Fundação do Itamaraty quis divulgar palestras de bolsonaristas investigados

A fundação do Itamaraty quis usar sistemas de comunicação internos para anunciar palestras de Bernardo Kuster e Allan dos Santos

atualizado 02/07/2020 14:16

A Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, tentou usar sistemas de comunicação internos do governo federal para divulgar a milhões de servidores públicos palestras realizadas por blogueiros apoiadores do governo de Jair Bolsonaro investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O jornal O Globo teve acesso a documento que comprova a tentativa feita às vésperas da Polícia Federal deflagrar uma operação contra os mesmos blogueiros que a Funag tentava divulgar, mas não o fez. No mesmo dia da ação da PF, o Ministério da Economia rejeitou o pedido feito pela fundação.

A Funag é voltada para a difusão de temas da agenda política externa brasileira. Mas, ela passou a divulgar autores e obras alinhados com a corrente conhecida como “antiglobalista”, desde que o ministro Ernesto Araújo assumiu o comando do Itamaraty.

De acordo com a reportagem, uma troca de comunicações entre o presidente da Funag, Roberto Goidanich, e o secretário de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia, Wagner Lenhart, revela que o presidente enviou um ofício a Lenhart, em 21 de maio, informando que a fundação iria realizar seminários e palestras virtuais com a presença de diversos blogueiros bolsonaristas, entre eles Bernardo Kuster e Allan dos Santos.

Ambos, Kuster e Allan são investigados em inquéritos que tramitam no STF, os quais apuram a divulgação de notícias falsas (fake news), ataques a autoridades e organização de atos antidemocráticos.

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O presidente da fundação questionou se a Secretaria de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia não poderia divulgar os seminários com blogueiros bolsonaristas por meio dos sistemas internos de envio de e-mails e mensagens a funcionários públicos federais. Assim, o ministério alcançaria milhões de servidores em todo o Brasil, inclusive via aplicativo de celular.

“Nesse sentido, muito agradeceria analisar se seria possível que essa Secretaria também divulgasse em seus meios eletrônicos de comunicação junto aos servidores federais, os seminários virtuais e biblioteca digital da FUNAG”, diz o ofício.

Em 27 de maio, chegou a resposta para o tal documento. Na manhã dessa data, agentes da Polícia Federal deflagraram uma operação em diversos estados do Brasil para colher documentos, telefones e computadores de investigados no inquérito das fake news. Ao rejeitar o pedido de Goidanich, o secretário Lenhart argumentou que os canais da pasta não divulgavam informações que não fossem “diretamente relacionadas à vida funcional dos servidores, com raras exceções de pedidos internos”.

Retrospecto e posicionamento

Desde a chegada de Ernesto Araújo, a gestão da Funag é marcada pela promoção de pensadores alinhados ao bolsonarismo e ao chamado olavismo — referente ao escritor Olavo de Carvalho — e pelo veto a autores críticos à atual gestão da política externa brasileira.

Em nota, a fundação confirmou o contato com o Ministério da Economia para que fosse feita a divulgação das palestras dos investigados pela STF e classificou a medida como “perfeitamente legítima e institucional”.

“Embora a sugestão do presidente da Funag fosse perfeitamente legítima e institucional, a Secretaria respondeu que ainda estava definindo os critérios de uso das mensagens pelo Sigepe mobile, e-mail e outros canais de acesso aos servidores”, diz um treco do comunicado.

O documento ainda consta que nenhum dos palestrantes recebeu remuneração por suas participações em eventos organizados pela fundação.

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