Análise: instituições freiam maluquices, prova juiz dos radares
Como nos casos do pacote anticrime e da demarcação das terras, magistrado barrou tentativa do governo Bolsonaro de atropelar a legislação

Contra as maluquices das autoridades, existem instituições. Basta que funcionem. A volta dos radares móveis nas estradas, determinada pelo juiz Marcelo Gentil Monteiro, mostra como se freia até as inconsequências de um presidente da República.
Esse é um caso exemplar. Em agosto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) suspendeu o uso dos equipamentos nas rodovias. Como justificativa, o capitão apontou que a questão era “meramente arrecadatória”.
A interrupção valeria enquanto o Ministério da Infraestrutura reavaliasse as regras de fiscalização nas estradas. O juiz da 1ª Vara Federal da Justiça de Brasília entendeu que a medida é “capaz de acarretar o aumento do número de acidentes e de mortes”.
Ao derrubar a medida de Bolsonaro, Monteiro demonstrou como a Justiça pode agir diante de atitudes insensatas de um chefe de Executivo. No caso, foi um presidente, mas poderia ser um governador ou prefeito.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOutras instituições podem cumprir o mesmo papel. O Congresso, por exemplo, retirou do pacote anticrime do governo a excludente de ilicitude, norma que daria às forças de segurança algo parecido com uma licença para matar.
O Supremo Tribunal Federal (STF) tomou atitude semelhante ao barrar a mudança da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. Por força dessa decisão, a prerrogativa continua com a Fundação Nacional do Índio (Funai).
Relator do caso, o ministro Celso de Mello disse que a medida representava “uma inadmissível e perigosa transgressão ao princípio fundamental da separação de poderes”. O magistrado se referiu, sobretudo, ao fato de Bolsonaro ter reeditado no mesmo ano uma medida provisória de igual teor.
De acordo com a Constituição, é assim mesmo. Diante de presidentes transgressores, Judiciário e Legislativo dispõem de instrumentos para livrar o país de tentações absolutistas. Basta que funcionem.



