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O dia em que Brizola decidiu fazer a elite engolir o "sapo barbudo"

Nos bastidores da eleição de 1989, a lição de que transferência de votos por ordem do líder é balela. É o povo que decide

19/08/2026 04:30
Reprodução/Twitter
homem de barba e homem mais velho usando camisas sociais conversam em foto preto e branco

Ao perder para Lula, pela diferença minúscula de 0,63% dos votos totais, o direito de enfrentar Fernando Collor no segundo turno da eleição presidencial de 1989 — a primeira pelo voto popular desde o fim da ditadura de 1964 —, o ex-governador do Rio Leonel Brizola, do PDT, inicialmente chorou pitangas. Mas, depois, teve uma ideia.

Chamou o deputado Miro Teixeira para uma reunião no seu apartamento em Copacabana, com ampla vista para o mar. Ele o incumbiu de uma missão que deveria permanecer secreta, desse resultado ou não. Brizola estava convencido de que Lula perderia para Collor, que contava com o apoio maciço da direita.

Miro deveria embarcar de imediato para São Paulo ao encontro de Mário Covas, o candidato do PSDB que fora o quarto nome mais votado no primeiro turno. A missão era perguntar-lhe se toparia disputar o segundo turno contra Collor. Se a resposta de Covas fosse “sim”, Brizola se encarregaria de convencer Lula a abdicar de tal direito.

Missão dada, missão cumprida com a urgência necessária. Covas pediu a Miro algum tempo para pensar a respeito e consultar suas bases. Mas já no dia seguinte, em telefonema para Miro, que já havia retornado ao Rio, pediu-lhe que informasse a Brizola que declinava do convite. Não fora ele o escolhido pelo povo, e sim Lula. Não daria certo.

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Àquela altura, fervia o caldeirão do PDT com a indefinição de Brizola quanto a apoiar Lula ou não. Um congresso extraordinário do partido fora convocado para deliberar a respeito no domingo, 26 de novembro, onze dias após o primeiro turno da eleição. Cerca de 2.600 delegados e militantes aguardavam Brizola no Riocentro.

À saída do seu apartamento, ainda hesitante sobre o que fazer, Brizola esbarrou em uma vizinha de prédio que, ao cumprimentá-lo, comentou:

— É, governador, vamos ter de engolir aquele sapo barbudo — referindo-se a Lula.

O clima no Riocentro era amplamente favorável ao apoio a Lula. Brizola rendeu-se à realidade ao dizer:

— A política é a arte de engolir sapo. Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?

Foi delirantemente aplaudido. E aprendeu a lição de que o eleitor não espera a palavra do líder para decidir em quem votar, especialmente no segundo turno. O povo está cada vez menos bobo.

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