Indefinição política de Bolsonaro divide base fiel e atrasa planos de campanha

Enquanto o presidente segue sem partido, alguns aliados esperam com ele e outros entram em siglas como o PTB, mas há resistência

atualizado 21/07/2021 8:17

presidente Jair Bolsonaro, ao lado de Carla Zambelli, falam com apoiadores na saída do palácio da AlvoradaRafaela Felicciano/Metrópoles

Uma campanha eleitoral competitiva costuma levar tempo e dinheiro para ser planejada, mas a indefinição do presidente Jair Bolsonaro em entrar para um partido tem deixado parte de seus apoiadores no escuro, enquanto adversários já costuram alianças visando à eleição de outubro do ano que vem. A ausência de sinalização de seu líder político tem agravado fissuras na base mais fiel do bolsonarismo, resultando em algumas brigas públicas na militância governista.

A recusa de Bolsonaro, desfiliado desde novembro de 2019 do PSL, em articular sua base partidária prejudica planos também nos estados, na opinião do cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). “O Lula, que se coloca como principal adversário do Bolsonaro neste momento, já está negociando bastante com partidos e arrumando alianças nos estados, aparando arestas com antigos aliados. Os aliados de Bolsonaro, por outro lado, ainda estão num compasso de espera ou tentando articular compromissos que não têm garantia de que poderão ser cumpridos”, avalia ele em conversa com o Metrópoles.

Como precisa estar em um partido pelo menos seis meses antes da eleição, Bolsonaro vê sua janela se encurtar e pode ser obrigado a aceitar mais exigências do que gostaria para encontrar uma legenda. A ida para o Patriota, sua primeira opção, já foi considerada descartada até pelo presidente afastado da sigla e articulador da filiação, Adilson Barroso.

A criação do Aliança pelo Brasil, que era a esperança de muitos aliados, inclusive dos insatisfeitos no PSL, de ter um ninho partidário bolsonarista puro, também não avançou e não é considerada viável pela equipe do presidente para a próxima eleição.

Não faltam partidos dispostos a acolher o presidente da República, com dezenas de políticos com grande potencial de voto, mas o que Bolsonaro não encontra é uma sigla sobre a qual possa exercer total controle, como deseja.

Os caminhos

Enquanto isso, militantes bolsonaristas começam a buscar caminhos por si mesmos. Um partido que está ativamente procurando apoiadores do presidente da República é o PTB, de Roberto Jefferson, que “esqueceu” o trabalhismo do nome do partido, mudou estatuto e cores (saíram preto, branco e vermelho, entraram verde e amarelo) e está expulsando parlamentares que votam contra a agenda conservadora.

Jefferson já conseguiu atrair para as fileiras de seu partido figuras ligadas ao bolsonarismo mais raiz, como o deputado federal Daniel Silveira (RJ), que está preso acusado de ter ameaçado ministros do Supremo; o jornalista Oswaldo Eustáquio, que também esteve preso por causa de sua militância; e o militante Emerson Rui Barros dos Santos, ou Emerson Mitoshow, que foi integrante do grupo extremista 300 do Brasil… e também esteve preso.

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O caminho do PTB, porém, assusta parte do bolsonarismo raiz. Um dos maiores líderes intelectuais da direita radical, o escritor Olavo de Carvalho já bateu boca (pela internet) em diversas ocasiões com Roberto Jefferson e faz vídeos desde meados do ano passado acusando o político de estar “enganando bolsonaristas”.

Bolsonaristas mais fiéis ao pensamento de Olavo, incluindo alguns com cargos no Palácio do Planalto, dão ouvidos ao guru e não poupam esforços para atacar o PTB. O principal porta-voz dessa corrente é o influenciador digital Kim Paim, que tem 300 mil seguidores no Twitter e 457 mil inscritos em seu canal no YouTube.

No último dia 14 de julho, Jefferson usou suas redes sociais para atacar o projeto governista da Reforma Tributária. “Bolsonaro perde muitos apoiadores entre pequenos e médios empresários”, escreveu o presidente do PTB. Paim respondeu que a crítica tinha o objetivo de “desgastar Bolsonaro”, pois, “quanto mais fraco, menor poder de barganha ele terá, aumentando as chances de ir para o PTB”.

O influenciador que resiste a Jefferson vive na Austrália e é xingado pelo presidente do PTB de termos como “Canguru gay”. Quem acompanha o desafeto nas críticas é chamado por Jefferson de “direita canguru”.

Veja uma discussão que exemplifica o clima de guerra entre os dois:

Essa rixa não se resume a brigas nas redes, tem consequências políticas, como o racha entre o deputado estadual por São Paulo Douglas Garcia (PTB) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), simpático ao grupo mais fiel a Olavo de Carvalho.

Direita sem partido

Há um grupo entre os bolsonaristas radicais que tem resistido aos encantos do PTB e ainda não definiu um caminho. Os irmãos Abraham e Arthur Weintraub têm ambições eleitorais, mas não têm partido, assim como o ex-chanceler Ernesto Araújo, que deve se mudar para os Estados Unidos com a esposa, mas não descarta se candidatar nas próximas eleições.

“O que nos une é maior do que o que nos separa”

Livre das restrições que haviam sido impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, como tornozeleira eletrônica e proibição de se comunicar pelas redes sociais ou dar entrevistas, o jornalista Oswaldo Eustáquio aceitou o convite de Jefferson para se filiar ao PTB, e diz que concorda com outros bolsonaristas nas desconfianças à aliança do governo com o Centrão, mas não vê a nova casa como integrante desse grupo de partidos.

“O PTB está muito alinhado a Bolsonaro, inclusive abrindo mão de parlamentares que não votam segundo as orientações. Trocou de cores, reescreveu o estatuto. Hoje, o PTB não é Centrão, é um partido de direita”, argumenta ele em entrevista ao Metrópoles.

“A casa está sendo arrumada, e é um dos motivos de eu ter me filiado, para o caso de o presidente Bolsonaro decidir ir para lá. Se ele for, não haverá nenhuma resistência, como a que ocorreu no Patriota”, avalia ele, que diz compreender o posicionamento de bolsonaristas que ainda desconfiam do partido.

“Sei que conservadores não negociam valores. Mas não acho que seja o caso, pois o PTB abraçou nossos valores. De qualquer maneira, acredito que esses ruídos não terão maiores consequências, porque o que nos une é muito maior do que o que nos separa”, completa ele.

Eustáquio admite, entretanto, que a indefinição partidária de Bolsonaro é uma preocupação. “Estamos chegando muito perto do fim do prazo, o melhor seria já ter uma definição. Mas sei que, se ele não vier para o PTB, o PTB estará com ele na coligação”, conclui.

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