O fantasma da quarta derrota para presidente tira a máscara de Ciro

Outro dia, ele sugeriu ao PT uma “trégua de Natal”. Agora, detonou a trégua ao atirar em Dilma e Lula. Acertou no próprio pé

atualizado 14/10/2021 9:18

Bruno Menezes/Metropoles

No caso de Ciro Gomes, aspirante a candidato do PDT à Presidência da República ano que vem, nunca se sabe quando o estrategista político sai de cena e dá lugar à personalidade bronca que emerge sempre que ele se vê desafiado ou a perigo.

Alvo de militantes do PT durante as manifestações de rua contra Jair Bolsonaro no último sábado, dia 2, Ciro propôs no dia seguinte uma “trégua de Natal” para juntar forças contra o atual presidente. É preciso preservar a democracia acima de tudo!

Foi um ato de grandeza, sem dúvida, ou apenas de sabedoria política? Pouco importava. Segundo Ciro, não era o momento de dar valor a incidentes como os que ocorreram. A trégua não significaria “esquecer tudo”, mas ignorar “bobagenzinhas”.

A direção nacional do PT elogiou o gesto. Em sua primeira coletiva de imprensa, o ex-presidente Lula driblou as perguntas que davam margem a que ele criticasse Ciro. Ontem, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Ciro detonou a trégua que havia sugerido.

Chamou Dilma de “uma das pessoas mais incompetentes, inapetentes e presunçosas que já passaram pela Presidência da República”. E acusou Lula de ter conspirado pelo impeachment dela. O ataque a Dilma foi gratuito. A acusação a Lula, sem base.

Para sustentar a teoria da conspiração de Lula, Ciro amparou-se no fato de o ex-presidente estar conversando com políticos que ajudaram a derrubar Dilma, como o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o ex-senador Eunício Oliveira (MDB-CE).

Ora, ora… O que Ciro pretendia? Que Lula, tanto candidato quanto ele à sucessão de Bolsonaro, não conversasse com quem poderá apoiá-lo como já fez no passado? Que se limitasse a negociar com a esquerda, desprezando as forças do centro e da direita?

Pensou que espancando Dilma sem dó nem piedade poderia cavar um fosso entre ela e Lula? E mesmo que não conseguisse, atrairia com isso votos da direita bolsonarista insatisfeita com seu antigo mentor? Só Ciro sabe por que fez. O provável é que não dê certo.

Ciro não consegue sair da caixinha dos 10% das intenções de voto. Lula lidera com relativa folga todas as pesquisas, e Bolsonaro vem logo atrás. Ou Ciro desloca um dos dois ou perderá a Presidência pela quarta vez. Até no Ceará, seu estado, vai mal.

Para não votar em Fernando Haddad (PT) contra Bolsonaro em 2018, Ciro foi distrair-se em Paris. Está dispensado de repetir o enredo. Ano que vem, pode ficar por aqui e não votar no segundo turno. Ou anular o voto. Enganar, não pode mais.