Abadiânia (GO) — O médium João de Deus apareceu pela primeira vez em Abadiânia (GO), nesta quarta-feira (12/12), após estourar o escândalo sexual em torno de seu nome. Ele foi acusado de abusar de mulheres durante tratamentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, onde atende pacientes há 44 anos. Por volta das 9h30 e cercado de seguranças, o líder religioso chegou de carro ao local, desceu do veículo e foi direto para a sala de orações. Na saída, disse: “Sou inocente”.

De acordo com voluntários que estavam dentro da sala de orações, o médium também refutou as denúncias de abuso e afirmou que a Justiça irá decidir sobre todas as acusações. Relataram ainda que João de Deus explicou que não se sentia confortável para fazer cirurgias espirituais e outros atendimentos. Agradeceu a oportunidade de estar no local e saiu amparado. Muitos seguidores começaram a chorar.

Um vídeo gravado no encontro com os seguidores, disse que “está na mão de lei”. Frisou ainda: “João de Deus está vivo”.

Assista ao vídeo:

Voluntário há mais de 20 anos, Cláudio José Antônio Prujá explicou que João de Deus não conseguia incorporar nesta manhã. “O médium precisa estar relaxado, tranquilo. Ele não tinha condições. Mas ele veio e mostrou a cara. Disse pra todo mundo que a Justiça vai decidir”, contou ao Metrópoles.

Os voluntários ficaram muito exaltados com a aproximação da imprensa durante a passagem do médium pela casa. No cordão feito em volta do religioso, houve empurrões, socos e ofensas verbais. A assessoria do centro comunicou que a pressão do médium aumentou, mas não soube informar se ele foi levado ao hospital.

Assim que João de Deus chegou à Casa Dom Inácio de Loyola, cerca de 100 pessoas estavam no local e o cercaram. Ele foi aplaudido e uma grande confusão se formou. Um dos voluntários contou aos jornalistas que o líder espiritual estava sem condições de fazer atendimentos em função do escândalo. Em seguida, ele se desculpou: “Se houve um erro, peço desculpas”, disse o homem – que não se identificou.

Até o momento, 450 denúncias foram protocoladas em ministérios públicos de 10 estados e no Distrito Federal. Coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de Goiás, Luciano Miranda Meireles avalia que as denúncias de abuso sexual envolvendo o líder espiritual João Teixeira de Faria têm potencial para alcançar uma dimensão maior do que a do caso de Roger Abdelmassih.

O ex-médico de reprodução assistida foi condenado a 181 anos de prisão por estupro de pacientes. “Pela movimentação que estamos assistindo, o número de mulheres que se apresentam como vítimas deverá ser maior. Há relatos de abusos ocorridos há 20 anos.”

Veja vídeo do momento da chegada de João de Deus:

 

Fila ao amanhecer
O dia ainda não havia clareado e dezenas de pessoas já formavam fila à espera do líder. O movimento, entretanto, é bem menor do que o de costume. Por volta das 7h, o clima era calmo e silencioso. O grupo se reuniu para uma corrente de orações, como sempre ocorre. “O movimento está normal para a época. Daqui a pouco, o atendimento começa e tem hora para terminar”, relatou um voluntário. Ônibus de turismo param no estacionamento e fiéis descem e engrossam a fila.

Dois fiéis de São Paulo já tinham viagem marcada para um segundo atendimento com o médium antes do escândalo. Embora acreditem que as acusações possam ser verdadeiras, preferiram manter a vinda. “Os casos precisam ser apurados”, dizem. Orientados por um guia, pegaram a senha e aguardam atendimento ainda nesta manhã.

“O que me move é a energia do lugar”, disse um deles, que trabalha na área de marketing na capital paulista. Outro observa que o movimento é muito menor em comparação à última visita, feita há cerca de 45 dias. “Não tem nem 10% das pessoas. Quando viemos, o lado de fora e a rua ficavam cheios de pessoas vestindo branco”, comentou. Ambos pediram para não serem identificados.

O líder espiritual, hoje com 76 anos, não era visto desde que o programa Conversa com Bial tornou público o relato de várias vítimas, entre brasileiras e estrangeiras. Com o paradeiro até então desconhecido, as graves acusações contra o médium levaram preocupação a uma cidade inteira – que sobrevive graças ao trabalho de cura oferecido pelo “cirurgião espiritual” na Casa de Dom Inácio. O município acompanha, apreensivo, o caso e teme que as denúncias impactem o comércio e gerem desemprego.

