Delegados: sem proteção e autonomia, PF fica à mercê do governo

Associação de delegados federais culpa a falta de legislação que garanta autonomia como responsável por crise na PF e no ministério

atualizado 24/04/2020 12:07

Com a queda do diretor-geral da Polícia Federal, um ar de instabilidade e insegurança paira pelos corredores da instituição, que fica desnorteada com os novos rumos a serem tomados. A crise é agravada ainda com a demissão do ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, de confiabilidade da categoria. 

Segundo o presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), Advandir Paiva, a crise na PF é consequência da falta de legislação que dê autonomia à entidade para escolher seus mandatários sem interferência política. Para ele, a polícia sempre sofreu nas mãos dos políticos, diferentemente de outros países.

“Isso significa que a PF está desprotegida, não tem autonomia. Isso também ocorreu governos interiores e vai ocorrer nos próximos, enquanto não tiver uma lei de proteção da PF.  Em outros países, a gente tem o FBI, policias protegidas com mandatos pra a direção-geral e aqui não. O próximo diretor pode cair na próxima crise, que ninguém sabe onde vai ocorrer”, disse.

Os delegados analisam que a crise com a polícia federal foi instalada desde o ano passado, quando Bolsonaro disse mandar na instituição com suas “canetadas”. Somado a queda do ministro da Segurança, cria-se uma paralisação na gestão, prejudicando os trabalhos em andamento. “A impossibilidade de alinhamento gera consequências pra PF, a gestão fica paralisada”, contou ao Metrópoles.

Sobre a queda do ministro Sergio Moro, Paiva opina que o ex-juiz foi convidado sob uma autonomia relativa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Além disso, para ele a queda indica um “medo” na reputação da PF. “Vai gerar [a demissão] todo tipo de narrativa, que representa pra PF um medo de que seja interpretada agora como a polícia que tá cedendo”, confessou.

A respeito das consequências à população, Paiva disse que há um desentendimento pelos motivos da troca de Valeixo e que deve-se aproveitar a o momento para reforçar a necessidade de autonomia da PF.

“Para a população é uma interpretação de que a PF está vendo mudanças complicadas, porque o governo não disse a causa da troca. O que eu gostaria é que a sociedade visse que isso é uma consequência da falta de previsão de mandato da PF e de autonomia. Queremos uma polícia independente, mas isso tem que estar previsto na legislação”, reforçou.

Nos corredores da PF e do Planalto, há a especulação de alguns nomes que poderão assumir a cadeira de Valeixo. Assim como o ex-diretor-geral, todos são delegados e, segundo Paiva, têm condições de assumir o cargo. “A gente espera que o novo diretor tome posse entendendo a necessidade de autonomias. Eventualmente, se ocorrer qualquer tipo de alteração e nós soubermos, nós vamos denunciar”, finalizou.

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