Após denúncias de estupro, centro de João de Deus tenta manter-se vivo

Jardel, um dos 10 voluntários que restaram na casa Dom Inácio, conta que movimento caiu, mas pessoas ainda vão lá: "Vem ainda quem tem fé"

atualizado 17/04/2021 10:22

voluntário da casa de dom inácio de loyola em abadiânia, goiás, fundada por joão de deusVinícius Schmidt/Metrópoles

Goiânia – Metade dos dias da semana de Jardel Antônio Wagner, um gaúcho de 40 anos que vive em Abadiânia (GO), é dedicada aos trabalhos na Casa de Dom Inácio de Loyola, fundada por João Teixeira de Faria, o João de Deus, condenado a mais de 60 anos de prisão por crimes sexuais e que há um ano cumpre pena em prisão domiciliar.

Após o escândalo sexual, e somados os efeitos da pandemia da Covid-19, o público, que chegou a ser de 3 mil pessoas por dia, é, hoje, de apenas 50. “Vem ainda quem tem fé”, diz Jardel, um dos 10 voluntários que restaram de um grupo que já teve quase 60 integrantes.

Antes da prisão de João de Deus, o comum, nas manhãs de quarta-feira, era presenciar a Avenida Frontal, que dá acesso à casa, tomada por carros e pessoas vestidas de branco a caminho dos atendimentos. Às 7h30 da última quarta (14/4), o Metrópoles esteve na cidade e presenciou o extremo oposto.

Cerca de 95% das pousadas estão fechadas. O estacionamento que fica em frente à Casa de Dom Inácio estava vazio, sem nenhum veículo. O movimento nas ruas é restrito aos poucos estrangeiros que ou moram ou estão de passagem. Um cenário que “parece filme de faroeste”, descreve Jardel (veja o vídeo do relato dele abaixo).

Enquanto a realidade em Abadiânia é completamente diferente do que já foi outrora, o médium segue afastado das atividades na casa que fundou. Distante cerca de 30 quilômetros dali, ele segue em prisão domiciliar em Anápolis. Mês passado, inclusive, fez um ano que ele usa uma tornozeleira eletrônica.

Coincidentemente, próximo à data de um ano de uso do dispositivo eletrônico, o Ministério Público de Goiás (MPGO) recebeu novas denúncias de abusos que teriam sido cometidos por João de Deus. As denunciantes são duas mulheres, uma de Minas Gerais e outra de São Paulo.

Melancólico

Este talvez seja o momento mais melancólico vivenciado pela Casa de Dom Inácio em termos da presença do público. Imediatamente após a repercussão do caso, em 2019, houve uma redução brusca, mas a quantidade de pessoas ainda girava na casa das centenas (em torno de 400 por dia).

A procura existe, interessados ligam para saber como está, se está funcionando, mas a pandemia, na avaliação de Jardel, tem dificultado as viagens e refletido, automaticamente, nos estabelecimentos que ficam no entorno e que foram abertos durante o auge da Casa de Dom Inácio.

“Todo mundo foi embora”, afirma ele, que é responsável, dentre outras coisas, por chegar às 6h30 nos dias de atendimento (de quarta a sexta-feira), abrir as salas, preparar o espaço das entidades, esperar a conclusão dos trabalhos e fechar as portas a cada fim de turno.

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Jardel recebeu alerta do escândalo três meses antes

O gaúcho esteve ao lado de João de Deus nos momentos decisivos que antecederam e sucederam as primeiras reportagens, em dezembro de 2018, sobre os abusos sexuais cometidos pelo médium. Ele faz parte do grupo de pessoas que continuam em Abadiânia, gratas por alguma cura recebida nas intervenções espirituais e que dizem ter ouvido de entidades que deveriam ficar e construir a vida no local.

Pela ligação com a casa e a presença no local, nos últimos anos, Jardel foi arrolado como testemunha em nove processos, resultantes, até o momento, de parte das mais de 320 denúncias apresentadas por mulheres ao Ministério Público de Goiás. Ele diz nunca ter visto ou presenciado nada, mas conta que recebeu, meses antes, o alerta de que uma reportagem estava sendo produzida.

