Desarticulação na Câmara e povo nas ruas põem Previdência em xeque

Declarações do presidente, como a de os que protestaram pelo país não passam de “idiotas úteis”, agravam o quadro

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 16/05/2019 7:41

Milhões de pessoas nas ruas em protesto contra o bloqueio de verba na Educação e uma relação esgarçada com o Congresso Nacional. Este é o saldo de um dia para o governo Jair Bolsonaro (PSL) esquecer. Porém, o prejuízo pode ser maior. A julgar pelas manifestações vistas em 210 cidades do país nessa quarta-feira (15/05/2019) e o verdadeiro clima de “barata-voa” entre os governistas, a principal bandeira bolsonarista, a reforma da Previdência, pode estar em xeque.

Há um consenso em Brasília: políticos temem o povo nas ruas. A temperatura de manifestações como as que se viram nessa quarta é capaz de mudar o humor de muitos parlamentares. E isso em um momento em que projetos importantes e medidas provisórias do Planalto estão na fila de espera do Congresso.

Mas para navegar em águas calmas no Legislativo, o Executivo necessita de algo que o governo Bolsonaro definitivamente não tem: articulação política. E tamanha desarticulação impede que o governo consiga amealhar os votos necessários para garantir a aprovação da reforma da Previdência no Congresso. O que se vê, no Legislativo, são os dias passando e os trâmites em torno da proposta do governo se arrastando.

Um cenário pessimista para o governo Bolsonaro, que apostas todas as fichas na aprovação da chamada Nova Previdência – o que poderá ser o diferencial até o final do mandato de Bolsonaro.

Declarações do presidente, como a de que a maioria dos que foram às ruas pela educação não passa de “idiotas úteis”, e de integrantes da cozinha palaciana, como o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, ao afirmar que os líderes partidários que anunciaram a suspensão no corte das verbas para instituições de ensino querem luz da imprensa, agravam o quadro, e ameaçam não só a Previdência, como outros projetos do Executivo federal.

Se a relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso já vivia em turbulência constante, certamente esses últimos dias não serviram para desanuviar o ambiente. Outro consenso em Brasília: parlamentares não demoram a dar o troco.

Ao desmentir deputados aliados e acusá-los de buscar holofotes, o governo age esticando a corda na Câmara e pode perder o pouco de apoio que tem no Legislativo.

A troca de farpas e desmentidos, na opinião do líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), acabou por derrubar uma construção que, em sua opinião, havia sido exitosa no sentido de aproximar alguns parlamentares do governo.

Disposição em apoiar
A própria reunião com Jair Bolsonaro, na qual os deputados sugeriram o fim dos cortes na educação e disseram ter presenciado a ligação do presidente ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, era, de acordo com Vitor Hugo, um momento de êxito, haja vista que os deputados convidados demonstraram disposição em apoiar o governo.

“Apesar da convocação do ministro [Weintraub, para explicar na Câmara os cortes na Educação], tinha sido um dia muito feliz para a articulação do governo aqui na Câmara, em termos de aproximação dos partidos”, defendeu Vitor Hugo.

Era um momento de aproximação das legendas. Um gesto interessante dos partidos apoiando na tentativa de votar as MPs e depois a gente ir conversar com o presidente

Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara

No final, disseram que era boato, que não aconteceu. Só atrapalharam. Passei o dia apagando incêndio também”, reclamou, numa alusão à líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, que, nessa quarta-feira (15/05/2019), afirmou, no Twitter, que o contingenciamento na Educação será mantido e afirmações ao contrário não passam de boatos.

MPs podem caducar
O momento é delicado. O governo Bolsonaro enviou para o Congresso cinco medidas provisórias. E terá que se esforçar para que elas sejam votadas em tempo hábil, ou seja, antes que percam a validade.

Três medidas já trancam a pauta da Câmara e até o dia 3 de junho todas caducarão, caso não sejam aprovadas na Câmara e no Senado.

Foram vários os fatores que contaram para que a indisposição dos parlamentares em relação ao Executivo se formasse.

Um deles se refere ao comportamento do PSL, partido do presidente da República, que não conseguiu, na semana passada, impedir o desejo dos insatisfeitos de impor uma derrota ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, retirando da pasta do ex-juiz da Lava Jato o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Mesmo líderes mais governistas, que defendem a não interferência da Câmara e do Senado na organização do Executivo, prevista na Medida Provisória nº 870/2019, irritaram-se com o comportamento do governo e podem se alinhar à oposição para evitar que as votações ocorram.

Afinados contra Moro
Uma dessas lideranças disse ao Metrópoles, em reservado, considerar que a desarticulação política do governo está longe de acabar e que os partidos do Centrão estão afinados para derrotar Moro.

Para isso, há dois caminhos possíveis: deixar a medida caducar, estratégia da oposição, ou aprová-la da forma que saiu da comissão especial do Congresso, devolvendo o Coaf para a pasta da Economia.

Ou seja: às lideranças governistas, resta irem para casa lamber as feridas. E pensar friamente em como recolocar o governo nos trilhos, pelo menos no que diz respeito à relação com o Congresso.

As ruas, como as cartas, não mentem jamais: se há um momento ideal para um freio de arrumação no Palácio do Planalto, esse momento é agora.

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