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Diferença entre salários de CEOs e trabalhadores é foguete sem freio

Um executivo receber 1.151 vezes mais do que um funcionário médio amplia a concentração de renda e a desigualdade

18/08/2026 13:00, atualizado 18/08/2026 13:16
Hugo Barreto/Metrópoles
imagem colorida operadora da B3 com computador diante de gráfico do Ibovespa

Vivemos em uma lógica que permite que um CEO ganhe mil vezes mais que um funcionário da mesma empresa.  Ou que empresas menores paguem mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, sem transparência ou critérios. As remunerações milionárias dos executivos das grandes empresas brasileiras exigem duas perguntas: quanto vale o trabalho de um CEO — e quem decide quanto ele deve receber?

O mestre em contabilidade Renato Chaves realizou um estudo independente a partir de dados da CVM (Comissão de Valores Imobiliários). Os resultados mostram essa disparidade corporativa. Em 2025, a remuneração máxima nas empresas do Ibovespa foi, em média, 434 vezes superior ao salário mediano dos trabalhadores. O número representa um salto em relação às 184 vezes registradas no ano anterior.

O caso exemplar é  da Smart Fit. A remuneração de seu principal executivo chegou a cerca de R$ 19,6 milhões em 2025, enquanto o salário mediano de seus funcionários foi de aproximadamente R$ 17.080 por ano. A diferença chega a 1.151 vezes.

Mas a desigualdade não aparece apenas quando se compara o executivo ao trabalhador. Ela também surge quando se confronta o salário do CEO com empresas similares. Nas companhias com receita de até R$ 5 bilhões, a remuneração média dos executivos ficou em torno de R$ 8,9 milhões. Um dos casos destacados pelo estudo é o da Multiplan: com faturamento de aproximadamente R$ 2,9 bilhões, seu CEO recebeu cerca de R$ 24 milhões — valor superior ao pago aos presidentes de empresas muito maiores, como Klabin e Natura.

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Entre companhias com receita de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões, a média da remuneração de CEOs chegou a R$ 9,9 milhões. A Smart Fit pagou cerca de R$ 19 milhões e a Totvs, aproximadamente R$ 21 milhões. No grupo de empresas com faturamento entre R$ 10 bilhões e R$ 30 bilhões, a média ficou em cerca de R$ 17 milhões. O presidente da B3 recebeu ao redor de R$ 47 milhões, enquanto o executivo da Prio chegou a quase R$ 68 milhões, segundo o especialista.

Os números questionam a existência de uma relação objetiva entre faturamento e remuneração executiva. Se empresas menores podem pagar mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, é preciso investigar quais critérios estão determinando esses valores.

Um dos argumentos das empresas é o da atração, retenção e incentivo de talentos. Executivos capazes de comandar grandes organizações e gerar resultados são profissionais escassos e disputados pelo mercado.

Quem fiscaliza quem?

As assembleias de acionistas aprovam uma verba global destinada à remuneração dos administradores. Cabe então ao conselho de administração distribuir esse montante entre os executivos e demais administradores. O problema, segundo Chaves, surge quando o próprio conselho não exerce uma fiscalização efetiva sobre esses valores.

O dilema ético envolve aqueles que participam da decisão sobre a remuneração também são beneficiários dela. Por isso Chaves questiona o comportamento dos conselheiros. Segundo sua avaliação, conselheiros que recebem remunerações elevadas podem ter pouco incentivo para confrontar os executivos e seus salários excessivos. Afinal, isso pode colocar em risco a própria permanência no conselho.

O acionista minoritário como último fiscal

A fiscalização deveria partir principalmente dos acionistas minoritários, já que parcela relevante do dinheiro investido nas empresas não pertence necessariamente a investidores individuais, defende Chaves. Pode ser aplicada, direta ou indiretamente, por fundos de pensão, fundos de investimento e planos de previdência. O pequeno acionista, nesse sentido, pode ter pouca influência econômica individual, mas possui um instrumento importante: o direito de participar das assembleias e questionar os administradores.

O especialista afirma que compra pequenas quantidades de ações de diversas empresas justamente para poder participar desses processos e fazer perguntas. A estratégia transforma o acionista minoritário em uma espécie de fiscal externo da governança.

Por fim, Chaves levanta um questionamento. Executivos são recompensados quando determinados indicadores melhoram. Mas o que acontece quando decisões estratégicas produzem desastres? Casos como o da Vale em Brumadinho alimentam o debate. Em grandes organizações, decisões tomadas no topo podem produzir consequências que atingem milhares de pessoas, mas a responsabilização nem sempre acompanha a hierarquia decisória. Isso coloca em dúvida uma das premissas da remuneração variável: se o executivo recebe mais quando cria valor, deveria também assumir uma parcela proporcionalmente maior do custo quando destrói valor.