curtiu a postagem. “Tirem suas conclusões”, alfinetou Carlos.

 

Pouco depois, Carlos trouxe à tona uma cópia do convite para que o general Mourão fizesse uma palestra no Instituto Wilson Center, nos Estados Unidos. O convite aponta o vice-presidente como uma “voz moderada” no governo. O texto ressalta as “sucessivas crises geradas pelo próprio círculo interno do presidente”. Isso bastou para Carlos voltar às redes sociais: “Se não visse, não acreditaria que aceitou com tais termos”.

 

A crise na Venezuela, que há quase dois meses não tem novos capítulos, também virou tema das postagens. O filho nº 2 de Bolsonaro não gostou do posicionamento do general, que defendeu o desarmamento no país para evitar uma guerra civil. No sentido contrário, o vereador escreveu: “Pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito tempo”.

 

O exílio do ex-deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ), que deixou o Brasil após sofrer ameaças de morte, também virou mote para a discórdia. Em janeiro, Mourão disse que Wyllys deveria ter ficado no Brasil: “Nosso governo não tem política para perseguir minorias, esse não é o jeito que nós nos comportamos. Poderíamos protegê-lo”, afirmou na época. Carlos disse que “estranha” o alinhamento de Mourão com políticos que detestam Bolsonaro.

 

Ação e reação
Mourão, desde o início dos conflitos, minimizou o caso. Ele nunca usou as redes sociais para tratar do tema e só comentou a briga quando foi questionado por jornalistas. Nessa semana, ele declarou: “Quando um não quer, dois não brigam”.

Carlos adotou um tom menos amistoso. “Lembro que não estou reclamando do vice só agora e tals…. São apenas informações! Não ataco ninguém, são apenas fatos que já aconteceram e gostaria de continuar compartilhando com os amigos”, publicou no Twitter, no início da última semana. 

Na quarta (24/04/2019), o jornal O Estado de S.Paulo publicou uma entrevista com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), irmão de Carlos, na qual o congressista endossa as críticas do irmão. Para ele, as declarações de Mourão têm causado “ruído” e Carlos está “apenas reagindo”.

Após uma semana de ataques, o porta-voz Otávio do Rêgo Barros disse que Bolsonaro quer colocar um ponto-final na “pretensa discussão” entre os dois. Em declaração à imprensa, Bolsonaro reforçou que o filho estará sempre ao seu lado. “É sangue do meu sangue“, afirmou o presidente, em mensagem lida pelo porta-voz.

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