
Farra do INSS: Golden Boys tramaram esconder dinheiro após operação da PF
Empresários investigados pela operação Sem Desconto articularam formas de esconder patrimônio e manter negócios ilícitos

Mesmo após se tornarem alvos da Polícia Federal (PF) no maior escândalo de fraudes da história da Previdência Social, empresários investigados na chamada “Farra do INSS” – escândalo revelado pelo Metrópoles em 2024 – continuaram a articular formas de esconder patrimônio e manter negócios ilícitos.
Vídeos de câmeras de segurança mostram jovens ricaçoss conhecidos como Golden Boys no planejamento de estratégias financeiras exatos 30 dias após serem surpreendidos por mandados de busca e apreensão na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF).
O equipamento de monitoramento registrou áudio e vídeo de conversas mantidas na cozinha e na sala de estar de um imóvel de luxo em Alphaville, bairro nobre de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. O material foi divulgado nesta segunda-feira (21/9) pelo Estadão.

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Ver todasAo longo de cerca de 30 minutos de filmagens contínuas captadas em 22 de maio de 2025, os empresários citam nominalmente as entidades que controlavam e abordam detalhes do esquema bilionário que os colocou sob a mira das autoridades.
Trechos de diálogos
- Nas conversas gravadas, Golden Boys tratam as associações como se fossem empresas privadas e negócios próprios.
- Anderson Cordeiro Vasconcelos relata o desejo de cortar laços com o esquema, afirmando que diria aos demais: “Gente, eu agradeço por tudo, mas, a partir de hoje, eu não quero mais ter nenhum tipo de vínculo com a associação. Obrigado, podem continuar recebendo. A minha parte, podem dividir. Não quero mais”.
- Anderson menciona ter sido questionado por Felipe Macedo Gomes, outro sócio investigado pela PF, se venderia a sua parte. Ele afirmou ter recusado a proposta devido ao desgaste psicológico da investigação: “Porque isso que a gente tá vivendo agora não tem dinheiro que pague. Eu preferia estar no meu apartamento na Itaici […], mas sabendo que ninguém ia entrar na minha casa, que ninguém ia levar meu carro”.
- Igor Delecrode queixa-se de que os valores nas suas contas bancárias estão sendo afetados por bloqueios judiciais, ao que Felipe o questiona sobre o motivo de não retirar o dinheiro.
- Delecrode explica que o dinheiro travado está em aplicações financeiras, mas revela que pediu o resgate e pretende migrar os recursos: “Ter tem, seis meses, já pedi a baixa. Vou pôr tudo em dólar digital, tudo, tudo”, referindo-se a criptomoedas para dificultar o rastreamento pelas autoridades.
- Anderson afirma ainda que pretende proteger um imóvel de alto valor adquirido com outros sócios investigados: “Um apartamento que eu não quero perder é aquilo. Isso vai valer uma fortuna”.
A mansão em Alphaville pertence a Anderson Cordeiro Vasconcelos, de 38 anos, apontado como um dos operadores do esquema pela Operação Sem Desconto. A investigação apura a atuação de associações de fachada que teriam desviado a quantia assustadora de R$ 6,2 bilhões diretamente da folha de pagamento de milhões de aposentados e pensionistas em todo o país.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAnderson faz parte de um grupo batizado pelos investigadores como Golden Boys — empresários entre 30 e 40 anos de idade que, apesar da distância em relação à aposentadoria, assumiram o controle de quatro grandes entidades envolvidas em descontos indevidos do INSS.
Veículos de luxo
Essas associações lucraram mais de R$ 700 milhões por meio de mensalidades e descontos indevidos aplicados sobre os benefícios do INSS. A ostentação do grupo chamou a atenção da PF, que apreendeu 29 veículos de luxo avaliados em R$ 28 milhões pertencentes apenas aos quatro empresários do núcleo principal.
Além da apropriação indevida dos proventos dos aposentados, o quarteto é investigado sob a suspeita de pagar propina a dirigentes e servidores do instituto para manter as operações ilegais ativas.
No encontro gravado, Anderson e o companheiro receberam a visita de Igor Dias Delecrode, de 28 anos, outro integrante dos Golden Boys, acompanhado da namorada. Nas conversas, os alvos tratam as entidades associativas como empresas privadas altamente rentáveis e discutem os rumos de suas participações na rede fraudulenta.
Golden Boys
Alvos da operação Sem Desconto, no dia 27 de maio, os jovens ricaços responsáveis por entidades envolvidas em descontos indevidos do INSS são conhecidos como Golden Boys.
Igor Dias Delecrode, de 28 anos, Felipe Macedo Gomes, de 35 , Anderson Cordeiro, de 38, e Américo Monte, de 45, comandavam as entidades Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev, ANDAPP e AASAP. Juntas, as quatro associações faturaram R$ 700 milhões com descontos de mensalidade de aposentados.
Em reportagem, o Metrópoles revelou que eles são donos de uma fintech, uma construtora e de uma empresa de crédito consignado e ostentam casas e carros de luxo em Alphaville, região nobre de Barueri, na Grande São Paulo.
Documentos internos dessas entidades e relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostram que o grupo desviava para suas próprias empresas o dinheiro arrecadado por essas associações e revelam como elas criaram sistema próprio de biometria para fraudar assinaturas dos aposentados que filiavam.
Os Golden Boys também foram alvo da PF em outubro do ano passado. Na ocasião, as autoridades apreenderam frota de veículos de luxo, cofres, armas, munições e quantias em dinheiro vivo.