Dezenas de empresas do ramo de hotelaria, alimentação, joalheria e artesanato se ergueram em virtude do movimento de turistas que procuram o centro espírita de João de Deus.

Denúncias aumentam
O número de mulheres que dizem ter sido abusadas sexualmente por João de Deus ultrapassou 450. Um dia após o Ministério Público de Goiás (MPGO) criar uma força-tarefa para reunir os depoimentos, 206 vítimas revelaram o que teriam sofrido nas mãos do líder espiritual.

Dos 206 relatos recebidos pela força-tarefa em Goiás até o momento, 156 foram feitos por meio do canal exclusivo criado para receber os depoimentos, o e-mail denuncias@mpgo.mp.br. Outras 252 pessoas delataram o médium para o Ministério Público de São Paulo (MPSP). Ainda não houve comunicação oficial entre os órgãos nos dois estados e pode existir duplicidade de casos.

De acordo com o balanço divulgado pelo MPGO no fim da tarde de terça-feira (11), duas das mulheres são estrangeiras: uma vive nos Estados Unidos e a outra, na Suíça.

Além das estrangeiras, as vítimas se identificaram como moradoras do Distrito Federal e dos seguintes estados: Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) informou que fez dois atendimentos nessa terça (11).

Todas as possíveis vítimas estão sendo orientadas a procurar o Ministério Público de seu estado, que ficará responsável pela coleta das provas. Em seguida, essas informações serão enviadas para a força-tarefa do MPGO, que conta com cinco promotores de Justiça e duas psicólogas.

Além do endereço de e-mail, as denúncias podem ser feitas pelos telefones (62) 3243-8051 e (62) 3243-8052 ou presencialmente.

Investigações seguem em São Paulo
O Ministério Público de São Paulo também criou uma força-tarefa – com seis promotores e uma equipe de apoio – para apurar denúncias de abusos sexuais contra o médium.

Os depoimentos começaram a ser colhidos na terça (11). Três mulheres serão ouvidas por dia até sexta-feira (14). O órgão entrará em recesso e, portanto, as oitivas retornarão apenas no dia 7 de janeiro. Foram recebidos pelo MPSP, somente na segunda (10), 12 relatos por e-mail e 40 via redes sociais, em São Paulo. Todas as vítimas serão ouvidas em sigilo, suas identidades não serão divulgadas.

O escândalo veio à tona no programa Conversa com Bial veiculado na madrugada de sábado (8). Confira relatos:

As promotoras reforçam que as mulheres não devem se intimidar por temerem falta de punição. “Pela lei, a palavra da vítima é prova, é reconhecida como meio de prova e tem especial relevância nos crimes de natureza sexual. Pode levar a uma condenação”, disse a promotora de Justiça do Núcleo de Gênero do Ministério Público paulista, Valéria Scarance. “Você percebe que é uma narrativa com verdade e sede de justiça”, acrescentou a promotora Maria Gabriela Prado.

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) também vai receber denúncias de vítimas de crimes sexuais supostamente praticados pelo médium João de Deus. Os registros poderão ser feitos pessoalmente na sede da instituição, no Eixo Monumental, ou por meio da ouvidoria, que fará o encaminhamento ao MPGO.

Quem é João de Deus?
João Teixeira de Faria nasceu em Cachoeira de Goiás, em junho 1942. O filho de alfaiate conta em entrevistas que seus dons começaram a aparecer a partir dos 9 anos. Apadrinhado por Chico Xavier, serviu de médium para cura espiritual pela primeira vez aos 16 anos.

Ele frequentou a escola apenas até o segundo ano do ensino fundamental, e diz não saber ler nem escrever. Também trabalhou brevemente como aprendiz de alfaiate, minerador e ceramista. Vive em Anápolis, a 40 quilômetros de Abadiânia.

Depois de passar por diversas cidades, em 1976 decidiu se fixar em Abadiânia, onde fundou a Casa Dom Inácio de Loyola. O local recebe cerca de 5 mil pessoas por semana, atendidas, segundo ele, por um dos 30 médicos incorporados. “Quem cura é Deus”, costuma repetir o bordão sempre que lhe é atribuída a recuperação de algum paciente.