Infiltração do crime organizado na Alerj não é ficção, diz Moraes
Ministro também defendeu que STF altere regra que permite que assembleias estaduais libertem parlamentares presos
atualizado
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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta quinta-feira (9/4) que há indícios de infiltração do crime organizado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Durante o julgamento que discute a sucessão de Cláudio Castro (PL) no comando do estado, Moraes afirmou que o envolvimento de grupos criminosos com políticos da Alerj “não é ficção, não é invenção, não é algo romanceado”.
O ministro classificou a situação no estado como “tão anômala” que, no ano passado, após o então presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União), ser detido pela Polícia Federal por suposto envolvimento com o Comando Vermelho, a própria Alerj decidiu soltá-lo.
O ministro também mencionou o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL). Segundo ele, no julgamento dos mandantes na Primeira Turma do STF, “ficou comprovado a ligação política das milícias de Rio das Pedras com membros da Alerj”.
“Temos que lembrar que, agora, há poucas semanas, a Primeira Turma julgou o caso importantíssimo do homicídio da ex-vereadora Marielle, onde foram condenados um deputado federal do Rio de Janeiro, que havia sido estadual, e um conselheiro do Tribunal de Contas”, disse.
“Temos que lembrar, na semana passada, o retorno da prisão do ex-presidente da Alerj, que havia sido preso por envolvimento com outro deputado estadual, TH Joias, por ligação com o Comando Vermelho”, acrescentou Moraes.
Revisão das regras de prisão de parlamentares
Em sua fala, Moraes defendeu que o STF reveja a possibilidade de as Assembleias Legislativas decidirem sobre a manutenção ou revogação de prisões de seus membros.
“Diferentemente do Congresso, nenhuma assembleia mantém a prisão, todas soltam imediatamente”, afirmou.
O ministro voltou a citar o caso de Bacellar, que, mesmo solto por decisão da Alerj, teria evitado renunciar ao comando da Casa para “manter o comando político”.
Gilmar menciona envolvimento do jogo do bicho
Na sessão desta quinta, o ministro Gilmar Mendes também fez menção ao envolvimento do crime com a Alerj. Ele afirmou ter sido informado de que cerca de 30 deputados estaduais receberiam “mesadas do jogo do bicho”.
Segundo Mendes, as informações foram apresentadas pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em uma conversa recente.
“Eu conversava com o diretor-geral da Polícia Federal, que mencionava que 32 ou 34 parlamentares da Assembleia receberiam mesadas do jogo do bicho. Deus tenha piedade do Rio de Janeiro”, disse o decano do STF.
Luiz Fux reage
As declarações de Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes provocaram reação do ministro Luiz Fux, carioca e defensor de eleições indiretas. Fux criticou o que classificou como manifestações de “profundo descrédito em relação ao Rio de Janeiro”.
“Há bons políticos no estado”, afirmou, destacando que a bancada fluminense na Câmara é formada por “excelentes políticos”.
O ministro ressaltou que os comentários de colegas não consideram o histórico de casos julgados pelo STF envolvendo políticos de diferentes estados, como a Lava Jato e o caso Master.
“Essa perplexidade não seria tão grande se o colega tivesse participado do julgamento do Mensalão, do julgamento da Lava Jato, desse julgamento agora do INSS e do Banco Master, porque os escândalos não são concentrados no estado do Rio de Janeiro”, disse.
“De sorte que, se esses políticos tiverem que ir para o inferno, eles vão acompanhados de altas autoridades”, acrescentou Fux.
