Bolsonaro faz desagravo a Salles em São Paulo: “Excelente trabalho”

O presidente uniu as posições negacionistas de seus aliados em um único discurso, que buscou apresentar uma versão diferente para pandemia

atualizado 13/06/2021 11:54

Ricardo SallesReprodução

O presidente Jair Bolsonaro liderou ontem, em São Paulo, uma manifestação de motociclistas a favor de seu governo. A “motociata” levou ao fechamento da pista central da Marginal do Tietê, principal artéria da cidade, e da Rodovia dos Bandeirantes, entre a capital e Jundiaí, no interior, em um trecho de pouco mais de 50 quilômetros, até retornar e acabar na região do Parque do Ibirapuera.

Ao fim da manifestação, em um caminhão de som, o presidente fez um discurso de cunho eleitoral, por meio do qual reforçou suas posições contrárias aos procedimentos recomendados pelos cientistas para evitar a proliferação do novo coronavírus. O chefe do Executivo federal também aproveitou o ato para fazer um desagravo ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é alvo de investigações, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, por suspeita de atuar a favor de madeireiros na Amazônia e por obstruir uma apuração da Polícia Federal que culminou na maior apreensão de madeira ilegal da história do país.

Bolsonaro voltou a contestar o uso de máscaras, criticou ações para garantir distanciamento social e fez nova defesa do “tratamento precoce” contra a Covid-19, que inclui a administração de cloroquina – fármaco apontado pela comunidade científica como ineficaz para o combate à doença do novo coronavírus. O presidente esteve sem máscara durante todo o ato e, por este motivo, foi multado pelo governo de São Paulo.

Os deputados federais Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli (ambos PSL-SP), e os ministros da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, compareceram ao evento e também foram autuados.

Tarcísio discursou na manifestação, e foi aclamado pelo público como “governador”. Ele é tido como possível candidato do presidente ao Palácio dos Bandeirantes no ano que vem.

Os motociclistas que acompanharam o presidente, vindo especialmente de motoclubes da capital, do interior de São Paulo e dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, estavam em um número suficiente para circular o complexo do Anhembi, na zona norte, onde ocorreu a concentração, em uma fila de 5 quilômetros de extensão. Segundo a Polícia Militar, 12 mil motociclistas participaram do ato. Muitos deles portavam bandeiras do Brasil e não usavam máscaras. No Ibirapuera, havia ainda faixas contra o Supremo Tribunal Federal, a favor do “voto impresso auditável” e pedindo “intervenção militar”.

“Excelente trabalho”

Salles permaneceu no carro de som ao lado do presidente. “O Ministério do Meio Ambiente era aparelhado e (Salles) fez um excelente trabalho”, afirmou Bolsonaro. O ministro discursou por cerca de um minuto, e repetiu o slogan do presidente “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Ao agradecer os motociclistas pelo evento, Bolsonaro voltou a comentar um benefício já prometido para a categoria, de isenção de tarifas de pedágios em novas concessões rodoviárias executadas pelo governo.

O mandatário do país participou da “motociata” vestindo um colete do representante de uma associação de proprietários de motocicletas Harley Davidson, do Espírito Santo, recebido durante a visita ao estado anteontem. “Acho que ele ficou satisfeito”, disse Marcus Fly, que não viajou a São Paulo para acompanhar o evento.

Capacete

Durante o trajeto de moto, Bolsonaro utilizou um capacete do tipo coquinho, que não protege o maxilar nem possui viseira. O uso desse equipamento é proibido pela Resolução nº 453, de 2013, do Conselho Nacional de Trânsito, e é considerado uma infração grave, sujeita a multa.

A Polícia Militar registrou ao menos um acidente no comboio, no km 30 da Rodovia dos Bandeirantes. Imagens da Band News mostram o momento em que motociclistas caem. As vítimas não sofreram ferimentos graves.

O presidente uniu uma série de posições negacionistas de seus aliados em um único discurso, que buscou negar a versão de que o Brasil é um dos lugares com mais mortes por Covid-19 no mundo. Até agora, 482 mil pessoas já morreram por causa do coronavírus no país.

TCU

Essa junção de teses afirma que o número de mortes no Brasil é superestimado e, caso fosse correto, o País teria, proporcionalmente, menos mortes que outros países. Esse índice, supostamente inferior, seria resultado do tratamento precoce, com uso de cloroquina, defendido por ele e seus aliados. O discurso durou 28 minutos.

“O documento produzido pelo Tribunal de Contas União (TCU) que, apesar de não ser conclusivo, é bastante objetivo. O critério usado para governadores buscarem recursos era o número de óbitos por Covid. Houve sim, pelo que tudo indica, a supernotificação de casos de Covid”, afirmou. “Quem aqui nunca ouviu de pessoas que reclamaram que seu ente querido faleceu de outra doença, e que colocaram como Covid?”, questionou.

Citado pelo presidente, o documento do TCU sobre supernotificação foi questionado pelo órgão, que apura a conduta do servidor que produziu o texto.

Bolsonaro também voltou a criticar o uso de máscaras. “Eu propus ao ministro da Saúde que, levando-se em conta a ciência, estude a possibilidade de podermos ou não sugerir a não obrigatoriedade de máscaras para quem já contraiu o vírus ou já foi vacinado”, afirmou o chefe do Executivo federal. “O vacinado não tem como transmitir o vírus”, disse o presidente. Vale ressaltar que, na verdade, mesmo quem já tomou a segunda dose pode ser infectado e transmitir a doença, mas tem reduzidas as chances de precisar de internação e, consequentemente, morrer.

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