Jovem relata vida após ataque de tubarão: “Virou de cabeça para baixo”
Casos recentes reacendem debate sobre vítimas e sequelas. Três anos após ataque, paratleta ainda espera prótese
atualizado
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O Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial de ataques não provocados de tubarão. Uma região, contudo, concentra a maioria dos casos: o litoral de Pernambuco. Foi lá que os últimos dois incidentes aconteceram. Também foi no mesmo trecho que, três anos antes, Kaylanne Timóteo Freitas passou pela experiência.
Aos 15 anos, a jovem perdeu o braço esquerdo após ser atacada por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Hoje, aos 19, ainda convive com dores, limitações físicas e as marcas emocionais deixadas pelo episódio.
Ela lembra com detalhes o dia 6 de março de 2023. “Foi o dia em que a minha vida virou de cabeça para baixo”, resume.
Kaylanne foi um dos 84 casos registrados pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) desde 1991, ano em que os casos passaram a ser monitorados sistematicamente. Ela também é uma das 57 vítimas que sobreviveram a um ataque desse tipo no estado.
Os impactos dos ataques, entretanto, vão além das estatísticas. Para quem sobrevive, as consequências físicas, emocionais e sociais podem durar uma vida inteira.
“Eu só pedia a Deus que não me deixasse morrer”
Na época com 15 anos, a adolescente aproveitava o feriado da Data Magna de Pernambuco com os amigos quando foi surpreendida pelo animal. De acordo com ela, a área não tinha sinalização de risco nem guarda-vidas.
“Estava com uma amiga antes dos arrecifes e com a água na cintura”, afirma. “Me lembro de tudo, desde o primeiro contato com o tubarão, até quando acordei na sala de pós-operatório. Lembro do desespero, do pensamento de morte, de achar que não era real, que eu estava sonhando, na preocupação com minha avó em casa.”
Além de ferimentos pelo corpo, a jovem teve parte do braço esquerdo amputado. “Assim que saí da água, quando levantei, já me vi sem o braço. Meu osso para fora e o sangue jorrando. A partir daí, eu só pedia a Deus que não me deixasse morrer.”
Ela ficou internada por uma semana no Hospital da Restauração, no Recife. À época, a unidade informou que continuaria acompanhando a adolescente por meio de uma equipe multiprofissional. Ao Metrópoles, Kaylanne conta que esse suporte durou apenas três meses e se restringiu ao período pós-operatório.
Três anos depois, ela afirma ainda aguardar uma prótese funcional prometida pelo governo de Pernambuco no dia do ataque.
“Hoje em dia, depois de três anos de espera, consigo me virar, mas é essencial. Me ajudaria em absolutamente tudo, a tecnologia é de ponta. Seria como ter ao menos 60% da minha vida antes da amputação”, ressalta.
Neste ano, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) julgou improcedente o pedido de indenização apresentado por Kaylanne, em que a jovem pedia reparação por danos morais, estéticos e materiais do estado de Pernambuco e da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes por omissão na prevenção de incidentes.
Na sentença, assinada em janeiro deste ano pela juíza Juliana Rodrigues Barbosa, a magistrada entendeu que o risco de incidentes com tubarões no litoral do Grande Recife é amplamente conhecido pela população e que o fato de não haver uma placa exatamente no ponto em que a adolescente entrou no mar não descaracteriza o dever de informação do poder público.
A ação pedia o pagamento de pensão provisória e o fornecimento de uma prótese funcional, que, segundo a jovem, pode custar até R$ 1 milhão. A defesa recorreu da decisão e pretende levar o caso às instâncias superiores caso o entendimento seja mantido.
O Metrópoles entrou em contato com o Governo do Pernambuco, por meio da Secretaria de Saúde, sobre o processo relacionado ao fornecimento da prótese para Kaylanne, mas até a publicação desta reportagem não obteve respostas. O espaço segue aberto para manifestações.
O que explica os ataques em Pernambuco?
Pesquisadores apontam uma combinação de fatores para explicar a concentração dos incidentes no litoral pernambucano:
- Impactos do Porto de Suape: alterações ambientais e criação de canais que facilitaram a circulação de tubarões próximos à costa.
- Características do litoral: canais profundos próximos à praia e áreas além dos arrecifes favorecem encontros entre tubarões e banhistas.
- Urbanização da costa: aumento do número de pessoas frequentando o mar em áreas de risco.
- Presença de espécies de maior risco: principalmente tubarão-tigre e tubarão-cabeça-chata.
- Condições ambientais: maré alta em fases de lua Nova e Cheia, água turva e proximidade de rios podem aumentar o risco de incidentes.
- Mudanças ambientais e climáticas: degradação de habitats e alterações na disponibilidade de alimento podem aproximar os animais da costa.
- Comportamento dos banhistas: entrar no mar em áreas sinalizadas, além dos arrecifes ou durante condições desfavoráveis aumenta a exposição ao risco.
