Com crise interna e queda de Trump, naufragam as ambições “antiglobalistas” do Brasil

País adota postura discreta na diplomacia, abandonando uma das principais bandeiras da campanha bolsonarista em 2018

atualizado 27/07/2021 5:43

ernesto araujo na cpi da covid em pbRafaela Felicciano/Metrópoles

No início de julho, a troca de chefias em uma fundação responsável pela documentação e divulgação de ideias do Itamaraty consolidou uma transformação na política externa do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Promessa de campanha e farol da atuação do ex-chanceler Ernesto Araújo, o combate ao fantasma do globalismo, que seria uma conspiração mundial para impor pautas anticristãs, saiu da pauta. A diplomacia brasileira agora adota uma postura mais discreta e de reconstrução de pontes, após a tensão intensa no período em que o país tentou estimular alianças entre governos conservadores de direita.

Com o acirramento de uma crise interna causada pela pandemia, a CPI no Senado que investiga ações e omissões do governo federal no combate à doença e o derretimento do apoio popular Bolsonaro, porém, não há mais espaço para uma política externa que cause ainda mais problemas. Essa conclusão resultou na queda de Araújo, no fim de março deste ano, e em sua substituição pelo comedido Carlos França, que não faz política pelas redes sociais nem frequenta lives de militantes bolsonaristas – marcas do antecessor no Itamaraty.

O processo de expurgo das ideias antiglobalistas do escritor Olavo de Carvalho, guru de Araújo e da maioria dos bolsonaristas mais radicais, continuou com a demissão do ministro Roberto Goidanich da presidência da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), substituído pela embaixadora Márcia Loureiro, que foi cônsul-geral do Brasil em Los Angeles.

Essa fundação levou para o Itamaraty discursos radicalizados de figuras como o influenciador digital Allan dos Santos (Terça Livre) em eventos de divulgação do pensamento conservador, que haviam sido mantidos mesmo após a saída de Araújo da chefia. Agora, a tendência, segundo diplomatas e especialistas ouvidos pela reportagem, é de que o Itamaraty se coloque cada vez mais longe de assuntos polêmicos.

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Em sua atuação para tirar o olavismo da política externa brasileira, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, tem trabalhado para isolar o influenciador digital Filipe Martins, assessor de Bolsonaro para assuntos internacionais. E tem conseguido.

O colunista Guilherme Amado, do Metrópoles, revelou nesta semana que, seguindo no esforço para tirar o olavismo da política externa brasileira, o ministro Carlos França tem trabalhado para isolar o influenciador digital Filipe Martins, assessor de Bolsonaro para assuntos internacionais.

Ajudou na perda de espaço desse antes influente assessor ele ter se tornado réu pela Justiça Federal do DF, acusado de ter feito um gesto racista numa audiência no Senado – o que ele nega.

A tentativa de formar alianças conservadoras

Essa mudança de rumo na política externa deverá significar também o enfraquecimento dos esforços do Brasil para fomentar alianças com países governados por políticos com ideias próximas às do bolsonarismo, seguindo também a mudança de ares no mundo.

Houve uma janela de oportunidade para o florescimento desse tipo de iniciativa entre 2019 e 2020, de acordo com o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV de São Paulo e pesquisador dos movimentos de extrema-direita no mundo.

“O Brasil conseguiu participar de uma articulação entre governos conservadores, como os dos Estados Unidos, sob Donald Trump, da Hungria, da Polônia e de Israel. Foi uma convergência relevante. Mas Trump deixou o cargo e nem o Brasil nem esses outros países têm condição diplomática de tocar essas iniciativas sem um parceiro relevante como os EUA”, analisa ele em conversa com o Metrópoles.

O ex-chanceler aproveitou essa janela. Conseguiu desfazer de vez a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), iniciativa que remontava a um período de governos de esquerda no continente e que já vinha enfraquecida, e formou, em setembro de 2019, junto a Argentina (então governada por Maurício Macri), Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru, o Foro para o Progresso e Integração da América do Sul (Prosul).

Era uma tentativa de guiar o continente para políticas mais liberais, mas a iniciativa não alcançou o efeito esperado, como tem admitido o próprio Araújo em lives desde que deixou o cargo, e nenhum outro país ingressou no fórum desde sua criação, apesar de Bolívia (então governada pela direitista Jeanine Áñez), Suriname e Uruguai terem sido convidados ainda em 2019.

Outra iniciativa em que o Brasil embarcou, dessa vez liderada pelos EUA de Trump, foi a Aliança Internacional pela Liberdade Religiosa, lançada em fevereiro de 2020 e tendo como outros signatários países como Albânia, Bósnia e Herzegovina, República Tcheca, Geórgia, Grécia, Hungria, Israel, Polônia e Ucrânia.

Para o professor Guilherme Casarões, é “pouco provável” que essas iniciativas ainda tenham fôlego num futuro próximo.

