Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

O adoecimento mental do trabalhador de entrega (por Fernando Flores)

Para a empresa, o lucro é maximizado. Para o trabalhador, o que sobra é a precariedade.

02/10/2026 10:13
Metrópoles
Governo quer regular segmento de entregadores

Trabalho de entregador por aplicativo no Brasil já não pode ser compreendido apenas como uma versão moderna do trabalho informal. É uma nova forma de organização da vida e do corpo, que atualiza lógicas históricas de controle e que está deixando marcas profundas na saúde mental de quem pedala e pilota pelo país.
Os números mostram o tamanho do fenômeno. Segundo a PNAD Contínua sobre Trabalho por Plataformas Digitais divulgada pelo IBGE, cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no país em 2025. Desse total, 1,959 milhão são classificados como “plataformizados” e representam 1,9% de todos os ocupados no Brasil.

O feitor agora é o algoritmo em seu livro Crítica da Razão Negra, o filósofo Achille Mbembe descreve a fazenda plantation não apenas como um modelo econômico, mas como um modelo de organização de corpos. Nela, a vida do trabalhador estava permanentemente exposta à vontade de um senhor, sem vínculo, sem proteção, com sua energia vital extraída ao máximo.

O paralelo com o funcionamento dos aplicativos de entrega é funcional. O controle, que antes era físico e feito pelo feitor, hoje é algorítmico. O entregador é monitorado em tempo real por GPS, tempo de entrega, taxa de aceitação de corridas e nota dada pelo cliente. A punição também existe, mas vem em forma de bloqueio, redução de chamadas e exclusão da plataforma, muitas vezes sem direito a defesa ou a falar com um ser humano. O resultado para quem trabalha é um estado de hipervigilância constante e de desamparo.

Outro ponto apontado por Mbembe é a descartabilidade do corpo. A plantation se sustentava na ideia de que alguns corpos valem menos. No Brasil, o perfil de quem faz entrega é majoritariamente de jovens, negros e periféricos. São corpos expostos diariamente à violência urbana, ao racismo de clientes e restaurantes, aos acidentes de trânsito e as intempéries do tempo, sem qualquer estrutura de proteção. O corpo é a principal ferramenta de trabalho e o primeiro a ser sacrificado. A lógica é a mesma: extrair tudo e não se preocupar em proteger.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

ACUMULAÇÃO POR ESPOLIAÇÃO

Quem paga a conta do lucro: em O Novo Imperialismo, o geógrafo David Harvey chama de acumulação por espoliação a produção de riqueza que não cria valor novo, mas transfere custos e direitos de um grupo para outro. É o que acontece na economia dos aplicativos. Todos os custos e riscos da operação são transferidos para o trabalhador, moto, bicicleta, gasolina, manutenção, plano de dados, alimentação e o risco de um acidente. Ao mesmo tempo, são esvaziados direitos historicamente conquistados como férias, 13º salário, FGTS, INSS, seguro de vida, pausa para descanso e adicional de periculosidade.

Para a empresa, o lucro é maximizado. Para o trabalhador, o que sobra é a precariedade. É por isso que não há um programa efetivo de cuidado. Mitigar o sofrimento custa, e o modelo de negócios se sustenta justamente em não arcar com esse custo.

O que as empresas têm feito?

Este é o ponto central. Hoje as plataformas se apresentam como “intermediadoras tecnológicas”, não como empregadoras, o que juridicamente as desobriga de cuidar. As ações que existem são paliativas e de caráter de marketing. O seguro pessoal contra acidentes, por exemplo, só é válido enquanto o pedido está em andamento, não cobre o trajeto até casa e muito menos o adoecimento mental.
Os pontos de apoio com água e banheiro são em número irrisório para uma frota de mais de 2 milhões trabalhadores “plataformizados” no Brasil.
E os cursos e campanhas de segurança, na prática, transferem novamente a responsabilidade para o entregador com o discurso do “pilote seguro”.

Não há, na prática, o que é considerado essencial para a saúde no trabalho. Um programa de gerenciamento de riscos psicossociais, um canal de escuta com sigilo e sem retaliação, limite de jornada, suporte psicológico contínuo e o reconhecimento de que existe uma relação direta entre esse trabalho e o adoecimento mental.

O modelo de plataforma atualiza o plantation não na forma de correntes, mas na forma de gestão por aplicativo. Ele produz um trabalhador hiper-responsável por tudo e sem direito a nada. Uma condição ideal para o adoecimento mental. Mitigar esse dano exigiria que as empresas assumissem exatamente o que seu modelo de negócios nega, que elas são, de fato, quem organiza e controla o trabalho desses sujeitos.

Fernando Flores é jornalista e estudante de psicologia