O inesperado “L” feito por Donald Trump
Como o novo tarifaço americano de 25% e o ataque direto ao PIX virou munição para Lula e empurrou Flávio Bolsonaro para as cordas
atualizado
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A intenção de Donald Trump certamente não era essa, mas não exagera quem diz que ele fez o “L” de Lula ao anunciar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Tarifaço ou, se preferirem, “Tariflávio”, como passou a ser chamado nas redes sociais para desespero do inexperiente e sem ideias senador Flávio Bolsonaro, candidato do seu pai à Presidência da República e herdeiro dos seus votos, pelo menos até aqui. Amanhã, talvez perca uma parte deles, nunca se sabe. Flávio sangra desde que se envolveu no escândalo do Banco Master, amiguinho de unha e carne de Daniel Vorcaro, que está preso. Está ameaçado de seguir sangrando. A política tem dessas coisas.
O PIX foi criado pelo Banco Central no governo de Jair Bolsonaro, o qual, a princípio, não soube dizer do que se tratava. Quando o informaram, explorou-o a seu favor na campanha para se reeleger. Em janeiro de 2025, a direita propagandeou que Lula taxaria o PIX — notícia falsa, mas que derrubou a popularidade de Lula. O primeiro tarifaço de Trump serviu para que Lula se enrolasse na bandeira nacional, passasse a defender a soberania do Brasil e recuperasse pontos perdidos. Ora, vejam só: agora é Trump, depois de ser visitado por Flávio na Casa Branca, que quer acabar com o PIX. Coitado do Flávio.
Perguntou-se até ontem: afinal, quando Lula e o PT começariam a bater duramente em Flávio, que há meses vem batendo duramente em Lula e no PT? O dia chegou com mais uma tentativa de Trump de intervir nos assuntos internos do Brasil. Flávio foi obrigado a defender-se publicamente três vezes no curto período de 24 horas.
Na primeira, em um vídeo, negou que tivesse pedido a Trump para punir o Brasil com um novo tarifaço, e culpou Lula pelo que Trump fez, acusando-o de se distanciar dos Estados Unidos. Não colou. Então, Flávio divulgou uma carta que diz ter enviado a Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, na qual pede a suspensão do tarifaço e agradece a equiparação de organizações criminosas do Brasil a organizações terroristas — coisa que elas não são. Não bastou.
À noite, em Belo Horizonte, disse que processará Lula por ter desejado sua morte por enforcamento. Aproveitou para comparar-se a Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira e herói nacional, morto enforcado e cujo corpo foi esquartejado. Lula chamou Flávio de “imbecil” e de “vendilhão da Pátria”, referindo-se a Joaquim Silvério dos Reis, que traiu os inconfidentes, como alguém que teria sido morto enforcado. Confundiu-se. O único enforcado foi Tiradentes. Se Flávio pensa que isso subtrairá votos de Lula, insista em vitimar-se para ver no que vai dar: em nada.
Os torpedos disparados por Trump contra o Brasil atingiram todos, em cheio, a Flávio. Trump definiu Flávio como “um rapaz esperto que ama seu país”; divulgou uma foto na qual Flávio aparece reunido com ele na Casa Branca; designou para embaixador dos Estados Unidos no Brasil um deputado da Flórida que reza pela cartilha de Rubio; e disse que apoia à presidência da Colômbia a candidatura do advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella, por sinal um admirador de Jair Bolsonaro.
Em depoimento a uma comissão do Congresso, Rubio citou Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia e Brasil como países não amigos dos Estados Unidos. Embora não confesse, Lula está grato, gratíssimo a Trump pelo apoio subliminar à sua candidatura.


