
O terrorismo começa pela dignidade humana (por Gaudêncio Torquato)
Terrorismo. O assunto está ordem do dia, a partir do impulso conferido ao tema pelo governo americano – leia-se Donald Trump

Terrorismo. O assunto está ordem do dia, a partir do impulso conferido ao tema pelo governo americano – leia-se Donald Trump – ao classificar facções do crime organizado como “organizações terroristas”, incluindo o PCC e o CV, no Brasil.
O cenário atual do terrorismo global é marcado por transformações geopolíticas tecnológicas e regionais. As principais características desse fenômeno na atualidade incluem extremismo fundamentalista (grupos que utilizam interpretações radicais da religião para justificar atos violentos, com forte atuação de facções a redes transnacionais no Oriente Médio e no Norte e Centro da África); vertentes ideológicas; grupos da Supremacia Branca e extrema Direita; terrorismo político e separatista (movimentos que lutam por independência territorial ou que realizam ataques para desestabilizar governos específicos); apropriação dos bens públicos (infiltração de membros das quadrilhas nas malhas governamentais com o objetivo de angariar patrimônio – calcula-se que organizações como o PCC e o CV têm em seus cofres mais de R$ 10 bilhões).
As áreas mais afetadas abrangem a África Subsaariana, considerada um dos grandes epicentros da atividade terrorista global, concentrando a maioria dos países mais atingidos por ações de milícias e grupos insurgentes; Na Ásia Meridional, regiões como o Paquistão historicamente lideram os índices de impacto e número de fatalidades e incidentes, enquanto o Oriente Médio continua sendo um ambiente de tensão, abrigando grupos armados, milícias e governos que financiam ou sofrem com esse tipo de instabilidade. No Brasil, a tendência é de queda, na contramão de países ocidentais, que têm registrado um crescimento nos índices de violência, impulsionados pela polarização política, islamofobia e antissemitismo.
Por aqui, foram cerca de 42.500 assassinatos no ano passado, representando uma retração de mais de 7% em comparação ao ano anterior. Apesar da tendência nacional de queda, o cenário é de desigualdade regional. A violência concentra-se fortemente em bolsões específicos do país, com destaque para alguns estados das regiões Norte e Nordeste que ainda apresentam taxas de homicídios muito superiores à média brasileira (como Amapá, Bahia e Ceará).
Para combater o crime organizado, os governos ocidentais têm usado suas armas, suas forças de segurança e seus mecanismos de controle.
A questão que se coloca é a seguinte: as estratégias usadas têm sido capazes de conter a expansão das organizações terroristas? Será que não haveria outro olhar para administrar o problema?
Vejamos.
Em 2006, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, o economista e banqueiro Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank e pioneiro do microcrédito, pronunciou uma reflexão que permanece extraordinariamente atual em um mundo marcado pela expansão do terrorismo, pelos conflitos regionais e pela crescente radicalização ideológica. Para Yunus, o terrorismo não pode ser derrotado apenas pelas armas. É necessário condená-lo com firmeza moral e política, mas, sobretudo, enfrentar as causas profundas que alimentam a violência.
A experiência das últimas décadas mostra que os grandes aparatos militares, por si sós, não conseguiram erradicar o terrorismo. Pelo contrário, em muitos casos, as ações bélicas acabaram gerando novos ressentimentos, ampliando o ciclo de ódio e oferecendo terreno fértil para a proliferação de grupos extremistas. O combate militar é indispensável quando se trata de proteger populações e impedir ações criminosas, mas ele representa apenas uma parte da solução.
Muhammad Yunus propõe uma visão mais ampla. Segundo ele, a verdadeira paz nasce do desenvolvimento humano. Onde predominam a pobreza extrema, a falta de perspectivas, a exclusão social, a ausência de educação e a desesperança, surgem condições propícias para o recrutamento de jovens por organizações terroristas e movimentos radicais. A miséria, a desigualdade e a marginalização constituem, frequentemente, o húmus em que germinam o fanatismo e a violência.
Essa compreensão não significa justificar o terrorismo. Nada pode justificar o assassinato de inocentes, o ódio religioso ou os ataques contra a convivência civilizada. Significa apenas reconhecer que a repressão, sem políticas sociais e sem oportunidades de ascensão econômica, produz resultados limitados e temporários.
A história recente demonstra que sociedades mais inclusivas e com melhores indicadores de educação, renda e mobilidade social tendem a apresentar menor incidência de extremismos violentos. Investir em escolas, em saúde, em geração de empregos e em programas de combate à pobreza pode ser tão importante para a segurança mundial quanto investir em arsenais e equipamentos militares.
A mensagem de Yunus adquire relevância especial num tempo em que conflitos se multiplicam no Oriente Médio, na África, na Ásia e mesmo em países ocidentais. O terrorismo contemporâneo já não conhece fronteiras. Ele se alimenta das redes digitais, da polarização ideológica e das frustrações sociais, exigindo respostas que transcendam a lógica puramente militar.
Talvez a grande lição do Nobel da Paz de 2006 seja esta: a segurança não é construída apenas com tanques e mísseis. Ela depende, fundamentalmente, da esperança oferecida aos seres humanos. Uma criança que frequenta a escola, um jovem que encontra trabalho, uma família que consegue viver com dignidade representa vitórias silenciosas contra a intolerância e o extremismo.
As armas podem destruir terroristas. Mas apenas a justiça social é capaz de destruir as raízes do terror.
Ao lembrar as palavras de Muhammad Yunus, compreendemos que a paz não é apenas a ausência de guerra. Ela é, antes de tudo, a presença da dignidade humana. E talvez seja exatamente essa a mais poderosa estratégia de segurança que a humanidade ainda precisa aprender a colocar em prática.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político
