Alvim cai, mas deixa secretaria à sua imagem e semelhança

Demitido após parafrasear ministro nazista, secretário de Cultura escolheu conservadores alinhados à sua ideologia para cargos-chave

atualizado 17/01/2020 23:00

Clara Angeleas/Sec. Especial de Cultura

Parafrasear o ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, em um vídeo institucional foi demais: após reiteradas polêmicas do seu escolhido para a Secretaria Especial de Cultura, Roberto Alvim, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se viu obrigado a exonerá-lo do cargo frente à repercussão da infame apologia. Embora tenha caído, Alvim deixa para trás uma pasta aparelhada, alinhada à sua visão ideológica e escolhida a dedo.

Nos pouco mais de dois meses que se manteve à frente da secretaria, Alvim focou no propósito de levar a cabo seu projeto de criar “uma máquina de guerra cultural” com “artistas conservadores” – como havia proclamado antes de assumir. Para isso, além de pensar iniciativas como a do Prêmio Nacional das Artes, em que pretendia criar parâmetros do que é arte segundo seus próprios critérios, também recrutou nomes ligados a grupos pouco conhecidos de conservadores, seguidores do professor on-line de filosofia Olavo de Carvalho e youtubers.

Em suas escolhas para cargos-chave na secretaria, Alvim foi desde membros de movimentos de direita até conservadores que conheceu trocando mensagens pela internet. Nas seis principais secretarias da pasta que comandava, quase todos os nomes escolhidos inicialmente têm algum grau de envolvimento com a ideologia conservadora.

É o caso, por exemplo, de Camilo Calandreli, titular da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic) e fundador do Simpósio Nacional Conservador de Ribeirão Preto, que aspira fazer da cidade paulista a “Capital do Conservadorismo”, promovendo palestras e “unindo cidadãos comprometidos com a missão precípua de agir ativamente na difusão do conhecimento, das ideias conservadoras, trabalhando sistemicamente (sic) para a reconstrução dos valores éticos e morais que nortearam a formação da sociedade ocidental”.

Ele já posou ao lado do deputado federal e filho do presidente Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), é olavista, filiado ao PSL e tem alguns vídeos no YouTube em que trata, por exemplo, de estratégias petistas para “avaliação doutrinária no Ensino Brasileiro” e avalia a “falência do modelo parlamentarista”.

Camilo, aliás, levou consigo para a secretaria Gislaine Targa, que, além de ser sua chefe de gabinete, lidera as Mães pelo Escola sem Partido, grupo que propaga ideias bolsonaristas e advoga contra o estudo do que chamam de ideologia de gênero e contra a “doutrinação de crianças nas escolas”.

Na Secretaria de Audiovisual, a indicada inicialmente era Katiana Gouvêa, que fazia parte da Cúpula Conservadora das Américas. Ela caiu em dezembro, duas semanas após assumir, quando Alvim teria descoberto que suas contas de campanha para deputada federal haviam sido rejeitadas – ela contesta a informação. Internamente, Katiane também teria tido desentendimentos com outros membros da pasta, além de ser criticada por nunca ter trabalhado na área.

No lugar dela assumiu André Sturm, que foi secretário municipal de Cultura na gestão João Doria (PSDB), em São Paulo, e dirigiu o Museu da Imagem e do Som (MIS). Ao contrário dos colegas, ele foi aprovado pela classe artística, especialmente pela experiência que traz no currículo.

Jane Silva, titular da Secretaria de Diversidade Cultural (SDC), é pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular e preside uma organização chamada Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócio.

O secretário de Economia Criativa, Reynaldo Campanatti, disputou com apoio de Bolsonaro uma vaga de deputado federal em São Paulo pelo Patriota – com pouco mais de 14,5 mil votos, não foi eleito – e, em sua página no Facebook, tem uma série de postagens de apoio a Bolsonaro e ao ministro da Justiça e da Segurança Pública, o ex-juiz Sergio Moro.

Maurício Braga, titular da Secretaria de Direitos Autorais e Propriedade Intelectual (Sdapi), por sua vez, divide os posts em seu Twitter entre comentários sobre seu time, o Grêmio, e elogios à gestão de Bolsonaro.

Outros órgãos
O cenário é semelhante nas entidades vinculadas: na Fundação Palmares, por exemplo, ele escalou Sérgio Nascimento de Camargo, para quem não há racismo no Brasil e para quem a escravidão foi “benéfica para descendentes”. Na Fundação Nacional de Artes (Funarte), o escolhido foi o maestro Dante Mantovani, cujas teses envolvem  a relação entre rock, drogas, aborto e satanismo.

Uma das indicações, contudo, não deve se confirmar: Alvim queria o arquiteto Flávio de Paula Moura no Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan) – o nome causou polêmica porque ele, formado em 2011, teve suas credenciais contestadas pelo setor. Letícia Dornelles, da Fundação Casa de Rui Barbosa, também se define como conservadora.

Mesmo em coordenações, Alvim também selecionou amigos de redes sociais: é o caso, por exemplo, do médico Alessandro Loiola, que comanda a Coordenadoria-Geral de Empreendedorismo e Inovação. Eles se conheceram pela internet e, embora Loiola nunca tenha trabalhado com cultura anteriormente, foi convidado para integrar a pasta.

Nazismo: conceitos fazem parte do planejamento

Na sexta-feira (17/01/2020), o The Intercept Brasil divulgou um documento interno da secretaria especial em que um assessor do secretário adjunto da pasta, agora secretário interino, José Paulo Martins, trata dos “objetivos e ações desejados para 2020”.

No texto, os conceitos de “promover o renascimento do cenário cultural e artístico, fortalecidos por princípios e valores da nossa civilização, onde a Pátria, a Família, a determinação e, em especial, a nossa profunda ligação com Deus” – em discurso que mimetiza o polêmico vídeo que levou à queda do secretário.

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