Itamaraty promove livro e evento com jurista adepto do antiglobalismo

Enquanto novo chanceler tenta voltar ao pragmatismo, Evandro Pontes, aluno de Olavo de Carvalho, terá livro de viés monarquista publicado

atualizado 03/06/2021 9:11

ministro carlos frança de máscaraGustavo Magalhães/MRE

Os primeiros meses após a demissão do diplomata Ernesto Araújo do cargo de chanceler, no fim de março, têm sido marcados por uma tentativa de o sucessor, Carlos França, dar uma guinada pragmática à política externa brasileira. Ainda há no Itamaraty, porém, uma trincheira da guerra cultural promovida pelos seguidores do professor on-line de filosofia Olavo de Carvalho lutando contra vilões e um suposto plano de dominação mundial pela esquerda, que chamam de globalismo.

Essa trincheira está no braço da pasta responsável pela documentação e pesquisa sobre a diplomacia brasileira, a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag).

Comandada desde o início do governo Bolsonaro por um diplomata que se tornou entusiasta apaixonado do olavismo, o ministro Roberto Goidanich, a Funag se tornou um dos principais canais de divulgação do pensamento radicalizado ideologicamente que guia uma parte do governo de Jair Bolsonaro. A organização já promoveu, e tentou divulgar para milhões de servidores, palestras com investigados pelo STF no Inquérito das Fake News, como o jornalista Allan dos Santos e o influenciador bolsonarista Bernardo Kuster.

Com a saída de Ernesto, a Funag vinha mantendo um perfil mais técnico e promovendo conferências apenas com diplomatas. O antiglobalismo, porém, vai voltar ao Itamaraty pelas mãos do jurista Evandro Pontes no próximo dia 9 de junho, com um evento para marcar o lançamento do livro de viés monarquista Os Pilares da Independência do Brasil, de autoria do próprio Pontes e publicado pelo Itamaraty.

Aluno de Olavo de Carvalho, Pontes é figurinha repetida no Itamaraty no governo Bolsonaro. Em novembro de 2019, ele teve passagens pagas pelos cofres públicos para viajar de São Paulo a Brasília e dar, no auditório do Instituto Rio Branco, a conferência A virtude do nacionalismo, na qual defendeu que o Brasil foi fundado em uma “missão nacionalista” desde os tempos do Império, mas que houve uma interrupção e “venda” do país ao globalismo a partir dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990.

Por esse ponto de vista, Bolsonaro estaria retomando o caminho da virtude com a ajuda de Araújo.

“A nossa missão desde 1750 é essa [nacionalismo]. A gente se subverteu um pouco no período [depois do impeachment de Collor, em 1992], tentando transformar o Brasil em uma peça do jogo globalista; e a coisa aprofunda muito com o Foro de São Paulo. Quando a gente começa a mandar dinheiro pra Cuba, pra Venezuela, o caldo entorna, mas a coisa foi preparada antes, no governo FHC, que foi o cara que abriu caminho pra retirar nossa missão nacionalista”, discursa Pontes, em vídeo mantido no canal da Funag no YouTube.

Com outros livros publicados e currículo acadêmico de destaque, com graduação, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP), o jurista também revela na palestra ao Itamaraty que não encontra mais espaço para falar na instituição em que estudou por 21 anos nem em nenhuma outra universidade, ou mesmo na mídia, desde que abraçou as teorias conspiratórias olavistas.

“É uma discussão vedada”, lamentou ele, que vê no Foro de São Paulo, fórum de debates de partidos de esquerda sul-americanos, “uma das formas mais perfeitas e acabadas de imperialismo tirânico”.

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O novo evento com o olavista

O livro de Pontes a ser lançado pela Funag é uma pesquisa histórica sobre dom João VI, dom Pedro I, dona Leopoldina e o Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro. “Dom João VI teria sido o primeiro a ver no Brasil a verdadeira ‘Arca da Aliança’ para custodiar as tábuas da lei da Casa de Bragança, a saber, a Bíblia Sagrada e toda a sabedoria católica dos santos doutores, junto das Ordenações do Reino. É, pois, da busca dessa ‘Arca Perdida chamada Brasil’, com seus respectivos heróis e valores, que a obra trata”, diz o resumo.

Procurado pelo Metrópoles, o Itamaraty informou apenas que “a obra foi escolhida por critérios estritamente técnicos para integrar a coleção ‘Bicentenário: Brasil 200 anos – 1822-2022′”.

A reportagem não conseguiu falar com o jurista Evandro Pontes, que já foi figura fácil nas redes sociais, mas deixou o Twitter em 2020 e, em 30 de abril último, teve, por pedido próprio, removidos todos os materiais que havia postado no podcast de extrema direita bolsonarista Shock Wave News.

Um dos elos entre Pontes e o governo brasileiro é outro olavista que permanece com cargo público, o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins.

O colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, revelou no último dia 31 de maio que Carlos França trabalha nos bastidores para convencer o presidente Jair Bolsonaro a tirar Martins da assessoria palaciana e mandá-lo para longe, como já ocorreu com outros olavistas, como os irmãos Weintraub, que ganharam cargos em órgãos internacionais. Ministro e assessor, segundo a apuração de Gadelha, não se dão e Martins nem sequer acompanhou a comitiva presidencial na recente viagem ao Equador.

Veja um exemplo do pensamento que Evandro Pontes levou ao Itamaraty sob Ernesto Araújo em 2019:

Pontes é também colunista do jornal virtual Brasil Sem Medo, que tem Olavo de Carvalho como um dos idealizadores e virou uma espécie de veículo parceiro da Funag sob a gestão Goidanich/Araújo, tendo as duas entidades promovido, em setembro de 2020, o evento A conjuntura internacional no pós-coronavírus, com a nata do negacionismo virtual sobre a pandemia.

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