Análise: experiente em interrogatórios, Moro controlou o depoimento

Sem surpresas de última hora, ministro deu o tom da reunião com senadores e denunciou atuação de quadrilha de hackers sem apresentar provas

Foto: Rafaela Felicciano/MetrópolesFoto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 20/06/2019 11:20

Como juiz, Sergio Moro acostumou-se a inquirir réus com perguntas previamente preparadas para esclarecer dúvidas dos processos. Nessa quarta-feira (19/06/2019), ele se viu em situação oposta, na condição de interrogado pelos integrantes da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Moro compareceu ao Congresso para dar explicações sobre seus diálogos com integrantes da Lava Jato publicados pelo site The Intercept. As conversas divulgadas pelo veículo on-line nas duas últimas semanas levaram à suspeita de parcialidade do juiz enquanto esteve na condução do caso.

Em nove horas de depoimento, o ministro usou a experiência em interrogatórios para controlar o ímpeto dos senadores. Com respostas prontas para todas as questões, manteve a calma ao longo da reunião.

Pairava certa frustração entre os oposicionistas. Apesar do impacto das primeiras publicações do The Intercept, a expectativa de novas revelações bombásticas não se confirmou. Sem material para surpreender o ex-juiz, os congressistas chegaram desguarnecidos à CCJ.

Diante de senadores com perguntas óbvias, Moro exibiu destreza com as palavras para refutar as acusações de conluio com o Ministério Público na condenação de investigados da Lava Jato. Algumas vezes com frases diretas, outras com evasivas, ele circunscreveu o conteúdo das conversas ao padrão de comportamento do mundo jurídico. Contou para isso com o apoio organizado da bancada governista.

No entanto, o ministro não se comprometeu com a íntegra dos diálogos. Comportou-se, nesse caso, como um investigado bem orientado pelos advogados de defesa. Seguro na escolha das palavras, assumiu o conteúdo das conversas até o ponto em que os trechos publicados não puseram em dúvida sua conduta como juiz.

Assim, tratou como “sensacionalismo” as interpretações que apontaram desvio na sua atuação como magistrado da Lava Jato. Repetiu algumas vezes, ainda, que é vítima de uma quadrilha de hackers, embora não tenha apresentado provas de sua afirmação.

Ao atribuir a cibercriminosos o vazamento dos arquivos do aplicativo Telegram, Moro se antecipa à Polícia Federal – a ele subordinada – na divulgação dos resultados das investigações sobre o caso. Antes de concluídas as apurações, em tese, não há elementos para se apontar os responsáveis pela captação das mensagens publicadas.

Por enquanto, a “quadrilha” citada por Moro tem as características de um inimigo imaginário: nunca foi vista, não se sabe o perfil nem de onde vêm os supostos integrantes. Na prática, por ora, nem se pode dizer que exista. Serve, porém, para sustentar a linha de raciocínio seguida pelo ministro e por senadores governistas durante o depoimento.

Nota-se na estratégia, também, certa intenção de associar o The Intercept ao vazamento. Em última instância, essa postura deixa a porta aberta para criminalizar a atuação do site. Esse foi o tom da reunião na CCJ.

O desenrolar das investigações, espera-se, vai apontar os autores do vazamento. Ao mesmo tempo, os brasileiros saberão se o site jornalístico confirma a expectativa de divulgar novas informações comprometedoras para as autoridades envolvidas na Lava Jato.

Nesse contexto, somente depois da conclusão do trabalho da PF e da publicação completa do arquivo do site jornalístico será possível ter mais clareza sobre a gravidade dos fatos tratados no Senado. Até lá, Moro exercita a experiência.

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