Adoecimento mental
Kaylanne classifica o período de recuperação como “muito difícil”. Além das limitações práticas da internação — como dificuldade para urinar sem sonda, medo de os pontos abrirem e risco de infecção —, ela ainda tinha dificuldades para dormir porque sonhava com o ataque.
“Pensei que dependeria de alguém por toda a vida e me frustrei muito nas vezes que tentei fazer algo da forma que fazia antes e não consegui. Desenvolvi crises de ansiedade e pânico, sofri muito com isso, eram inexplicáveis, sentia o meu corpo desfalecer, minhas mãos entronchar. Eu sentia muita culpa. Os pensamentos vinham a todo instante. Uma atitude diferente e tudo estaria normal. Isso me maltratou.“
A psicóloga e professora Amanda Patrícia Sales, autora da dissertação Transtornos Mentais em Vítimas de Ataque de Tubarão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que o sistema de saúde brasileiro ainda não está preparado para atender adequadamente as demandas psicológicas de sobreviventes desse tipo de ataque, que precisam ser acompanhados a longo prazo devido à necessidade de adaptação psico-emocional à nova realidade.
Entre os principais problemas identificados no estudo, ainda em 2012, estava a falta de acompanhamento especializado após a alta hospitalar. “Aqueles que tinham condição financeira de pagar um psicólogo particular o fizeram. Aqueles que não tinham – pelo menos esse foi o resultado da minha pesquisa – ficaram sem essa assistência que é essencial”, afirma.
Os principais transtornos mentais desenvolvidos pelas vítimas são: transtorno de estresse agudo, transtorno de estresse pós-traumático, depressão e transtorno de pânico.
No caso de Kaylanne, a psicóloga que a acompanhou por cerca de dois anos após o incidente não tinha vínculo com o hospital. A profissional entrou em contato através das redes sociais, comovida com o caso, e passou a atendê-la gratuitamente. “Ela disse que via um brilho em mim e não queria deixar apagar”, lembra a jovem.
Julgamento público e a culpa
Além das sequelas físicas e emocionais, Kaylanne ainda teve de lidar com o julgamento público. Nas redes sociais, os comentários que recebeu após o ataque foram, segundo ela, piores do que o próprio incidente.
“Desejos de morte, acusações de que eu havia entrado no mar de propósito para ganhar doações e xingamentos”, relembra.
Para Amanda Patrícia Sales, esse tipo de reação reforça um sentimento que já costuma estar presente entre sobreviventes: a culpa.
“A sociedade muitas vezes assume uma postura punitiva. As pessoas dizem: ‘Tinha placa, entrou porque quis’. Mas estamos falando de seres humanos que passaram por uma experiência extremamente traumática e precisam de acolhimento, não de julgamento.”
Segundo a pesquisadora, vítimas e familiares já convivem com questionamentos e sentimentos de responsabilização suficientes para o resto da vida. “É momento de acolher essa dor, esse sofrimento, essa perda. Eles estão imersos em um sofrimento enorme por causa desse evento.”
Kaylanne afirma que ainda convive com esse sentimento.
“A culpa existe em todos nós, vítimas de incidentes com tubarão. Não precisamos que ninguém a relembre. São muitas camadas: o ataque, o pensamento de morte, a recuperação, a aceitação, a culpa, a frustração e o medo. E não sofremos sozinhos. As famílias sofrem junto. Às vezes, só precisamos que as pessoas sejam mais empáticas.”
Hoje, ela encontrou no esporte uma forma de reconstruir a própria trajetória. Paratleta, é vice-campeã brasileira sub-20 no arremesso de peso e pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no próximo ano.
Três anos depois do ataque, Kaylanne discorda das pessoas que, nos corredores do hospital, disseram que sua vida tinha acabado.
“Minha vida realmente ‘acabou’… de começar. Desde aquele dia, vivo coisas extraordinárias, com pessoas incríveis ao meu lado. Eu perdi o medo, a insegurança como pessoa, e ganhei a coragem de me defender quando necessário, maturidade para lidar com a situação, confortar e apoiar pessoas que tivessem passando por coisas semelhantes.”
84 casos
João Lucas Nemézio Sales, de 11 anos, e Marcela Vitória de Lima Santos, de 19, foram as vítimas mais recentes, correspondentes aos 83º e 84º registros da série histórica.
Em 31 de maio, João Lucas foi atacado por um tubarão-cabeça-chata na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Ele sofreu ferimentos graves na coxa e na mão esquerda e precisou amputar a perna esquerda.
Menos de 24 horas depois, Marcela Vitória foi mordida por um tubarão-tigre na Praia de Boa Viagem, na zona sul do Recife. Ela sofreu lesões severas na perna direita e também teve o membro amputado.

