“As dificuldades são crescentes. Há a mudança do governo americano, a mudança do governo de Israel, que também não me parece interessado em fomentar essas pautas neste momento, e o próprio governo brasileiro entendeu a uma certa altura, com a mudança de chanceler, que eles não têm como sustentar pautas que desgastam politicamente o país. O Ernesto tinha uma obstinação de manter uma uma inflexão ideológica que certamente o Carlos França não tem”, avalia o pesquisador.

O futuro não está escrito

Para o especialista em relações internacionais Tomaz Oliveira Paoliello, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), essa guinada na política externa brasileira não indica, necessariamente, que mais nada de dramático vá acontecer nesse campo até o fim do governo.

“Neste momento, a política externa será discreta por força das circunstâncias. O governo vive uma crise interna que demanda as energias, e há outros grandes assuntos para tratar além da crise política que a CPI amplia, como a própria pandemia. Mas mais para o fim do mandato é possível que Bolsonaro se volte novamente para essas questões externas, se o contexto se mostrar favorável”, avalia.

Sobre o Prosul, Paoliello acredita que ainda faltam horizontes que transformem o fórum em algo mais útil para os países. “Para que serve o Prosul? Se for apenas para enterrar a Unasul, vai perder relevância. Quando funcionou, a Unasul era uma espécie de graxa na engrenagem da política do continente e servia para possibilitar um diálogo entre governos muitas vezes não alinhados. Sentavam na mesma mesa Evo Morales (ex-presidente da Bolívia) e Álvaro Uribe (ex-presidente da Colômbia)”, exemplifica.

“Se formulavam políticas para a saúde pública, cooperações militares. Depois, a Unasul perdeu esse poder, sobretudo com a chegada de governos mais antagônicos, esse diálogo ficou muito dificultado. Mas a Unasul ainda precisa buscar ser mais útil se quiser ter mais relevância”, completa.

Bolsonarismo raiz se sente traído

A queda de Ernesto Araújo e o pragmatismo na política externa brasileira devem muito à pressão de políticos do Centrão, que cobraram de Bolsonaro essa guinada para manterem seu apoio ao governo.

O abandono de uma importante pauta de campanha, porém, segue repercutindo mal entre os apoiadores mais fiéis do presidente, também ligados ao guru Olavo de Carvalho.

Ernesto não virou crítico do governo, mas tem reclamado quando dá entrevistas a sites conservadores do fim do ímpeto na luta antiglobalista.

Outros porta-vozes do bolsonarismo vão mais longe. Veja, por exemplo, essa postagem do editor de um dos maiores sites de apoio a Bolsonaro, o Crítica Nacional:

Com a palavra, o Itamaraty

Em resposta a consulta do Metrópoles, o Ministério das Relações Exteriores informou em nota que “o Brasil considera que o Prosul tem cumprido com seus objetivos como foro de concertação regional flexível, com capacidade de avaliar e trabalhar conjuntamente alguns dos principais desafios regionais, sem que seja necessário criar uma estrutura burocrática pesada e custosa, como acabou sendo a Unasul”.

A pasta argumentou ainda que “assim como aconteceu com outros mecanismos e organizações regionais, o funcionamento do foro foi afetado pela pandemia, tema que se tornou o foco das atividades”, e disse que “interessa ao Brasil que outros países da região se somem à iniciativa como signatários e participantes plenos”.

Veja a íntegra da nota:

O Prosul foi criado em 2019, por iniciativa do Chile, em substituição à Unasul. Suas bases foram definidas na “Declaração Presidencial sobre a Renovação e o Fortalecimento da Integração da América do Sul”, assinada em 22/03/2019 por Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru.

Interessa ao Brasil que outros países da região se somem à iniciativa como signatários e participantes plenos. Suriname e Uruguai, embora não sejam signatários do Prosul, costumam acompanhar as reuniões como convidados.

Assim como aconteceu com outros mecanismos e organizações regionais, o funcionamento do foro foi afetado pela pandemia, tema que se tornou o foco das atividades. Em 2021, sob a Presidência Pro Tempore (PPT) da Colômbia, foram realizadas reuniões de Ministros da Saúde (9/2) e de Presidentes (25/2) sobre o tema das vacinas contra a Covid-19. Realizou-se, igualmente, reunião de Presidentes do Prosul com o Presidente do BID (16/3) sobre a retomada do crescimento econômico pós-pandemia, da qual participou o senhor presidente da República [Jair Bolsonaro].

Na área técnica, o Prosul conta com os seguintes Grupos de Trabalho temáticos: (i) infraestrutura; (ii) energia; (iii) saúde; (iv) defesa; (v) segurança e combate ao crime; (vi) desastres; e (vii) meio ambiente. O Brasil participa de todos os grupos. O Brasil considera que o PROSUL tem cumprido com seus objetivos como foro de concertação regional flexível, com capacidade de avaliar e trabalhar conjuntamente alguns dos principais desafios regionais, sem que seja necessário criar uma estrutura burocrática pesada e custosa, como acabou sendo a Unasul.

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