“Fiquei sabendo três meses antes”, revela. Em setembro de 2018, ele diz ter recebido a ligação de um amigo, que havia frequentado a Casa de Dom Inácio e que teria recebido a cura durante “cirurgia espiritual”. Essa pessoa, cuja identidade ele não quis revelar, alertou sobre a investigação jornalística que vinha sendo feita sobre “o seu João”.

“Sei de uma coisa que vai acontecer aí”, disse a tal pessoa, segundo ele. Era dia de atendimento na casa. João estava incorporado na sala de atendimentos e havia uma fila de espera. “Na dúvida, entrei na fila e conversei com a entidade mesmo. ‘Está para acontecer isso’, falei para ela. E a entidade respondeu: ‘você vai acompanhá-lo [João] até o fim de tudo isso'”, narra Jardel.

Foram três meses de monitoramento até o dia em que tudo veio à tona e até a última ida de João de Deus à casa, no dia 12 de dezembro de 2018, cinco dias após a reportagem do programa Conversa com Bial. Foi Jardel quem escoltou o médium e dirigiu o carro que não só o levou, mas que o tirou do local, saindo às pressas pelas ruas de Abadiânia para despistar veículos que os seguiam.

Veja o relato do voluntário:

Santa segue na cadeira de João de Deus

A última ida de João de Deus à casa, horas antes do MPGO entrar com o pedido de prisão, serviu, ainda, para que ele colocasse a imagem de Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis, sobre a cadeira que ele utilizava nos dias de atendimento. Jardel estava lá, novamente. Foi ele quem o ajudou a carregar.

Trata-se da mesma imagem que está até hoje, dois anos e quatro meses depois, posicionada na poltrona branca, ao fundo da sala das entidades. A reportagem do Metrópoles pôde comprovar isso, com o acesso ao local autorizado por Jardel, mas sem poder fazer imagens.

Com a falta de um médium sucessor, a Casa de Dom Inácio continua sem uma figura representativa em atividade. Fotos de João de Deus estão em, praticamente, todos os espaços do local. A coordenação vem sendo feita por Ricardo Mello, dono da Pousada Dom Ingrid. É ele quem aparece falando ao microfone e nas fotos postadas numa página criada no Facebook com o nome Nossa Casa de Amor.

“Quem faz todo o trabalho aqui é a espiritualidade. Não tem ninguém incorporando, ninguém fazendo atendimento. Não tem nenhum médium sentado na cadeira do seu João. A cadeira do seu João tem Santa Rita de Cássia desde o dia em que eu e ele a colocamos lá, e vai permanecer até um dia, se ele voltar ou depender do que acontecer”, diz Jardel.

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“A casa vai voltar”

Jardel é pai de três filhos, que moram no Rio Grande do Sul. Desde o início dos anos 1990, viveu uma relação de ida e volta para Abadiânia, mas está na cidade, em definitivo, segundo ele, desde 2018. Nas vezes em que tentou voltar para o estado de origem, percebeu que não daria certo e que o jeito era ficar mesmo próximo da Casa de Dom Inácio. Ele atribui isso à espiritualidade.

“A casa vai voltar. Essa casa aqui, você vai ver, vai voltar a ser o que era antes. A espiritualidade já falou”, diz ele. O mesmo é repetido por alguns dos poucos comerciantes que saíram de seus estados e cidades de origem para investirem na pequena cidade do interior goiano, que tem pouco mais de 20 mil habitantes, e que continuam no local.

São pessoas que têm uma relação espiritual com Abadiânia e que, por isso, acreditam no que dizem ter escutado das entidades. Elas seguem crendo, apesar das dificuldades que vêm passando, inclusive financeiras. E a despeito, ainda, de todas as denúncias de abusos sexuais que envolvem o nome do médium conhecido internacionalmente.

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