Foro de São Paulo é coisa do passado? Conheça o “Grupo de Puebla”

Organização que reúne políticos de esquerda sul-americanos, como Lula e Alberto Fernández, entra na mira da militância bolsonarista

atualizado 21/10/2019 18:57

Daniel Ferreira/Metrópoles

O acirramento das tensões na América Latina, na esteira das revoltas que explodiram no Chile, levou o presidente Jair Bolsonaro (PSL) a alertar mais uma vez para o perigo do Foro de São Paulo. “Está mais vivo do que nunca!”, publicou o perfil presidencial no Twitter, acompanhado por um vídeo no qual o presidente venezuelano Nicolás Maduro diz que o plano da organização, que reúne partidos de esquerda, “está sendo cumprido”. Nas redes da militância bolsonarista, porém, começam a ganhar força as denúncias contra outra entidade que reúne líderes esquerdistas: o Grupo de Puebla, ou Pacto de Puebla, apontado como uma espécie de sucessor do Foro de São Paulo com o mesmo objetivo: implantar o comunismo no continente.

Perfis que apoiam o presidente Jair Bolsonaro tem insinuado que esse novo grupo, que se reuniu pela primeira vez em julho deste ano, na cidade mexicana de Puebla, no México (daí o nome), estaria agindo para estimular os recentes protestos em países como Peru, Equador e agora o Chile. O Brasil estaria na mira do grupo, avisam as postagens.

O Metrópoles já mostrou que o Foro de São Paulo existe de fato e faz reuniões periódicas, mas que seu poder e influência costumam ser vistos de maneira exagerada pela direita. O Pacto de Puebla segue um roteiro parecido. Ele surgiu de um seminário do qual participaram políticos como Fernando Haddad, candidato derrotado a presidente do Brasil, Rafael Correa, ex-presidente do Equador, e Fernando Lugo, ex-presidente do Equador.

Desde então, o grupo tem soltado comunicados para se posicionar sobre assuntos de relevância que atingem o continente, como os protestos no Chile. São posicionamentos que têm em comum críticas às políticas consideradas neoliberais e aos governos de direita, como o brasileiro.

O Grupo de Puebla não se comunica clandestinamente, como sugerem algumas postagens nas redes, mas encontra mais relevância nas preocupações da direita do que reverbera entre o público progressista que gostaria de atingir. No momento em que esta reportagem foi escrita, a entidade tinha apenas 350 seguidores no Instagram, 1,5 mil curtidas no Facebook e 9,8 mil seguidores no Twitter.

Em uma busca nas redes, porém, é possível achar milhares de menções, a maioria em espanhol, já que as denúncias em torno do grupo reverberam pelos países vizinhos do Brasil. Na Argentina, por exemplo, o tema ganha importância porque um dos signatários do grupo é Alberto Fernández, candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto para presidente. Além de líderes esquerdistas sul-americanos, está presente entre os signatários o ex-presidente da Espanha José Luis Zapatero.

Os membros brasileiros que participam do Grupo de Pueblo são todos do PT. Além de Haddad, que participou do encontro no México e está pré-confirmado para um próximo evento, em dezembro, no Chile, são signatários os ex-presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e os ex-ministros Celso Amorim e Aloizio Mercadante.

Sem Cuba e Venezuela
O Grupo de Puebla tem uma diferença marcante em relação ao Foro de São Paulo: a ausência dos ditadores do continente entre seus membros. Não participam dos debates nem Maduro nem representantes da ditadura cubana. Os comunicados não trazem, no entanto, críticas abertas a esses regimes.

No caso da Venezuela, por exemplo, o grupo condena qualquer ameaça de intervenção militar externa, mas admite a existência de uma enorme crise no país e defende “diplomacia, diálogo e negociação como únicas vias para a solução do conflito”. Com isso, os esquerdistas buscam fazer um contraponto ao Grupo de Lima, que reúne autoridades de países que tem trabalhado para tirar Maduro do poder na Venezuela.

“Problema inventado”
A possibilidade de que líderes de esquerda reunidos no Grupo de Puebla (ou no Foro de São Paulo) consigam influenciar revoltas populares no continente não é tratada com seriedade pelo cientista político Rui Tavares Maluf, pesquisador da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP). “Até porque, se fossem tão influentes não estariam quase todos fora do poder”, avalia o professor. “Essas organizações existem como arenas de debate. Insistir em vê-las como influenciadoras da geopolítica continental é pura teoria da conspiração”, provoca ainda.

Para Maluf, boa parte dos influenciadores digitais sabe que está exagerando as fazer as denúncias. “Mas é um comportamento que serve para manter um espírito de polarização na sociedade, que é uma forma de se manter força e capital político em um momento em que claramente tem faltado tranquilidade para fazer o trabalho de administração pública”, conclui o cientista político.

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